Tobago

Perfeição na corrente


Uma arraia-manta, a residente mais procurada de Tobago, faz uma pausa para nos examinar
em Mount Irvine Extension.


Quatro horas antes do nosso primeiro mergulho em Tobago, sou acordado de um sono profundo por um berro horrível. Antes que o pânico assuma o controle, ao berro se unem uma cacofonia de cacarejos, gargalhadas e pios. Procuro atrapalhadamente o relógio, resmungando pela hora adiantada. O pio me deu uma ideia da fonte do estrépito e forneceu um lembrete esganiçado do meu paradeiro. A ilha é conhecida por sua grande variedade de espécies de pássaros, tanto que a República de Trinidad e Tobago é considerada um destino obrigatório para ávidos observadores de pássaros. Podemos até preferir observar peixes a pássaros, mas isso não impediu o cocrico, o pássaro nacional de Tobago, de nos incluir em suas boas-vindas.

Ao longo das duas semanas seguintes, a chamada para despertar dos pássaros torna-se uma parte do seu dia, tanto quanto o aroma de curry no ar, a cadência melódica de vozes da Índia Ocidental e a música soca (um ramo local do calipso), ressoando das janelas abertas dos carros que passam — apelidados de "discotecas sobre rodas" por um dos nossos guias.


Batteaux Bay, que abriga vários dos pontos de mergulho mais populares de Speyside, parece enganadoramente calmo da superfície.
Uma pequena distância separa Tobago da costa da Venezuela, uma localização que coloca essa ilha de 10 m2 (116 pés quadrados) no fogo cruzado entre as correntes Equatorial Norte e das Guianas. Acrescente o ponche calórico do fluxo do rio Orinoco, e você tem uma força combinada poderosa que maximiza o tamanho de corais e esponjas e os preenche com uma matriz de criaturas marinhas que varia de pequenos nudibrânquios a arraias-mantas gigantes, criando uma experiência de mergulho diferente de qualquer outra no Caribe. Como é de se esperar, esse tipo de espetáculo tem um custo. A visibilidade pode ser limitada, as condições na superfície são, muitas vezes, desencorajadoras, e as correntes ligeiras podem transportá-lo de um ponto de mergulho para o próximo mais rapidamente do que você consegue dizer "supersônico". Apesar desses desafios, Tobago tem permanecido tranquilamente na lista restrita dos mergulhadores que estão por dentro do assunto.
O Caribe
Nosso barco parte do porto, passando por praias pitorescas de areias brancas e barcos de festa animados que levam nomes inesquecíveis como "Sweet Lips" (Lábios

Um mergulhador paira sobre o naufrágio encrustado de corais e
esponjas Maverick.
Doces) e "Swanky" (Graciosa). Pergunto ao comandante: "Para turistas?" "Absolutamente não", ele responde. "São para todos — inclusive os habitantes locais. Gostamos de festejar por aqui. Você deveria planejar um dia de folga depois."

Talvez na próxima. Podemos ser tranquilos em nossa exploração de Tobago no suave lado caribenho da ilha, mas não temos a menor intenção de tirar um dia de folga com tantos mergulhos a fazer. Nosso visual de hoje está programado para ser o naufrágio Maverick (antigamente chamado Scarlet Ibis), uma balsa para carros afundada propositalmente em 1997. A superfície é calma, não há corrente digna de menção e, enquanto mergulhamos na água azul transparente, me permito relaxar: talvez a reputação de Tobago de mergulho irregular e confuso seja exagerada. Pairamos a 27 m (90 pés) por todo o mergulho e inspecionamos a proa erguida, que está impressionantemente coberta de esponjas, corais-sol e gorgônias carmesim — um movimento que quase leva nosso guia de mergulho às lágrimas. Durante nosso intervalo de superfície, o jovem exasperado nos dá um conselho: "A proa é legal, com certeza. Mas, acreditem em mim, a popa é muito melhor. Vamos voltar."

