Mergulho Militar

Uma história de inovação


Fuzileiros navais americanos usando rebreathers MK 25 se preparam para entrar na água durante
treinamento de mergulho de combate e reconhecimento de praia.

De acordo com a lenda, o mergulho militar de combate se originou aproximadamente em 480 A.C. em uma operação de retaliação contra o Rei Xerxes da Pérsia. Originalmente empregados como mergulhadores de salvatagem, Scyllas e sua filha, Cyana (ou Hydna), se encontraram reféns de Xerxes, que queria garantir seus serviços durante suas guerras contra os gregos. Em uma noite de tempestade, a dupla escapou nadando para o mar e respirando através de juncos ocos. Durante o mergulho eles cortaram as linhas de amarração da frota de Xerxes, fazendo com que muitos barcos colidissem e fossem danificados ou naufragassem nas águas revoltas.

Um século e meio mais tarde, durante o cerco a Tyre em 332 A.C., os mergulhadores militares de Alexandre o Grande usaram um protótipo rudimentar de um sino de mergulho para ajudá-los a remover obstruções da água. Os sinos de mergulho que Alexandre comissionou eram feitos de vidro para que os nadadores combatentes pudessem examinar o fundo do mar. Existem inclusive rumores de que o próprio Alexandre tenha usado os sinos de mergulho para inspecionar o trabalho de seus homens.

Com equipamentos cada vez mais sofisticados, os mergulhadores militares modernos são essenciais para muitas missões e campanhas. Além de missões de combate e demolição, os mergulhadores militares realizam reconhecimentos subaquáticos, desminagens, construções, manutenção de navios, buscas e resgates, operações de salvatagem, mergulhos de saturação e engenharia subaquática. Todas as forças militares americanas empregam mergulhadores, e mais de 40 nações possuem operações militares atualmente.

O mergulho militar é uma classificação de elite que implica riscos e responsabilidades diferentes das de qualquer tipo de mergulho avançado. As contribuições do mergulho militar tanto para o mergulho profissional quanto para o recreativo vão muito além das tabelas de mergulho ensinadas aos novos mergulhadores. Na verdade, o desenvolvimento e a inovação nos equipamentos militares frequentemente se traduzem para as práticas de mergulho recreativo e técnico.
Mergulho de Salvatagem
As origens do mergulho militar moderno coincidem com a propagação de tecnologia submarina no começo do século 20. Acidentes e colisões mancharam as primeiras várias décadas que se seguiram a difusão do uso de submarinos, portanto o mergulho militar se concentrava naquela época em salvatagem.

Em março de 1915 o USS F-4 afundou a 90 metros de profundidade durante manobras próximas à costa de Honolulu, matando 21 marinheiros. Durante as missões de salvatagem o sargento artilheiro George Stillson utilizou cilindros de descompressão, que permitiram aos mergulhadores examinarem os destroços e trabalharem no sentido de levantar a embarcação. Outras dificuldades na salvatagem da embarcação levaram o capitão de corveta Julius Furer a sugerir o uso de pontões submersíveis elevatórios pela primeira vez em qualquer missão de salvatagem.

Uma das mais intensivas missões de salvatagem americanas se iniciou após o ataque de 1941 a Pearl Harbor. Por dois anos após o ataque, os mergulhadores de salvatagem trabalharam diligentemente, registrando quase 20.000 horas debaixo da água. Seu trabalho e experiência permitiram que os militares colocassem vários navios de guerra e numerosos contratorpedeiros e navios de suprimento de volta ao serviço.

Juntamente com muitas dessas operações de salvatagem havia muitas missões de resgate e reconhecimento, que motivaram o desenvolvimento de novos equipamentos e proporcionaram oportunidades para testa-los. Como uma resposta à perda do USS S-51 e do USS S-4 na década de 1920, por exemplo, Charles B. Momsen e Allan Rockwell McCann desenvolveram a Câmara de Resgate McCann-Erickson em 1930. Menos de uma década mais tarde, o dispositivo auxiliou no resgate de 33 tripulantes do submarino USS Squalus.

Momsen também desenvolveu seu famoso aparato de escape (scape lung) ao redor da mesma época. O scape lung era um rebreather rudimentar que consistia em uma bolsa de borracha e um depurador de cal sodada (para remover o dióxido de carbono). Em outubro de 1944, 13 tripulantes de submarino usaram o scape lung após um torpedo ter atacado o USS Tang. Muitos homens conseguiram chegar à superfície utilizando o dispositivo, mas outros morreram na tentativa, talvez devido à falta de treinamento em seu uso. A tecnologia de Momsen contribuiu para o desenvolvimento do Steinke hood e do subsequente desenvolvimento pela Marinha Britânica do Submarine Escape Immersion Equipment (SEIE), que é atualmente utilizado pela maioria dos serviços navais da OTAN.

