Vôo Após Mergulhos

As recomendações devem ser revistas?




Um grupo de autores associados com a DAN Europa publicou os resultados de um novo estudo sobre vôo após mergulho em março de 2015. Os resultados são intrigantes e podem levar a alguns mergulhadores se perguntarem sobre a necessidade de uma revisão nas orientações sobre vôo após mergulhos.

Os pesquisadores conduziram monitoramento ecocardiográfico após mergulho para deteção de bolhas gasosas em sangue venoso (embolos gasosos venosos ou EGV). O estudo durou seis dias com 56 mergulhadores recreativos voluntários. Todos mergulhadores estavam aparentemente saudáveis e nenhum deles tinha histórico de doença descompressiva. Cada mergulhador fez cerca de 13 mergulhos, totalizando 726 mergulhos durante o estudo.

Os pesquisadores monitoraram EGVs após cada mergulho, com intervalos de 30, 60 e 90 minutos após o retorno à superfície. Dos 56 mergulhadores, 23 nunca desenvolveram bolhas detectáveis (o grupo SB), 17 mergulhadores desenvolveram bolhas ocasionalmente (o grupo BO) e 16 mergulhadores desenvolveram bolhas em após quase todo mergulho, todos os dias (o grupo B). Os perfis de mergulho foram monitorados por computadores de mergulho, a média das profundidades máximas foi de 30 metros de água salgada), a duração média dos mergulhos foi de 49 minutos e as velocidades de subida variaram entre 9 e 18 metros por minuto.

Imediatamente antes da decolagem, 24 horas após o último mergulho, não foram encontrados EGVs em nenhum dos voluntários. Após a decolagem, entretanto, foram detetadas bolhas em oito dos mergulhadores do grupo que sempre apresentaram bolhas e em nenhum dos outros dois grupos. Após 90 minutos, nenhum mergulhador apresentou bolhas detectáveis.

Este foi o primeiro estudo durante o vôo, com exposições de mergulhos reais e existem dois achados importantes que podem interessar aos mergulhadores. Primeiro, há uma variabilidade grande no grau de bolhas detectadas após mergulhos e é importante perceber que os mesmos mergulhadores pareciam mostrar um padrão consistente com relação à alta ou baixa produção de bolhas. Embora algumas pessoas possam assumir com segurança que o risco de DD é desprezível sem a presença de bolhas gasosas venosas, o risco dos mergulhadores com bolhas destectáveis não é linearmente proporcional ao grau da presença de bolhas. No grau baixo de bolhas o risco pode não ser significativamente diferente daqueles que não apresentaram bolhas detectáveis. Neste estudo, embora houvesse 16 voluntários que apresentaram bolhas regularmente, nenhum deles desenvolveu qualquer sintoma de DD após os mergulhos. É possível que com mergulhos mais profundos e mais prolongados, as diferenças entre os mergulhadores que apresentaram bolhas e os que não apresentaram bolhas desapareçam.

O segundo achado importante nesse estudo foi que voar em um avião comercial mesmo após 24 horas de intervalo de superfície pode produzir bolhas no sangue dos mergulhadores. As orientações atuais para o tipo de mergulho executado pelos voluntários (vários dias de mergulhos não descompressivo) recomendam um intervalo mínimo de superfície de 18 horas.

A pergunta sobre a necessidade de uma revisão das orientações para vôo após mergulho surge naturalmente. Considere os seguintes fatores: EGVs podem levar à DD, mas o risco é preocupante apenas quando o grau de bolhas for alto. Neste caso, o nível de bolhas máximo detectado durante o vôo foi grau três (numa escala que vai de zero a cinco), e isso ocorreu em um único mergulhador. As tabelas de descompressão do DCIEM (Defence and Civil Institute of Environmental Medicine) que foram a base para o monitoramento das bolhas e consideradas razoavelmente seguras e conservadoras, considera um perfil de mergulho seguro quando as bolhas após os mergulhos não excedam grau dois em mais de 50% dos mergulhos de teste. Baseado nessa orientação, não existe motivo para alterar as recomendações atuais (neste estudo encontramos EGVs com grau superior a dois em apenas um dos 56 mergulhadores). É importante notar que as tabelas DCIEM foram testadas usando deteção Doppler para EGVs (que usa uma escala de graduação de 0 a 4), enquanto que esse estudo usou ecocardiografia (uma escala graduada de 0 a 5). Grau tres nesta escala não é necessáriamente maior que grau dois na escala Doppler.

As orientações atuais recomendam intervalos de superfície mínimos antes de voar em aviões comerciais. Para estar do lado da segurança, é sempre melhor aguardar um tempo maior. O estudo demonstrou que um intervalo de 24 horas é provavelmente seguro, mas o intervalo entre 18 e 24 horas pode merecer uma nova avaliação. Esperamos que esse grupo continue suas pesquisas e forneça mais informações para aumentar nossa confiança para responder essas importantes questões.
Referencias
1. Cialoni D, Pieri M, Balestra C, Marroni A. Flying after diving: should recommendations be reviewed? In-flight echocardiographic study in bubble-prone and bubble-resistant divers. Diving Hyperb Med. 2015; 45(1):10-15.

2. Sheffield P, Vann R (eds.). Flying After Recreational Diving Workshop Proceedings. Durham, N.C.: Divers Alert Network, 2004. Available at: DAN.org/research/conference/2010FatalityWorkshop/proceedings/index.html.

3. Vann RD, Gerth WA, Denoble PJ, Pieper CF, Thalmann ED. Experimental trials to assess the risks of decompression sickness in flying after diving. Undersea Hyperb Med. 2004; 31(4): 431-444.

4. Nishi RY, Tikuisis P (1996). Current Trends in Decompression Development: Statistics and Data Analysis. Defence R&D Canada Technical Report. DCIEM-96-R-65. Available at: http://archive.rubicon-foundation.org/xmlui/bitstream/handle/123456789/3870/ADA320268.pdf. Retrieved 01-10-2012.


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