Uma Vida entre Baleias




Jason Sturgis, integrante do grupo de pesquisa Whale Trust, documenta o comportamento de uma baleia jubarte fêmea e seu jovem filhote em Auau Channel, Maui, Havaí (NMFS Permissão de pesquisa #987).

A doze metros abaixo de mim ela paira silenciosamente. Ela tem 14 metros de comprimento e pesa 36 toneladas, e seu corpo esconde seu filhote de 5 metros. O filhote sai debaixo do queixo da mãe e vai respirar na superfície. Voltando para sua mãe, o jovem jubarte me avista próximo ao barco de pesquisa e me dá uma boa olhada. Após 35 anos fotografando cetáceos profissionalmente, situações como essa ainda me fazem sorrir.

A vida das baleias nem sempre é serena, entretanto. Apenas alguns dias após eu ter visto a mãe com seu filhote, nossa equipe de pesquisa encontrou uma dúzia de baleias jubarte machos brigando por uma fêmea. A batalha foi brutal; muitos dos machos tinham arranhões abertos sangrando no topo de seus corpos. Apesar da reputação ocasional das baleias de "gigantes gentis", eu nunca usaria a palavra "gentil" para descrever esses violentos, e ocasionalmente fatais, encontros nos locais de reprodução de inverno próximos à costa do Havaí.


Beluga solitária, acampo de gelo Jones Sound, Nunavet, Canada, 1994
Quanto mais aprendemos sobre as baleias, mais nossa percepção sobre essas complexas criaturas evolui. Na história humana, as baleias foram inicialmente vistas como monstros marinhos assustadores e perigosos. Com o tempo elas passaram a ser vistas como commodities, e eram caçadas por homens destemidos em condições perigosas. Em alguns casos, certas espécies foram até mesmo levadas à beira da extinção. Nos anos 1960s e ´70s, quando o interesse na conservação das baleias começou a pegar, esses grandes mamíferos eram vistos como modelos de bom comportamento — eles eram gigantes gentis, alimentando-se de plâncton microscópico e demonstrando grande inteligência. Eventualmente, a ciência da cetologia mudou seu foco do estudo de baleias mortas para estudos mais benignos de baleias vivas em seu ambiente natural. Após séculos de caça e um período de idealização e antropomorfização delas, nós estamos aprendendo agora a amar as baleias em toda a sua gloriosa complexidade.

Em muitos aspectos a história da minha própria família reflete a evolução da atitude americana com relação às baleias. Meu tataravô foi para San Diego em um navio baleeiro em 1845. Em uma entrevista para o jornal San Diego Union em 1887, ele ressaltou o impacto da indústria baleeira nas águas da costa oeste. De acordo com ele, quando ele primeiro chegou na Baia de San Diego "havia tantas baleias no canal que os homens que iam em canoas de La Playa para pegar água dessa fonte eram frequentemente obrigados a esperar por horas antes que eles considerassem seguro atravessar." Na época de sua entrevista, muitas dessas baleias já não existiam mais. O culpado de seu desaparecimento foi a caça desenfreada às baleias, que tinham como alvo as rotas migratórias, os locais de alimentação e os de reprodução/lagunas de parto.


Baleia azul próximo à Santa Barbara, Califórnia, 2009
Quando eu era criança, observar baleias era um passatempo comum; eu me lembro de minha família me levando para observar baleias após a missa de Páscoa em 1955, quando eu tinha apenas sete anos. Nós observamos a partir do Monumento Nacional Cabrillo em San Diego e vimos pequenos sopros do que parecia ser fumaça à distância. Eram os sopros de baleias migrando pela mesma rota que trouxe meu tataravô para caça-las um século antes.

Apenas oito anos após aquela observação de baleias na Páscoa, minha família se tornaria inexoravelmente ligada ao mundo das baleias quando meu pai, Chuck Nicklin, alcançou a notoriedade por montar em uma baleia. Em 1963 minha família possuía uma loja de mergulho na região de Pacific Beach em San Diego. Meu pai herdou algumas câmeras subaquáticas do falecido Conrad Limbaugh, o primeiro supervisor de mergulho do Instituto Oceanográfico Scripps. Enquanto mergulhava com amigos, meu pai encontrou uma baleia presa pelo rabo em um cabo de âncora de uma rede de pesca. Ele e seus amigos nadaram ao redor da baleia, filmando-a e fotografando-a até que em algum momento meu pai subiu nas costas do animal. Quando as fotografias e filmagens da façanha do meu pai chegaram aos noticiários locais — e depois nacionais — elas causaram muito rebuliço, eventualmente levando-o à Nova Iorque para aparecer no famoso programa To Tell the Truth.

