Riscos Ocupacionais






Depois de milhares de mergulhos — muitos deles realizados em lugares remotos, sob o gelo ou na companhia de animais perigosos, eu achei que tivesse superado todos os meus medos no mergulho. Então eu fui escalado pela National Geographic para uma tarefa que me levou de volta para a escola de mergulho. Para o observador, pode parecer que as imagens que preparamos para a National Geographic "caem no nosso colo": oportunidades que aparecem na frente de nossas câmeras e que simplesmente as capturamos porque estamos no lugar certo na hora certa. É claro que, às vezes, as coisas acontecem desta forma, mas na maior parte dos casos uma imagem que eu capturo começa na prancheta. Eu passo semanas, ou até meses, pesquisando, preparando e planejando antes de apertar o botão.

O meu processo criativo pessoal requer que eu trabalhe de trás para frente. Eu primeiro imagino a imagem que quero. Faço um esboço em um pedaço de papel; falo com outros fotógrafos, cientistas e exploradores; navego pela internet procurando locais específicos, barcos, especialistas, equipamento, marés, a posição do sol, o clima — todas as variáveis que possam afetar a minha imagem. Com algumas imagens isso pode levar meses ou até anos para que todas as peças se encaixem. Não é que eu esteja manipulando as cenas ou criando cenários; eu me esforço para garantir que eu esteja no local e no momento em que as coisas estejam acontecendo. E é assim que me deparo comigo mesmo nas selvas da Península de Yucatan no México com um nó no estômago.

A imagem que quero exige que eu mergulhe a uma profundidade quase 30 metros maior do que o que eu já tenha decido anteriormente (para cerca de 100 metros) e que eu trabalhe dentro do breu de uma caverna alagada. Tenho que descer meu rebreather, minha câmera e eu mesmo, por uma corda de uma altura de 20 metros, só para poder chegar ao local do início do mergulho.

Vim para Playa del Carmen, no México, aprender como fazer mergulhos profundos em caverna usando um rebreather. Esta manhã, meu instrutor, Matt, está me ensinando como navegar nas entranhas de uma caverna alagada totalmente sem visibilidade. Não demora muito para que minha cabeça comece a me pregar peças — muitas coisas podem dar errado. Matt me diz que mergulhadores de caverna devem ter uma flutuabilidade perfeita; um movimento da nadadeira contra o sedimento do fundo da caverna pode causar uma falta de visibilidade desorientadora. Ao longo dos últimos dias ouvi histórias de mergulhadores que se perderam, tiveram falhas no equipamento ou simplesmente entraram em pânico e perderam suas vidas dentro de cavernas. Alguns tentaram escavar uma saída com as próprias mãos até que não tivessem mais carne em seus ossos.


Na busca pelas imagens que precisava, o fotógrafo da National Geographic Paul Nicklen fez cursos de caverna, rebreather e trimix para fazer seu trabalho.

Estou ansioso por aprender sobre cabos de segurança e a complexa linguagem de sinais do mergulho em caverna. Estou perfeitamente consciente do nó no meu estômago enquanto Matt amarra uma bandana sobre os meus olhos para simular a escuridão completa. Ele prepara um circuito entre algumas árvores para me ensinar como navegar dentro de uma caverna. Tropeço sobre rochas e bato contra árvores enquanto finjo que estou passando cabos de segurança, e tento imaginar que estou dentro de uma caverna, sozinho e tentando encontrar a saída. Eu nunca estive tão focado em toda minha vida.

Após praticarmos as nossas habilidades diversas vezes no sufocante calor da selva, finalmente entramos na água para um treinamento de verdade. Eu mergulho vendado para demonstrar a minha habilidade de navegar seguindo um cabo guia dentro da caverna usando somente o toque enquanto mantenho uma flutuabilidade perfeita; me sinto em paz e até desfrutando o momento. Matt testa minha capacidade de gerenciar situações de emergência ao propositalmente enroscar minhas nadadeiras e meu regulador de segurança no cabo guia. Devo permanecer calmo e focado e agir com objetividade mesmo durante situações de risco de vida.

Este é apenas o terceiro dia dos meus 17 dias de curso, e já me sinto física e emocionalmente cansado. Se eu passar em meus cursos de Mergulhador de Rebreather de Circuito Fechado (CCR), Mergulhador de Caverna e Mergulhador CCR Trimix, estarei qualificado para descer ao fundo da escura e profunda dolina e completar a minha tarefa e conectar os leitores da National Geographic a este raramente explorado mundo submerso. Espero que meu treinamento me forneça as habilidades necessárias para produzir imagens poderosas e evocativas enquanto trabalho sob os desafios de estar tão fundo na escuridão.

Frequentemente me perguntam porque arrisco minha vida pela National Geographic. A melhor resposta que tenho é que não arrisco. Minha esperança é que o tipo de treinamento que estou fazendo hoje me torne um mergulhador melhor, mais seguro e eventualmente um melhor fotógrafo e contador de histórias.
Para mais informações
Para um relato mais prosaico do treinamento de rebreather, leia o artigo da Aprendendo a Mergulhar com um Rebreather


© Alert Diver — 1º Trimestre 2013

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