O mergulho de salvatagem no mundo moderno é uma disciplina que avança continuamente, seguindo as modificações e as melhorias de muitos dispositivos para operar remotamente situações em águas profundas. O papel militar no advento de tecnologias de águas profundas é essencial para o crescimento do campo.
Mergulho de Combate
O mergulho de combate exige equipamento especializado e exposição a elementos ambientais ausentes de outros exercícios militares. Como uma técnica de mergulho avançado, o mergulho de combate depende principalmente do equipamento de rebreather de circuito fechado, embarcações de alta velocidade/discretas e trabalho de equipe altamente afinado. Operar em ambientes hostis também exige conhecimentos além do que é padrão mesmo nas forças de combate de elite mais altamente treinadas.


Candidatos a Basic Underwater and Demolition/SEAL (BUD/S) praticam habilidades de nado subaquático.

Nos Estados Unidos, os experimentos militares de mergulho em combate acontecem desde a Guerra da Independência Americana. Após experimentos com o colega o aluno de Yale Phieas Pratt para desenvolver um detonador temporizado que permitiria explodir bombas debaixo da água, David Bushnell desenvolveu um protótipo miniatura de submarino, o American Turtle, para permitir que seu único tripulante fixasse bombas temporizadas em cascos de navios. Infelizmente, a broca do Turtle não foi capaz de perfurar o cobre dos cascos dos navios britânicos e não conseguiu afundar uma embarcação inimiga. Outras inovações contemporâneas incluem o uso de água como lastro para submergir e elevar submarinos, o emprego de dispositivos de respiração e a fixação de minas nos cascos de navios inimigos.

Durante a II Guerra Mundial, a marinha italiana solidificou a importância de ataques subaquáticos nas guerras modernas. A relativa fragilidade do exército italiano nas operações de superfície os levou a reunir uma força de comandos navais que utilizava sistemas de circuito fechado com oxigênio para navegarem em torpedos modificados para transporte embaixo da água. Usando esse método, as unidades de comando italianas atacaram com sucesso dois navios de guerra ingleses no porto de Alexandria em 1941 e causaram danos significativos em Gibraltar em 1942 e 1943.

Os Estados Unidos também viram avanços significativos na tecnologia de mergulho de combate durante a II Guerra Mundial. Naquela época Dr. Christian Lambertsen, atualmente considerado o "pai do mergulho militar de combate ,"1 era um estudante de medicina em processo de inventar o primeiro sistema de rebreather de circuito fechado com oxigênio dos Estados Unidos, o Lambertsen Amphibious Respiratory Unit (LARU). Embora os circuitos fechados já fossem usados pelos poderes militares europeus, o sistema de Lambertsen apresentava um desenho mais eficiente. O professor de Lambertsen na University of Pennsylvania, um antigo oficial do exército inglês chamado Henry Bazett, viu o potencial de aplicação militar do LARU e em 1941 alertou a Unidade de Mergulho Experimental da Marinha Americana e o Almirantado Britânico, relatando que o "aparato apresenta vantagens em termos de leveza e liberdade de movimentos na água, tornando-o adaptável tanto para o uso por combatentes subaquáticos, do tipo que causam problemas, ou para ataques noturnos às defesas inimigas." 2 A importância dessa invenção vai além do que pode ser dito, já que permite que os mergulhadores percorram longas distancias desapercebidos sem liberar bolhas na água.

Durante a II Guerra Mundial Lambertsen contribuiu não apenas com o desenvolvimento de equipamentos, mas também como um mergulhador militar de combate. Além de treinar nadadores de combate a usarem uma versão inicial do swimmer delivery vehicle (SDV), ele era um verdadeiro guerreiro, participando de missões para destruir e danificar embarcações inimigas. Seu trabalho no Departamento de Serviços Estratégicos (o precursor da CIA) e no Comando de Operações Especiais durante e após a guerra proporcionaram as bases práticas e científicas para o uso de rebreathers nas operações militares atuais.

Após a guerra muitas das equipes de nadadores combatentes foram dissolvidas, mas o capitão de fragata. Francis Douglas "Red Dog" Fane garantiu a continuação da importância das equipes de Demolição Subaquáticas da Marinha Americana (UDTs, na sigla em inglês). Em 1948 Fane convidou Lambertsen para a Naval Amphibious Base, em Little Creek, próximo a Norfolk, Virginia, para treinar seus dois esquadrões UDT no equipamento LARU. Nesses dias iniciais muitos comandantes da Marinha não viam utilidade nas equipes, mas Fane reconheceu o valor militar da manutenção desse elemento de combate.