Ao descermos próximo ao cabo de ancoragem na popa, notamos algo estranho: O naufrágio parece estar se mexendo. Poucos metros abaixo, a cena entra no foco. A extremidade traseira do naufrágio está lotada de um cardume de piabas-do-mar. Xereletes caçadores patrulham as bordas do cardume, furando periodicamente a massa e dividindo-a em espirais prateadas em pânico. Viro-me para o guia de mergulho encantado, e ele aponta para mim, fazendo um sinal com a mão que interpreto como "Não falei?". Quando se tem razão, se tem razão. De volta ao barco, mal tiro o regulador da boca e já estou implorando por um mergulho no dia seguinte na popa do Maverick.


As águas de Tobago, ricas em nutrientes, abrigam vida marinha pequena como cavalos-marinhos, que podem ser encontrados em inúmeros mergulhos.
Relatórios de condições impossíveis nos impedem de visitar os populares pontos de mergulho na ponta sul de Tobago, mas a tripulação tem um plano de reserva. Nosso guia viu recentemente esquadrões de arraias-águia em Mount Irvine Extension, e decidimos que vale a pena dar uma olhada. Os recifes de coral duro inclinados descem até 24 m (80 pés) antes de se nivelarem à areia, e nadamos devagar ao longo da margem, fitando esperançosamente o mar aberto. Nada. A visibilidade caiu e está piorando a cada minuto, dando à água uma sensação sinistra que não está exatamente melhorando o meu humor. Estou começando a fazer um discurso de ajuste para mim mesmo ("o oceano não é um zoológico"), quando noto duas coisas estranhas: Nosso guia está movendo os braços como um maníaco, e meu dupla está ajustando as configurações da câmera apressadamente. Pisco olhando ao longe e ajusto minha própria câmera na esperança de ver uma arraia-águia. A arraia que aparece, no entanto é uma adorável manta de cerca 2,7 m (9 pés) de envergadura que — diferentemente de um mergulhador ingrato que eu poderia citar — está perfeitamente contente com a água cheia de plâncton. Ela se aproxima de nós devagar, girando perto por vários minutos antes de partir para as grandes profundezas azuis.

Quando emergimos, estamos extasiados. Apesar das velhas histórias das abundantes arraias-manta de Tobago, elas são vistas atualmente apenas em alguns poucos pontos de mergulho e, mesmo neles, encontrá-las é considerado uma questão de sorte. Programamos nossa viagem para coincidir com a lua cheia da primavera, na esperança de otimizar nossas chances de encontrar as mantas (fontes apontaram que as chances aumentariam entre janeiro e maio), mas não tínhamos ousado dizer "a palavra com M" desde que tomamos aquela decisão. Nosso guia se empolga: "realmente, Sisters [um ponto de mergulho longe da costa] é o melhor lugar para encontrá-las. Mas aqui? Não direi nunca, mas, bem, quase nunca!"


Um adorável blênio (Hypsoblennius invemar) espreita da sua toca no coral
em Mount Irvine Wall.
Sazonalidade, fase da lua, providência — qualquer que seja o motivo para nosso encontro com a manta, um declínio contínuo da visibilidade significa que qualquer outra manta teria de praticamente bater no nosso nariz antes que a víssemos, então é o momento ideal para uma mudança de ritmo. Felizmente, a costa caribenha da ilha é um refúgio para uma incomum vida marinha de pequenas dimensões. Fazemos um mergulho suave inspecionando o Mount Irvine Wall, onde todos os cantos e fendas são ocupados por um caboz, um caranguejo-seta ou um camarão, embora nossa busca diligente nunca revele um antenariídeo ou um peixe-morcego-de-nariz-curto, às vezes visto por aqui. No vizinho e igualmente tranquilo Arnos Vale, perdemos a conta dos búzios escalando as esponjas e os corais moles, e a população local de nudibrânquios andou ocupada, o que fica evidente com a explosão de Elysias fazendo um banquete nas rochas.

A essa altura, eu já desenvolvi uma profunda apreciação pelos nutrientes da água de Tobago, mas estou questionando a reputação da ilha no tocante às fortes correntes. Em um momento desaconselhável de excesso de confiança, faço uma observação frívola sobre fomentar o medo para o nosso guia, que replica: "Vocês não vão a Speyside em seguida?" Ele olha para o comandante do barco, e os dois caem em uma risada histérica. Rio de um modo desconfortável e paro de fazer piadas pelo restante do dia.


