Tratando DD na Costa dos Misquitos




Um rapaz Misquito dá ao seu pai um copo de água. A não ser que as condições melhorem para os mergulhadores de lagosta na Costa dos Misquitos, o rapaz pode não ter uma opção melhor do que fazer o mesmo tipo de mergulho que incapacitou seu pai.

Em 2010, os empregados da DAN Eric Douglas e Matias Nochetto, M.D., viajaram à La Ceiba, em Honduras, para avaliar a segurança da câmara hiperbárica de uma clínica local. A viagem era parte do Programa de Assistência à Câmaras Hiperbáricas (RCAP) da DAN, uma maneira de oferecer suporte técnico, educação e equipamentos para câmaras em locais remotos. Durante aquela viagem eles presenciaram cinco casos de mal descompressivo (MD) severo em apenas três dias.

Por causa de sua visita à La Ceiba, na região da Costa dos Misquitos em Honduras, Douglas e Nochetto criaram o Projeto Harvesting Divers (Mergulhadores Coletores), uma iniciativa desenvolvida para reduzir a incidência de MD e melhorar o resultado dos casos que acontecem entre mergulhadores que pescam lagosta e outros produtos marinhos. Através de seu trabalho naquele projeto, Dr. Nochetto percebeu que a DAN tinha uma oportunidade de ajudar não apenas os mergulhadores pescadores, mas também a comunidade de medicina hiperbárica do mundo todo. La Ceiba era um laboratório trágico, uma oportunidade para médicos e outros profissionais da área médica serem expostos a um número maior de casos — e mais graves — de doença descompressiva (DD) do que a maioria dos médicos hiperbáricos vê durante suas vidas.


Um mergulhador de lagosta emerge incapaz de mover as pernas.
Por isso, em 2012 Nochetto iniciou o DAN Emergency Dive Medicine Rotation, através do qual médicos visitariam a Clínica La Bendicíon e ganhariam uma experiência inestimável no tratamento de mergulhadores acidentados. Até hoje, os participantes do programa foram Marcelo Tam, Enfermeiro, do Brazil; Evan Kornacki, Paramédico e Técnico hiperbárico, do Texas; e Dra. Helena Horak, M.D., da California. A seguir está o relato da doutora Horak sobre o tempo que ela passou na clínica.

De 11 mergulhadores, dois estavam mortos e seis paralisados. Estes eram os pacientes que o Dr. Elmer Mejía atendeu em um período de duas semanas na Clínica La Bendición, em La Ceiba, Honduras. Como médica de emergência no meu último ano de treinamento, viajei quase 3.200 quilômetros para observar pacientes com DD grave, uma emergência que ocorre apenas raramente nos Estados Unidos. Embora eu tenha em última instância aprendido a tratar DD, eu também aprendi a apreciar os complexos desafios que os mergulhadores pescadores Misquistos enfrentam e a tênue condição financeira da clínica médica que os atende.


Um barco de lagosta próximo a Puerto Lempira, Honduras

Como mergulhadora recreativa, eu amo as águas Hondurenhas. Roatan e Utila, os mais conhecidos pontos de mergulho, atraem milhares de visitantes todo ano. Com uma visibilidade de mais de 30 metros, formações de corais encantadoras e escolas de peixes prodigiosas, estas águas são fascinantes. Em Roatan eu vi uma lagosta espinhosa balançar suas antenas destemidamente - ela era intocável na reserva marinha protegida. Seus parentes menos afortunados mais distantes no oceano são alvos da indústria da lagosta.

