O Rio St. Lawrence




Um filhote de foca-da-groenlândia de apenas alguns dias de idade, chamado de casaco branco, usa um pedaço de gelo para bloquear os ventos incessantes que varrem o mar de gelo no Golfo de St. Lawrence.

David Doubilet e eu vivemos na região de Thousand Islands do Rio St. Lawrence — não por acaso ou porque eu tenha crescido por aqui, mas por planejamento e vontade. O St. Lawrence Seaway, um bulevar para a navegação internacional, é literalmente nosso quintal. O ronco baixo dos navios e as músicas comoventes de mobelhas pairam por nossa casa e escritório.

Recentemente tivemos a incrível oportunidade de explorar a extensão do rio St. Lawrence, desde nosso cais, próximo ao lago Ontario, até as distantes praias de Newfoundland e Labrador, para uma reportagem da revista National Geographic publicada em maio de 2014. A proposta de desenvolvimento de uma jazida importante de petróleo, conhecida como "Old Harry", no Golfo de St. Lawrence proporcionou o incentivo para explorar e divulgar tudo o que está em risco nas águas adjacentes. Com a ajuda de nossos colegas Michel Gilbert e Danielle Alary, começamos a planejar nossa expedição.

Nosso cais fica apenas a minutos de distância de naufrágios, castelos de livros de história e esturjões. No final de maio, quando a temperatura do rio atinge os 10°C, esturjões do rio se reúnem para desovar nos leitos de cascalho próximos. Uma corrente de 3 a 5 nós corre em suas áreas de desova, oxigenando seus preciosos carpetes de ovos. Mergulhar aqui com essa antiga espécie ameaçada é como nadar contra uma mangueira de incêndio. Esse magnífico peixe pode viver 100 anos e é programado para uma reprodução lenta: As fêmeas desovam pela primeira vez aos 25 anos e os machos aos 14-16 anos. Em um cenário de diminuição de habitat e exploração insustentável de caviar, essa é a principal causa da crise nas populações de esturjões no mundo todo.


Castelo Boldt, mostrado aqui no outono, fica localizado no coração das Thousands Islands, no rio St. Lawrence.

O rio se alarga em um dos estuários mais profundos e ricos do mundo conforme ele se aproxima da Fossa Laurenciana em Tadoussac, no Quebec. A ressurgência de águas a 3,3°C ricas em nutrientes sustenta as 13 espécies de baleias que habitam o sistema de St. Lawrence, muitas das quais encontradas dentro dos limites do Parque Marinho Saguenay-St. Lawrence. Nós trabalhamos com os cientistas do Groupe de recherche et d´éducation sur les mammifères marins [Grupo de pesquisa e educação sobre os mamíferos marinhos] (GREMM) para obter imagens das baleias beluga. As belugas de St. Lawrence são uma população querida e bem estudada que está em uma situação de declínio desesperado causado por um aumento inexplicável da mortalidade infantil. Uma corajosa beluga aparece da escuridão verde e se aproxima de nós. Ele franze seus lábios gordos e solta uma bolha, avançando com cuidado e sempre abrindo lentamente e cada vez mais sua boca rosa, tentando experimentar a caixa estanque Seacam.


Uma água-viva-juba-de-leão se move delicadamente através das águas rasas e ricas da Bonne Bay Fjord em Newfoundland.

Os famosos mergulhadores de Quebec, Paul Boissinot e Georges Mamelonet, nos encontraram em Percé, Quebec, para nos guiar até a Ilha Bonaventure no golfo próximo a Percé. A ilha Bonaventure abriga uma das maiores colônias de Ganso-patola do mundo, e grandes colônias de focas descansam aqui durante suas migrações. Nós estávamos fotografando lagostas de 5,5 kg patrulhando o fundo quando fui surpreendida por um apertão nas minhas nádegas. Eu achei que o beliscão fosse um sinal de David para voltarmos à superfície, mas eu me virei e encontrei uma foca-cinzenta, que então, de forma brincalhona, puxou minha nadadeira e tentou engolir meu domo. Essas lindas focas têm senso de humor e se comportam como filhotes. Infelizmente elas são protagonistas de uma proposta controversa de remoção de 70 por cento delas do golfo, em uma tentativa de ressuscitar as populações de bacalhau.

Cruzamos o golfo para a costa oriental de Newfoundland para encontrarmos com Rick Stanley e Robert Hooper, Ph.D., para explorar os fiordes profundos, frios e límpidos de Bonne Bay. Os paredões de rocha dos fiordes são cobertos por surpreendentes e densos carpetes de anêmonas. As encostas mais suaves são lares de peixes-lobo, que nos espiam a partir de suas tocas. Suas expressões rabugentas, pálidas e um pouco cômicas, fizeram David se lembrar de alguns de seus parentes de Montreal. Voltávamos à superfície, após os mergulhos, para dentro de um quadro vivo de enseadas banhadas pelo sol repletas de algas douradas e linguados que deslizavam como folhas. Águas-vivas-juba-de-leão de todos os formatos, tamanhos e cores pulsavam flutuando através de uma tela impressionante de coníferas e rochas antigas canadenses, um cenário perfeito para as fotografias meio-a-meio que são a marca registrada do David.