Um polvo caça cuidadosamente nas fissuras de Arnos Vale.


Speyside

Um cardume de salemas nada na corrente de uma paisagem marinha densamente coberta de vida chamada, apropriadamente, Coral Gardens.
Na metade do caminho para o nosso primeiro mergulho em Speyside, determinei que devo manter a boca fechada. Estamos em Coral Gardens, um ponto no lado atlântico de Little Tobago, e a corrente está forte. A visibilidade, no entanto, é espetacular, então estou nadando o máximo que posso para fotografar a cena incrível à minha frente. Esponjas-orelhas-de-elefante e esponjas-barril descansam no panorama de esponjas em forma de ramos de árvores sem espaço morto entre elas. Tartarugas-de-pente e tartarugas-verdes passam preguiçosamente entre os cardumes de budiões e pargos, enquanto tubarões-de-recife patrulham à distância. Quando não consigo mais lutar com a corrente, deixo que ela me chicoteie através da paisagem marinha que lembra um quadro de Salvador Dalí. Chegando finalmente ao vizinho Kelleston Drain, fazemos uma pausa para examinar o que se diz ser um dos maiores corais-cérebro do mundo (4,8 m/16 pés de diâmetro) antes de subir. Quando o barco nos recolhe, estamos a quase uma milha (1,6 km) do nosso ponto de entrada.

Fica logo evidente que os mergulhadores de Speyside se divertem no passeio cheio de adrenalina na natureza da área; até o ponto em que um lugar com 2 nós de corrente

Um tubarão-lixa busca abrigo embaixo de uma borda colorida em
Black Jack Hole.
parece pouco notável para um mergulho de check-out. Esse pequeno ângulo de ilhas e rochas proporciona mais emoção por metro quadrado do que um parque de diversões. Em Black Jack Hole, somos transportados de um ponto repleto de peixes e varrido pelas correntes para um recife espetacular com um interlúdio revigorante: um estádio de corais onde assistimos a tarpões e xereletes negros que caçam na corrente acima de nossas cabeças, enquanto tentam evitar ser lançados na superfície ou perturbar as tartarugas e os tubarões-lixa que cochilam sob a margem do recife. Em TDE Special, somos jogados a toda velocidade de um incrível recife em volta de um canto deslumbrante coberto de cima até o fundo com corais tubastrea abertos e brilhantes como neon.

Outros pontos, como o Aquarium e Japanese Gardens/Kamikaze Cut, começam com o emaranhado de esponjas e gorgônias que se encontra em todo lugar em Tobago e terminam com passagens estreitas através das quais um fluxo já vigoroso se afunila e acelera. Em ambos os lados, os esforços para lutar contra a corrente são tão fúteis que a nossa única opção é proteger nossas rótulas e câmeras até que sejamos cuspidos para o outro lado. Então chutamos como loucos para ver como a vida marinha se enfia embaixo de cumes perto das saídas das passagens. Ali perto, London Bridge, distinto por um arco rochoso que se eleva acima da superfície do oceano, acrescenta à corrente persuasiva e às cores um bônus auditivo: um barulho de trovão a cada vez que uma onda bate — o que acontece com muita frequência. Os verdadeiros briefings de mergulho incluem pérolas como: "Temos de estar na mesma frequência de onda aqui: vocês não podem absolutamente subir no meio deste ponto" e "Por favor, tentem não ser sugados para dentro da máquina de lavar". Na superfície, ondas de 1,8 m (2 pés) e ventos constantes de 20 nós são considerados a média, o que significa que ondas que espremem os tímpanos e ameaçam as portas dos domes das câmeras estão em quase todos os lugares onde mergulhamos.


Um peixe-anjo paira na corrente que transformou a esponja-barril vizinha em uma obra de arte moderna.
É absolutamente entusiasmante. Nossos dias tornaram-se um borrão eufórico a 2 nós de velocidade, pleno de cores de vida marinha que nunca imaginamos que existissem no Caribe. Ficamos tão exaustos que ir para a cama às 20h torna-se obrigatório, e dormimos tranquilamente em meio à sinfonia dos pássaros antes do crepúsculo.