A história poderia ter terminado aí, mas claro que não terminou. Bates Littlehales, o melhor fotógrafo subaquático da revista National Geographic, logo contatou meu pai para saber mais sobre fotografar baleias debaixo da água. De repente meu pai era um especialista em baleias. Ela havia, afinal de contas, montado em uma. Littlehales e meu pai se tornaram grandes amigos, e foi através dessa amizade que minha família começou a capturar baleias em filmes, não com arpões.


Baleia jubarte próximo à West Maui, Havaí, 2014
Minha própria carreira fotografando baleias começou em 1979 em Mui quando fui contratado para registrar imagens de jubartes para o filme da IMAX Nomads of the Deep. Foi aqui que Jim Darling, Ph.D., o assessor cientifico do filme, me atribuiui minha primeira tarefa de mergulho-cientifico. Naquele março, Darling estava gravando o canto de uma baleia jubarte a partir de um pequeno barco. Até aquele dia, todo mundo assumia que as baleias nadavam enquanto cantavam, mas 15 metros abaixo do barco de Darling, uma baleia estava pendurada de cabeça para baixo, perfeitamente imóvel e cantando. Darling chamou a equipe da IMAX e me perguntou se eu podia fazer um mergulho livre até a baleia, nadar por baixo dela e fotografar suas genitálias, mas ele não me disse o quão barulhento seria.

Ao passar pelo rabo eu pude sentir o canto de 160- decibéis da baleia nos meus sínus e pulmões, e enquanto eu tirava as fotos próximo à sua barriga eu pude ver seu rabo se erguendo sobre mim. Eu me encolhi em uma bola, certo de que eu seria surrado, mas a baleia queria apenas olhar para baixo para ver de onde vinham as bolhas em suas genitálias. Justo, eu pensei.


Milhares de belugas em uma foz de rio, Peel Sound, Nunavet, Canadá, 1993

Naquele momento eu achei que fotografar baleias seria um bico de uma única vez – alguém me disse "as baleias já eram". Mas tudo mudou quando eu encontrei uma dúzia de alunos brilhantes de pós graduação que estavam usando novos métodos para estudar cetáceos sem machuca-los. A pesquisa deles era baseada em dois fatos importantes: Primeiro, era possível estudar as baleias sem matá-las, e segundo, não se podia generalizar uma "baleia". Não apenas não existiam duas espécies de baleia que se comportavam da mesma forma como não havia duas populações ou mesmo indivíduos que o fizessem. No final, eu passaria os 35 anos seguintes acompanhando esses pesquisadores e seus colegas ao redor do mundo, aprendendo sobre como fotografar baleias, golfinhos e botos. Essas aventuras eventualmente produziram 20 histórias da National Geographic, três livros da National Geographic e uma vintena de excelentes memórias.

Belugas se esfregando nas águas rasas e doces do estuário de Cunningham Inlet, Nunavet, Canadá, 1993

Quando eu comecei a filmar histórias para a National Geographic, no início eu simplesmente buscava oferecer uma visão clara dos cetáceos. A pesquisa sobre as baleias havia começado como uma tentativa de entender a biologia de um recurso econômico valioso. As primeiras publicações foram mais dirigidas ao gerenciamento e estudo de espécimes mortos, mas minhas fotografias documentavam baleias vivas. Hoje, os trabalhos de pesquisa com cetáceos não relacionados com gerenciamento de pesca são publicados em uma variedade de revistas cientificas tradicionais, e os mamíferos marinhos tem até suas próprias revistas, como a Marine Mammal Science e a Aquatic Mammals. Assim que eu comecei a fotografar baleias, eu defini como meu desafio orientar minhas imagens de baleias pela ciência sem perder o amor e a mágica que contribuíram para os movimentos de preservação das baleias. Eu estava na verdade tão interessado nos pesquisadores quanto seus objetos de estudo. Em última análise eu sou um jornalista, não um fotógrafo de história natural.

