Sempre Pronto

O Programa de Mergulho da Guarda Costeira Americana


MK1 Michael Pearsall entra na água para um mergulho de treinamento em Alameda, Califórnia, usando o extreme lightweight diving system (XLDS).


"Meu cordão umbilical está preso," MK1 Michael Pearsall relata.

"Margens principais descendo," diz DV1 Geri Cabrera do local onde está monitorando o ar, a comunicação e a profundidade de seu companheiro de mergulho no XLDS (Extreme Lightweight Diving System).

Nós estamos em um píer da Guarda Costeira em Alameda, Califórnia. Está um dia quente, aberto e podemos ver suas bolhas a 30 metros de distância.

"Estou com dificuldade para respirar. Eu preciso de ar," diz Pearsall.

"Diga ao mergulhador para ir para o EGS," orienta o supervisor da equipe DV1 Adonis Kazouris, referindo-se ao sistema de gás de emergência. Cabrera retransmite a mensagem. Pearsall troca o conjunto de cilindros no píer que estava fornecendo gás a ele através de um cordão umbilical de um quarto de polegada por um cilindro autônomo EGS em suas costas.

"Você consegue soltar o seu cordão umbilical?" Kazouris pergunta a Pearsall.

"Não, negativo," ele responde.

O Segundo mergulhador da equipe avança sobre um fundo cinza lamacento através de uma água turva com 1,5 metros de visibilidade e relata, "eu encontrei um vazamento no cordão umbilical. Consertando ele agora."

"Obrigada, parceiro," Pearsall responde pelo microfone em sua máscara full face MK-20, causando sorrisos irônicos em seus sete companheiros de superfície.

Em seguida manuseadores de espias sobem os dois mergulhadores para a superfície. "Mergulhadores na superfície," Kazouris grita.

"Mergulhadores na superfície," um coro de superfície repete. Os dois mergulhadores sobem por uma balançante escada de Jacó de corda e madeira que foi presa ao cais um pouco atrás do cúter da Guarda Costeira Stratton.

Eu estou com uma "equipe de resposta rápida" da Regional Dive Locker West (RDLW) da Guarda Costeira Americana, com base em San Diego, e trabalhando em um trailer cheio de cilindros, lastros, um compressor, linhas de vida e mais.

Entre mergulhos de manutenção debaixo dos 418 pés de comprimento do Stratton, eles estão fazendo o que o pessoal da Guarda Costeira sempre faz entre operações: treinar ferozmente, nesse caso com vários cenários de emergência como perda do suprimento de ar, lesões, enrosco e doença descompressiva (DD). Eles estão trabalhando para qualificar dois supervisores de mergulho no novo XLDS. Os exercícios são baseados em suas missões principais: ajuda a navegação, operações polares e segurança portuária, hidroviária e costeira.

Exemplos desse trabalho incluem ajudar a resgatar o navio de pesca australiano de 207 pés Antarctic Chieftain depois que ele ficou preso no gelo da Antártida no inverno passado, proteger os rios de Manhattan quando o Papa Francisco visitou Nova Iorque em setembro e ajudar a recuperar fragmentos e corpos de um acidente com o helicóptero da Guarda Costeira que matou quatro de seus companheiros de serviço próximo a Mobile, Alabama, em 2012. Em março de 2016 eles irão para o oceano ártico para treinar com os mergulhadores da marinha em um bloco de gelo próximo a Prudhoe Bay, no Alaska, onde uma gama crescente de ameaças e desafios estão emergindo devido ao declínio do gelo marinho.

Como parte de seu treinamento para a missão polar, eles fazem um monte de inspeções e reparos em barcos para a frota. Ontem eles inspecionaram o casco, os hélices e os propulsores transversais do Stratton (usando um sistema de vídeo Outland de mão para que o engenheiro do navio pudesse ver o que eles estavam vendo), e eles conectaram uma saída de descarga para que um vazamento na casa de máquinas pudesse ser resolvido. Essa tarde eles irão colocar outro remendo sobre a caixa de mar (reservatório de captação) de maneira que manutenções adicionais possam ser feitas dentro do casco.

Um dos mergulhos durou uma hora e 55 minutos, razão pela qual eles estão usando um sistema de suprimento de ar a partir da superfície – de forma que eles não precisam tirar os mergulhadores da água para trocar os cilindros.



"Esses rapazes são ótimos para nós," observa o comandante do Stratton Capitão Nathan Moore. "Se eu tivesse chamado uma equipe de mergulhadores comerciais nós estaríamos a mercê deles".