Em nosso último dia de mergulho, estamos a caminho de Sisters, uma série de picos na costa noroeste de Tobago que tem a fama de oferecer o maior número de encontros com animais grandes da área. Nossos guias nos dizem que, na semana passada, uma arraia enorme acompanhou os mergulhadores de perto durante todo o mergulho. Outros habitantes incluem o tubarão-martelo-recortado e o tubarão-martelo dourado, além de grandes cardumes de xereletes. Chegar a Sisters a partir de Speyside requer uma viagem em torno do ponto mais ao norte da ilha, onde as ondas se sobrepõem, atingindo alturas assustadoras, por isso condições relativamente plácidas são obrigatórias. Quando chegamos, a onda de 2 m (7 pés) não me parece terrivelmente plácida, mas conto ao menos quatro barcos minúsculos, cada um levando um (possivelmente insano?) pescador solitário, o que sugere o contrário.

A água é turva e verde, e imediatamente aceito que a chance de visualizar algum peixe grande à distância é remota. Já que é difícil olhar para longe das rochas incrustadas de

Tartarugas-de-pente são comumente encontradas na maior parte dos
mergulho de Tobago.
corais por aqui, determino que a visibilidade marginal é um bônus: Agora posso me concentrar no que está à minha frente. Não é difícil, visto que em 10 minutos já vi duas tartarugas-de-pente, uma moreia verde incrivelmente gorda e um grupo de lagostas do tamanho de cachorros. Passamos por paredes cobertas de corais tubastrea e emaranhados de esponjas e mais paredes cobertas de gorgônias vermelhas, amarelas e roxas. Ondas intensas combinadas com o desejo igualmente intenso de emergir com um sistema de câmera intacto me impedem de fazer muitas fotos, mas estou contente em desligar a câmera e apreciar a vista.

Depois do mergulho, nosso comandante sorridente com seus dreadlocks nos encontra facilmente em meio às ondas e nos leva embora. A música soca local ressoa da ponte — uma discoteca sobre a água. Enquanto o barco arranca conosco, se pode ouvir a letra da canção sobre as ondas: "Nasci em um lugar perfeito", entoa o artista local, todo orgulhoso. Tenho de concordar.
Como mergulhar lá: Tobago
Como chegar: Muitas companhias aéreas internacionais voam de Port of Spain, em Trinidad (a ilha irmã de Tobago). A partir dali, a Caribbean Airlines opera serviços de "ponte aérea" para Tobago. Há também um serviço de valsa regular entre as duas ilhas.




Estações, temperaturas da água e equipamento de exposição: Tobago fica fora do cinturão dos terremotos, mas as condições dependem da sazonalidade. A estação seca (de dezembro a junho) oferece as melhores chances de boa visibilidade (até 30 m/100 pés). Durante a estação chuvosa (de julho a novembro), a vazão do Rio Orinoco e o escoamento da ilha podem diminuir significativamente a visibilidade; embora a camada de água fresca permaneça, com frequência, na parte superior da coluna de água, possibilitando condições mais claras (se escuro) no fundo. As temperaturas da água variam geralmente de 25 °C a 28 °C (78 °F a 83 °F), mais altas no verão e no começo do outono. Devido às ondas e à corrente, uma roupa completa de 3 mm é recomendada.

Nível de habilidades e condições: Embora as condições em alguns pontos do lado caribenho sejam mais adequadas para mergulhadores novatos e poucos mergulhos de Tobago obriguem os mergulhadores a superar uma profundidade de 26 m (85 pés), boa parte do mergulho aqui é mais adequada a mergulhadores avançados. As condições na superfície podem ser desafiadoras. As ondas e correntes fortes são ótimas razões para contratar a ajuda das operadoras de mergulho locais durante a sua visita. Uma boia de marcação de superfície é altamente recomendada. Há uma câmara hiperbárica na ilha.
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Tenha um gostinho do mergulho em Tobago assistindo a este vídeo.



© Alert Diver — 3º Trimestre 2015

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