Conforme eu continuava a tirar fotos para a National Geographic, minha fotografia melhorava. Eu adquiri melhores equipamentos e tive ajuda de pesquisadores que estavam constantemente aprendendo mais sobre as baleias, golfinhos e botos vivos. Entre 1982 e 1988 nós fizemos histórias sobre as baleias jubarte, orcas, krill, narvais e cachalotes.


Narvais machos com presas de 2 metros cruzadas sobre uma fêmea machucada e mais tarde morta.

Tanto o narval quando o cachalote são notoriamente difíceis de se fotografar. Após três meses tentando fotografar narvais, por exemplo, eu ainda não tinha nada usável. A maioria da história acabou sendo fotografada em sete horas durante uma única batalha entre machos narvais por uma fêmea moribunda. Meu trabalho com cachalotes em um período de seis meses no Sri Lank foi impedido por um conjunto diferente de problemas: as guerras separatistas estavam apenas começando e, no final das contas, eu consegui tirar apenas uma meia dúzia de rolos de fotos subaquáticas. Ainda assim, nosso trabalho sobre a vida selvagem subaquática nos anos 1980s foi enormemente bem sucedido, e eventualmente culminou na história da edição centenária da revista em dezembro de 1988, "Baleias: Uma Era de Descobertas".


Um cachalote macho se junta a um grupo de fêmea e jovens, Dominica, 1994
Minha primeira expedição buscando baleias foi há 35 anos. Naquela época muitas espécies e populações estavam ameaçada. Baleias azuis, baleias-da-groenlândia e jubartes estavam entre as mais ameaçadas. Quando eu comecei minha carreira em 1979 eu nunca esperava ver uma baleia azul, pois a espécie estava à caminho da extinção. Agora mais de 3.000 baleias-azuis nadam próximo à costa oeste dos Estados Unidos. Baleias-da-groenlândia não são mais consideradas ameaçadas internacionalmente. As baleias jubarte no Pacifico norte, que já chegaram a menos de 2.000 indivíduos, florescem com uma população crescente de mais de 22.000 indivíduos.

Existem baleias ainda à beira da extinção. As baleias-francas-do-atlântico e as baleias-francas-do-pacífico permanecem entre as mais ameaçadas; apesar de toda proteção internacional, seus números não aumentaram significativamente. Felizmente, a baleia-franca-austral está melhor; pesquisadores estimam que existam alguns poucos milhares delas e elas estão demonstrando um modesto crescimento populacional. A vaquita, uma toninha do norte do Golfo da Califórnia, está gravemente ameaçada, e é improvável que a espécie possa ser salva. Ainda assim, a única maneira de sabermos se espécies como a vaquita têm alguma esperança para o futuro é fazer o melhor que podemos para protege-las.

Neste mês de abril, eu estava na Golden Gate Bridge com Jonathan Stern, Ph.D., da Golden Gate Cetacean Research. Abaixo de nós uma toninha surgiu nadando das sombras da ponte. Por mais de 60 anos esses pequenos botos haviam desaparecido da Baia de San Francisco, mas em 2008 Stern percebeu que eles estavam lá novamente. Agora eles entram na baia regularmente. A equipe da Golden Gate Cetacean Research fotografou as toninhas a partir da Golden Gate Bridge e identificou mais de 600 indivíduos. Ninguém esperava que isso fosse possível, mas a recuperação dessa toninha nos dá esperança com relação a outras baleias ameaçadas.


Detalhe do olho de um filhote de baleia-cinzenta se esfregando em um bote inflável cheio de observadores de baleia na Baia Magdalena, México, 2007

Assim como nossa visão das baleias mudou com o tempo, a visão delas sobre nós também mudou. Em uma laguna berçário na Baja Califórnia, um filhote de baleia-cinzenta brinca conosco de esconde-esconde debaixo de nosso bote inflável e até mesmo se esfrega na lateral de nosso barco. No século 19 os humanos exploravam lagunas como essa para caçar baleias. Hoje a mãe do filhote se sente confortável o suficiente com nossa embarcação para empurrar sua cria na nossa direção. Esse comportamento foi documentado pela primeira vez em 1970, e é hoje em dia um bastante comum — e francamente maravilhoso — encontro.