Os dois consertos não planejados provavelmente teriam custado certa de US$ 10.000. Em agosto de 2015 o RDLW enviou oito mergulhadores para Juneau, no Alaska, para trabalhar em oito navios reunidos para a ajuntamento anual de navios-balizadores (além de verificar a aplicação da lei e de busca e salvamento, a Guarda Costeira também mantém as luzes e boias de navegação do país).

Quando eu comecei a escrever meu livro Rescue Warriors: The U.S. Coast Guard, America's Forgotten Heroes (Soldados do Resgate: A Guarda Costeira Americana, Os Heróis Esquecidos da América) eu fique surpreso que essa equipe de serviços parecesse mais confortável em e acima da água do que abaixo da água. Eles tinham um programa de nadadores de resgate que evoluiu a partir de uma tragédia em um resgate de helicóptero em 1983, mas não havia um programa de mergulho.

O serviço tem mergulhadores de capacete e autônomos desde a II Guerra Mundial, mas, até recentemente, o mergulho era considerado serviço voluntário ou secundário e constituído de trabalhos de reparos em águas rasas a partir de três navios-balizadores no Pacífico e inspeções de casco de Quebra-gelos polares. Depois de 9/11 o número de integrantes da Guarda Costeira armados disparou. O Maritime Transportation Security Act de 2002 criou os Maritime Safety and Security Teams (MSSTs) nos principais portos, e essas equipes incluíam mergulhadores autônomos fazendo varreduras de segurança subaquáticas. Ainda assim, mesmo ao expandir de quatro para 12 unidades, o mergulho continuava sendo um serviço secundário, com a maioria dos mergulhadores selecionando e mantendo seus próprios equipamentos. Então, em 17 de agosto de 2006 ocorreu uma trágica falha de segurança.

Naquele dia a tenente Jessica Hill e o Boatswain's Mate Steven Duque morreram em um mergulho de treinamento sob o gelo ártico durante um "resgate do gelo" do cúter da Guarda Costeira Healy cerca de 800 km ao norte de Barrow, Alaska. Eles não tinham o treinamento necessário e estavam sobre-lastreados, cada um carregando 27 kg de lastro nos bolsos de seus CEs – cerca do dobro da quantidade recomendada. As mangueiras de seus infladores de baixa pressão não estavam conectadas aos seus CEs. Eles rapidamente caíram para cerca de 67 metros, onde ficaram sem ar e asfixiaram. Seus manuseadores de espias eram voluntários não mergulhadores que não faziam ideia do que estava acontecendo. A investigação interna da Guarda Costeira que se seguiu revelou uma sequência de falhas de segurança, incluindo o fato de que o equipamento deles não havia sido inspecionado em mais de quatro anos.

"O incidente do Healy produziu mudanças drásticas em nossa liderança," disse Ken Andersen, atualmente chefe de capacidades de subsuperfície da Guarda Costeira. Reconhecendo que o mergulho tinha que ser "elevado ao nível de outras operações de alto risco e treinamento intensivo como a aviação", o serviço decidiu profissionaliza-lo, estabelecendo centros de mergulho permanentes na Califórnia (RDLW), e Virginia (Regional Dive Locker East) em 2008 e um terceiro mais recentemente no Havaí (Regional Dive Locker Pacific). Treinamento, equipamento e inspeções foram padronizados. Os centros em breve terão 71 membros qualificados. A Guarda Costeira oficialmente criou uma qualificação de mergulhadores, e a primeira classe de mergulhadores certificados da Guarda Costeira foi reconhecida em abril de 2015.

Aqueles que já estão em serviço passam mais de 200 dias por ano trabalhando em missões. Para leva-las a cabo eles adquiriram e treinaram em submarinos VideoRay operados remotamente; detectores de metais; sistemas de sonares de mão de varredura lateral, presos à máscara e rebocados; e ferramentas hidráulicas, incluindo motosserras subaquáticas. Eles utilizam sistemas fornecidos pela superfície, capacetes Kirby Morgan e unidades scuba. Eles esperam ter sua própria câmara hiperbárica no prazo de cinco anos; por enquanto eles são enviados para missões no mar com equipes médicas e câmaras da Marinha, ou então dependem de instalações em terra.