Os barcos de lagosta que abastecem as indústria de frutos do mar nos Estados Unidos dependem do trabalho dos indígenas Misquitos, nativos das costas caribenhas de Honduras e Nicarágua. Os perfis destes mergulhadores são sobre-humanos:

Cada um deles mergulha rotineiramente à uma profundidade de 27 a 40 metros de 12 a 16 vezes por dia para pescar lagostas. Frequentemente ficam na superfície apenas por alguns minutos entre os mergulhos, e eles raramente, se é que alguma vez, fazem paradas descompressivas. Os donos de barco oferecem apenas equipamentos rudimentares: um cilindro, um regulador, uma máscara e nadadeiras. Um pedaço de corda faz o papel de colete equilibrador. Não há profundimetros ou roupas de exposição, e computadores de mergulho são luxos desconhecidos. Como consequência do risco assumido, a incidência de DD entre os Misquitos é sem precedentes.


Caudas de lagostas espinhosa no porão
A Clínica La Bendición é um pequeno refúgio para os mergulhadores Misquitos assim como para os residentes de La Ceiba; seu nome significa "a benção" em espanhol. A clínica foi fundado pelo Dr. Elmer Mejía, que originalmente aprendeu medicina do mergulho enquanto trabalhava como médico da marinha hondurenha, operando a câmara hiperbárica em Roatan pela Igreja Episcopal. Quando a câmara fechou, o Dr. Mejía foi para a faculdade de medicina em Tegucigalpa, a capital de Honduras, mas seu coração estava com os mergulhadores. Uma câmara hiperbárica diferente foi doada para sua clínica, e ele dirigiu um caminhão com a câmara da Virginia até Honduras. A clínica é um trabalho de família: a esposa de Mejía trabalha como enfermeira ali, seu irmão opera a câmara e dorme na clínica como um segurança noturno improvisado.

Meu primeiro paciente na clínica foi o Oscar. Com 1,52 de altura e um corpo franzino, ele tinha 33 anos e mergulhava há 8 anos. Com uma energia ilimitada, ele conversava com todos sobre seus dois filhos, de três e cinco anos. O Oscar estava pescando lagostas para ganhar um dinheiro extra para a educação deles. Os mergulhadores ganham $ 2,5 dólares por libra de lagosta, e um período de duas semanas produtivo pode significar $200 dólares, um lucro inesperado em uma área onde a renda per capita anual é de $ 1.600 dólares.

O Oscar estava em seu sexto cilindro do dia quando a "sereia" atacou. Sonhar com a sereia é perigoso na tradição local — o canto enfeitiça os mergulhadores e os mantém no fundo. A DD se manifestou como uma dor aguda e muito forte em sua perna esquerda, e depois paralisia completa. Os outros mergulhadores tentaram aliviar a sua dor, voltando com ele para a água com dois cilindros de ar para tentar recomprimi-lo, mas ele ainda não conseguia mover suas pernas. O oxigênio, apoio fundamental no tratamento da DD, nunca está disponível nos barcos. Nós gentilmente acomodamos o Oscar dentro da câmara e iniciamos o tratamento.


Dr. Mejía examina um paciente com DD grave.
Eu me juntei ao Oscar na câmara hiperbárica. Equalizando meus ouvidos enquanto a câmara era pressurizada, a temperatura gradualmente se elevou a níveis de sauna. Devido ao risco de fogo, nenhum eletrônico é permitido na claustrofóbica câmara, e a permissão para ler livros pouco importa para os mergulhadores analfabetos. Embora até cinco pessoas caibam dentro da câmara principal, as máscaras de respiração de oxigênio hiperbárico firmemente fixadas ao rosto dos pacientes dificultavam minhas tentativas de conversação. O tratamento, uma Tabela 6 da Marinha Americana, dura cerca de cinco horas. Mas o Oscar está acostumado a esperar — ele chegou cinco dias após seu acidente porque o barco de lagostas precisava terminar sua viagem de pesca; atendimento médico a um mergulhador acidentado não era a prioridade.