Baleia-cinzenta se alimentando em zona lodosa próximo à Tofino, Canadá, 1984

O papel do público na preservação da vida selvagem não pode ser subestimado. A estreia de Flipper na televisão em 1964, seguida 11 anos depois pelo documentário Last Days of the Dolphins (Últimos Dias dos Golfinhos), que mostrava a matança de golfinhos em redes de atum, originou uma indignação geral com a contribuição do atum em lata para a morte de golfinhos. Uma onda de fervor público fortaleceu a campanha "Salve os Golfinhos", que levou à popularização do atum "seguro para os golfinhos" nos EUA. Interações similares entre a indústria da pesca e outras espécies marinhas que são vítimas colaterais levantaram questões que levaram à aprovação do Ato de Proteção dos Mamíferos Marinhos de 1972; o ato transformou machucar, matar ou perseguir mamíferos marinhos em crime federal punido com multas e/ou prisão.


Orcas no sul do Alaska, 2013

O som fantasmagórico das baleias jubarte cantando em seus locais de reprodução foi instrumental para capturar a imaginação do púbico e nos direcionar para a ética atual da conservação das baleias. Esses sons devem ter encantado e assustado os primeiros marinheiros que ouviram as canções ecoando nos cascos dos seus navios de madeira. Pesquisadores como Roger Payne e Scott McVay chamaram a atenção do público para os sons das baleias jubarte em 1967; atualmente os cientistas como meu amigo e colega Jim Darling estão trabalhando para determinar a função dessas músicas. Mistérios maravilhosos como esse reforçam o apoio popular e cientifico às campanhas de conservação.


Nicklin em sua primeira expedição ao Ártico, no limite do campo de gelo a cerca de 65 km de Pond Inlet, Nunavet, Canada, 1985

Eu fotografo baleias, mas como fotojornalista eu também documento os pesquisadores que estudam elas. A fotografia também se tornou uma ferramenta importante na caixa de ferramentas dos pesquisadores de baleias. Imagens de alta qualidade que documentam características distintas ajudam os pesquisadores a distinguir os indivíduos, o que proporciona informações valiosas sobre as populações. Não apenas eu posso ajudar os pesquisadores tirando as fotografias, como eu também posso ensinar os pesquisadores a serem melhores fotógrafos; é gratificante para mim contribuir para a pesquisa de cetaceos tanto através de vias diretas como indiretas.


Bill Keener do Golden Gate Cetacean Research selecionando imagens de identificação de toninhas tiradas a partir da Golden Gate Bridge.
As fotografias são ferramentas importantes para os esforços de conservação; o sucesso desses esforços exige que as pessoas compreendam a apreciem os aspectos do mundo natural, que podem não estar de outra forma acessíveis a elas. As fotografias oferecem um método imediato através do qual as pessoas podem se conectar com o lugar ou com as criaturas que o habitam. Portanto, as imagens subaquáticas de baleias vivas — retratadas não como carcaças inchadas em praias ou como placas de carne cortadas em bifes — servem como um caminho crítico para um fim.

No Havaí, nós estendemos nossa estação de estudo do canto das jubartes pelo mês de abril, quando o número de baleias diminui e seu comportamento dura mais. Eu ainda sento na frente no bote de 24 pés enquanto o Darling toma o leme, assim como fizemos 35 anos atrás. A ciência guia nossas expedições e com frequência vemos algo especial para fotografar. No ano passado vimos machos jubartes dançando; esse ano testemunhamos uma tremenda batalha. A visão simplista sobre as baleias como gigantes gentis é tão incorreta quanto aquela segundo a qual elas são monstros marinhos ou commodities insensíveis a serem exploradas. Embora a transição de caçar baleias para preserva-las seja uma mudança incontestavelmente positiva, existe uma necessidade de antropomorfiza-las. Elas não são humanas; elas são cetaceos, e elas são muito boas em ser o que elas são.

Uma orca saltando em um dia ensolarado próximo à Telegraph Cove, Ilha de Vancouver, Canadá, 1981

© Alert Diver — 3º Trimestre 2014

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