Novos recrutas passam por uma triagem de uma semana no centro de treinamento de alistados em Cape May, Nova Jersey, onde eles treinam muito tempo na piscina. Em seguida eles se familiarizam com os centros e são então enviados para o Naval Diving and Salvage Training Center (NDSTC) em Panama City, Florida. Lá eles passam pelos cinco meses no Second Class Diver Course da Marinha (veja "Ano do Mergulhador Militar", Alert Diver, verão de 2015). Alguns retornam para os três meses do First Class Diver Course, que foca em medicina de mergulho e planejamento de missão. Perto do fim do Second Class Course, ao invés de formação da Marinha em explosivos subaquáticos, os mergulhadores da Guarda Costeira se especializam em salvatagem leve, operações com roupa seca e mergulho polar.

A Guarda Costeira comanda o único programa de mergulho no gelo das forças armadas por duas semanas todo inverno nas instalações da NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional) em Seattle, Washington. Depois de algum treinamento em subidas de emergência em um tanque torre, os alunos se deslocam 595 km ao norte para Lac des Roches, na Columbia Britânica, onde eles cortam um buraco no gelo do lago e mergulham todas as manhãs. Eles expõem desenhos de rodas de carroça no gelo ao redor do buraco para o caso de um mergulhador perder seu cordão umbilical e precisar de marcadores de superfície para encontrar o seu caminho de volta. Os padrões se destacam dramaticamente no gelo desde que seja um dia ensolarado.

Como parte de seu acordo de treinamento com a Marinha, a Guarda Costeira destaca seis treinadores em tempo integral para o NDSTC. Outros sete trabalham no "dunker" na escola Rescue Swimmer em Elizabeth City, Carolina do Norte. Dunkers são modelos de interiores de helicópteros ou de pequenos barcos que caem e viram em uma piscina (muitas vezes em situações simuladas de escuridão e ondas de tempestade) para treinar aviadores e marinheiros a escaparem de um acidente na água.

Outros trabalhos interessantes feitos pelos mergulhadores da Guarda Costeira incluem pesquisas de habitat de angiospermas marinhas e corais ameaçados ao largo da Flórida para descobrir se boias de navegação precisam ser movidas, e inspeções subaquáticas pós furacão Sandy para verificar a existência de perigos recém-criados para a navegação. Avaliações pós tempestades como essa, juntamente com derramamentos de óleo e produtos químicos, fizeram com que os gestores do programa se concentrassem no desenvolvimento de capacitação para mergulho em águas contaminadas para os centros.


DV1 Geri Cabrera e Chief Petty Officer Lucas Spencer monitoram um mergulho usando o XLDS.


De volta em Alameda, Pearsall reclama para Geri Cabrera e os outros, "essa lama cinzenta realmente forma uma nuvem," enquanto ele limpa a lama das botas de mergulho que ele usou para caminhar através do não realmente contaminado, mas certamente não imaculado, fundo da Alameda Bay.

Uma das duas únicas mulheres no programa, Cabrera, que cresceu em Guam, é uma mergulhadora bem típica da Guarda Costeira. "Em 2007 me perguntaram, ‘você consegue fazer flexões de braços na barra fixa?' ‘ Sim, eu consigo fazer flexões de braço na barra fixa', eu disse; Eu acho que esse era o problema que eles tinham com as mulheres." Cabrera disse. "Então eu me formei e comecei a mergulhar com a MSST Honolulu e ao mesmo tempo dirigia um barco tático de 25 pés pois o mergulho ainda era uma ocupação secundária. Mais tarde eu mergulhei no Pacífico a partir do navio balizador Sequoia e então voltei para San Diego antes de continuar para Operation Deep Freeze [a bordo do navio quebra-gelo da Guarda Costeira Polar Star] por cinco meses na Estação McMurdo. Portanto eu mergulhei em corais intocados no Pacífico e nas geladas águas Antárticas. Eu experimentei o melhor dos dois mundos e ao mesmo tempo ajudava pessoas. Eu diria que minha carreira tem sido abençoada."

Atualmente a comunidade de mergulho recreativo está se beneficiando do crescente interesse da Guarda Costeira pelo mergulho. Como a Guarda Costeira investiga todos os acidentes marítimos, o programa de mergulho recentemente escreveu um guia para ajudar investigadores não mergulhadores a entender melhor os fatores que contribuem para lesões e fatalidades de mergulhadores. Tendo eles mesmos saído de um incidente fatal, os mergulhadores da guarda costeira estão seriamente comprometidos em colocar a segurança em primeiro lugar e ao mesmo tempo viver o lema de seu serviço: Semper Paratus – Sempre Pronto.

© Alert Diver — 1º Trimestre 2016

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