Os mergulhadores que encontrei depois, três homens entre seus 30 e início dos 50 anos, tiveram sorte de chegar em até dois dias após seus acidentes. Um quarto mergulhador foi retirado da água convulsionando, paralisado, e logo entrou em coma; ele morreu um dia depois. A expedição de pesca foi interrompida mais cedo para que ele pudesse ser enterrado. Até então, haviam ocorrido 15 mortes na estação. Esta era a quarta morte ocorrida com o mesmo dono de barco nos quatro meses da estação até então, e os piores meses, novembro e dezembro, não haviam ainda começado. Mejía comentou que mergulhadores se acidentavam em barcos de certos capitães regularmente, "[eles tem] pequenos cemitérios pelos quais são responsáveis", enquanto outros capitães raramente tinham mergulhadores acidentados.

Estarem presos a uma cadeira de rodas é uma sentença de morte para os mergulhadores. Após ficarem dependentes de um cateter de Foley para urinar, os mergulhadores vivem em média dois anos, geralmente sucumbindo a escaras ou infecções do trato urinário. Eles também são um fardo econômico para suas famílias e comunidades, dependendo de outros para prover suas necessidades básicas.


Mergulhadores de lagosta na câmara da Clínica La Bendición
Os donos de barco supostamente são responsáveis pela doença dos mergulhadores. Para cada tratamento da Tabela 5 da marinha americana (uma visita mais rápida à câmara frequentemente usada como tratamento de acompanhamento), o paciente necessita de um ou dois cilindros de oxigênio. Cada recarga de um cilindro de oxigênio custa $28 dólares, aproximadamente o salário semanal de um trabalhador comum. Isto representa apenas o custo do oxigênio, e as despesas sobem rapidamente dependendo da duração do tratamento. Para cada 10 mergulhadores tratados na clínica, ela recebe por apenas três. Os donos de barco habitualmente deixam os pacientes na clínica e depois se recusam a atender seus telefones. A clínica amarga o custo do tratamento médico e oxigênio e às vezes paga pela comida e transporte do paciente de volta para La Moskitia.

Os três mergulhadores se recuperaram rapidamente, partindo depois de dois tratamentos, mas a recuperação do Oscar é mais modesta. Todo dia após seu tratamento hiperbárico ele vai para a bicicleta ergométrica; ele frequentemente se movimenta pela clínica, desejando que sua perna melhore. Ele fala sobre os perigos que os mergulhadores enfrentam debaixo d´água, como barracudas, tubarões e outras criaturas mais míticas. O peixe que captura minha imaginação é localmente conhecido como o pega pega. Este peixe é territorial e tem a estranha tendência a atacar estrategicamente os mamilos dos homens. Segundo a tradição local, se um mergulhador encontra este peixe, sua mulher é infiel. Além disso, a carne do peixe pode ser um afrodisíaco poderoso. Terminantemente negando que use o peixe para proezas românticas, ele brinca, " eu teria mais filhos se usasse".


Um paciente submetendo-se à reabilitação na Clínica La Bendición.
Mejía tem aumentado os limites e conhecimentos da medicina hiperbárica. A sabedoria convencional sustenta que o tratamento hiperbárico não é mais útil após mais de duas semanas depois do acidente. Mesmo que o paciente esteja sofrendo com sua lesão há um tempo prolongado, Mejía tenta o tratamento hiperbárico; o mais longo intervalo entre acidente e tratamento após o qual um paciente ainda apresentou alguma melhora foi 105 dias após o acidente. Mejía realiza habitualmente cinco ou seis tratamentos na câmara para pacientes que não melhoram, enquanto muitos médicos hiperbáricos desistem após um tratamento quando não há melhoras. Geralmente, após o primeiro tratamento, o médico tem uma ideia do quão rápido o paciente irá melhorar.