Fuzileiros navais simulam a evacuação de uma aeronave CH-46 Sea Knight que está afundando para aprenderem a usar o Intermediate Passenger Helicopter Aircrew Breathing Device.

Fane desempenhou um enorme papel na introdução e no melhoramento de muitas peças populares de equipamento de mergulho. Por exemplo, ele endossou o uso do Aqua-Lung de Jacques Cousteau e começou a treinar os esquadrões UDT em Little Creek no uso do circuito aberto em 1949. Mais tarde naquele ano, a equipe de Fane usou o Aqua-Lung para colocar explosivos em destroços afundados que estavam bloqueando o canal de navegação de Norfolk. Após esse sucesso, o Aqua-Lung foi usado em combate durante a Guerra da Coréia. Fane também aderiu precocemente ao uso de roupas de exposição de neoprene, e seus mergulhadores abriram caminho para o uso amplamente difundido da roupa úmida.

É interessante notar, Fane também inspirou o personagem de Mike Nelson na popular série de televisão Sea Hunt, que iniciou os seus quatro anos de exibição em 1958, inspirando crianças da época a mergulharem em suas piscinas e banheiras e sonharem com aventuras no mar. O programa é em grande parte responsável por tornar "scuba" e "Aqua-Lung" palavras familiares.

Atualmente, os SEALs da Marinha são os mais reconhecidos mergulhadores de combate do mundo. Seu legado começa com o Departamento de Serviços Estratégicos durante a II Guerra Mundial e passa pelas UDTs da Guerra da Coréia até os dias de hoje. Em 1961 o Comitê para Atividades Não Convencionais (Unconventional Activities Committee) estabeleceu unidades SEAL no Pacífico e no Atlântico e recomendou o acrônimo SEAL como uma combinação de "sea, air e land" ("mar, ar e terra") para indicar uma "capacidade versátil, universal".3 O estabelecimento de duas equipes SEAL no começo de 1962 reconheceu a necessidade de combinar conhecimentos em mar, ar e terra para o propósito de conduzir operações não convencionais, contra-guerrilhas e clandestinas.

Através da influência precoce e liderança de Lambertsen, todos as ramificações das forças militares estiveram envolvidas com o mergulho de combate. Esse ano a U.S. Army Special Forces Underwater Operations School (Escola de Operações Subaquáticas das Forças Especiais da Marinha Americana) em Fleming Key, próximo a Key West, Flórida, celebrou 50 anos de treinamento em mergulho de combate.
Mergulho de Engenharia e de Apoio a Frota
Além do mergulho de combate e de salvatagem, o mergulho militar requer tarefas como inspeção, reparo, instalação de eletrônicos subaquáticos, construção, recuperação de torpedos e limpeza de portos. Recentemente, a Corporação de Engenheiros da Marinha Americana criou uma equipe de mergulho, que completou sua primeira missão subaquática em 2012. Essa equipe, chamada de Forward Response Dive and Survey Team, emprega pesquisas do fundo com tecnologia SONAR, melhoradas pela inspeção de superfície e subaquática do fundo do mar, paredes do mar, instalações de píer e de docas. Eles juntam as informações obtidas através de pesquisas estruturais com observações de mergulhadores para tornar possível grandes reparos e dragagens de portos. Existem atualmente 15 instalações do Exército com construções de frente para o mar que necessitam de inspeção a cada quatro anos.

Desde tabelas de mergulho até inovações tecnológicas e técnicas, as operações militares contribuíram com muitos avanços científicos, médicos e de equipamento que permearam o mergulho comercial e recreativo.
Referências
1. Mark. Dr. Christian Lambertsen: 70 years of influence on the military dive community. The Official Homepage of the United States Army. Accessed: May 18, 2014. www.army.mil/article/75716/Dr__Christian_Lambertsen__70_years_of_influence_on_the_military_dive_community

2. Vann RD. Lambertsen and O2: Beginnings of operational physiology. Undersea Hyperb. Med. Spring 2004; 31(1):21-31. http://archive.rubicon-foundation.org/xmlui/bitstream/handle/123456789/3987/15233157.pdf?sequence=1

3. SEAL History: The Story of Naval Special Warfare. Navy SEAL Museum. Accessed: May 20, 2014. http://www.navysealmuseum.org/about-navy-seals/seal-history-the-naval-special-warfare-story/genesis-of-the-u-s-navys-sea-air-land-seal-teams


© Alert Diver — 3º Trimestre 2014

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