Para recuperar a força na perna, Oscar precisou de oito tratamento, o que é mais demorado do que o convencional. Ele corria cuidadosamente pela clínica, irrequieto e impaciente — ele não havia saído das dependências da clínica em nove dias. A insegurança é um problema da clínica assim como do país, e caminhar pela clínica pode ser perigoso a qualquer hora do dia. Um guarda armado com uma espingarda vigia a entrada da clínica depois que um intruso esvaziou a caixa registradora da clínica à mão armada. Sequestros tem sido um problema crescente, e uma adolescente local foi pega para ser trocada por resgate durante a minha estadia. Agora que os ricos contrataram segurança crescente, os sequestradores mudaram seu foco para pessoas de classe média ou pobres que tenham meios de emprestar dinheiro para pagar um resgate.

Antes de deixar a clínica Oscar nos prometeu que iria parar de mergulhar. Se ele ficar doente novamente, provavelmente não se recuperará. Mejía já viu isso antes: os mergulhadores que apresentam recuperações lentas são mais propensos a sucumbir à DD; se eles sucumbem, eles frequentemente não recuperam a função motora. "Ele vai voltar," Mejía suspirou. "Mesmo mergulhadores à beira da morte voltaram a mergulhar"

Opções de emprego na Costa dos Misquitos são extremamente limitadas fora do mergulho e do tráfico de drogas. Alguns defendem a proibição da indústria de mergulho local, mas não oferecem alternativas econômicas. Mejía está pressionando a criação de mais regulamentações e salvaguardas para proteger os mergulhadores, como melhores equipamentos de mergulho e cilindros de oxigênio para pacientes respirarem até chegarem à clínica.


Dr. Elmer Mejía

O objetivo de Mejías para sua clínica é fazê-la auto sustentável, mas seu futuro é incerto. Ele apelou ao governo hondurenho para ajuda financeira para a clínica; o governo expressou disposição intermitente em prover apoio financeiro, mas tem dificuldades em manter os serviços básicos de saúde. Durante minha estadia, o governo não havia pago seus empregados dos hospitais nacionais por seis meses, e todos os serviços exceto cuidados de emergência pararam devido a uma greve. A clínica gasta mais de $3.000 dólares por mês apenas em oxigênio. Ela continua a funcionar porque Mejía cobre muitos dos custos ele mesmo, e a sua equipe está disposta a receber baixos salários pelo bem da comunidade vulnerável pela qual trabalham.

Em meu último dia em Honduras, eu fiz um último mergulho nas águas cristalinas do Caribe e de novo espiei uma lagosta espinhosa no recife. Sua espécie é responsável por toda uma indústria e pela sobrevivência de muitas das pessoas que conheci. Porque os americanos adoram lagosta, Oscar pode conseguir colocar seus filhos na escola em busca de um futuro melhor. 

Ao sermos consumidores responsáveis, podemos ajudar a transformar a pesca da lagosta em um trabalho mais seguro para os mergulhadores Misquitos. Os americanos desenvolveram uma campanha modestamente bem sucedida para a compra de atum cuja pesca não seja nociva aos golfinhos, e de forma semelhante podemos exigir que nossa lagosta não venha com um custo tão alto para outras pessoas. Pequenas melhorias em equipamentos e na supervisão poderiam reduzir significativamente os perigos que estes mergulhadores enfrentam.

Respirei pelas últimas vezes debaixo d´água e observei minhas bolhas subirem. Se eu subisse muito rapidamente, bolhas poderiam me causar problemas. Mas eu sabia que tinha acesso a uma câmara e, em último caso, assistência médica nos Estados Unidos se eu viesse a precisar. Os mergulhadores Misquitos não tem essa certeza. Ao sair da água, contrastei meu prazer com a sombria experiência dos mergulhadores Misquitos que enfrentam a morte em cada mergulho. Mejía e a Clínica La Bendición são mais que uma benção para os mergulhadores Misquitos: eles são uma segunda chance na vida. 
Saiba Mais
Para saber mais sobre o mergulho para pesca de lagosta na Costa dos Misquitos, visite www.thelobsterfilm.com.

© Alert Diver — 1º Trimestre 2014

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