Jennifer Hayes nada com um fêmea de esturjão-de-lago com décadas de idade em seu caminho para os locais de desova.

O inverno transforma o golfo em um mundo surreal de ventos incessantes e gelos flutuantes. É o reino da foca-da-groenlândia. Para nós isso é o coração de St. Lawrence, e ficamos hipnotizados por sua beleza natural. As focas-da-groenlândia nascem no gelo no final de fevereiro, são amamentadas até os 12-15 dias e então são abandonadas por suas mães para aprenderem a ser focas-da-groenlândia. Encontramos o mergulhador Mario Cyr em Îles-de-la-Madeleine, pegamos um barco pesqueiro e navegamos através de um mar em degelo, onde vivem 10.000 focas-da-groenlândia. Descemos ao mundo congelado das focas, onde mães frenéticas e paranoicas vão e vem a partir das plataformas de gelo, e filhotes cuidadosos aprendem a nadar.

Machos cheios de testosterona rodopiam sob o bloco de gelo avidamente esperando uma oportunidade para se reproduzir. Existe uma pulsação tensa de vida nesse mundo desafiador. Passamos dias no gelo, os choros dos filhotes ecoavam através do casco de aço parecendo sons de bebês humanos. Os mergulhos eram emocionantes e exaustivos. Tivemos encontros que mudam uma vida e que permanecerão conosco.

Ao deixarmos as focas cruzamos uma tempestade que castigou os frágeis gelos flutuantes, transformando as aguas em um liquidificador e matando a maioria dos filhotes no golfo pelo segundo ano consecutivo. O aquecimento climático no golfo tem enfraquecido e desestabilizado o gelo, que se quebra sob os filhotes.

Esse mundo gelado dinâmico e que evolui do Golfo de St. Lawrence é uma corrente que corre através de nossas vidas. Nós migramos de volta todos os anos quando o silêncio do mar congelado é quebrado apenas pelo vento e pelo choro dos focas-da-groenlândia.





Como Mergulhar Lá
REGIÃO DE THOUSAND ISLANDS
Como Chegar: A região de Thousand Islands fica a 145 km ao norte do aeroporto de Syracuse, no Estado de Nova Iorque, e a seis horas de carro a partir de Boston ou Nova Iorque.

Condições: O clima no verão apresenta dias quentes (ao redor de 30°C) e noites mais frescas. A temperatura da água chega a 21°C no corredor de água doce, e a maioria dos mergulhadores usa roupa seca ou de 7mm. As correntes podem ser fortes, exigindo habilidades intermediárias a avançadas de mergulho. No final do verão e início do outono apresenta a melhor visibilidade.

Na Superfície: Atrações na superfície incluem castelos, passeios de barcos velozes, helicóptero ou aeronaves de asa fixa. Ou dê uma passada em nossa casa para tomar um café; nós somos muito divertidos.


ESTUARIO DE ST. LAWRENCE
Como Chegar: Les Escoumins, um destino internacional concorrido próximo ao Parque Marinho Saguenay–St. Lawrence, fica a quatro horas e meia de carro para leste partindo da Cidade de Quebec. Eles descomplicam o mergulho. Para mergulhadores de naufrágio avançados e técnicos, pode-se chegar ao Empress of Ireland por balsa até a margem sul em Rimouski.

Condições: O clima no verão apresenta dias quentes, noites frescas e água fria. É necessário ter experiência com roupa seca. É um mergulho recompensador, mas em água extremamente fria.

Na superfície: Observar baleias é um programa imperdível. Também pode-se fazer caminhadas e passeios de aviões de asa fixa.


PENINSULA DE GASPÉ, GOLFO DE ST. LAWRENCE
Como Chegar: Voe até o Aeroporto de Michel-Pouliot Gaspé, ou dirija nove horas em direção a leste a partir da Cidade de Quebec.

Condições: Correntes moderadas exigem habilidades de mergulho de intermediarias a avançadas. Temperaturas frias prevalecem aqui. A temperatura da água está normalmente ao redor dos 16°F, portanto os mergulhadores normalmente usam roupas secas.

Na superfície: A colônia de gansos-patola na Ilha Bonaventure é um programa imperdível. E a cozinha de Quebec não fica muito atrás.


ISLES-DE-LA-MADELEINE, GOLFO DE ST. LAWRENCE
Como Chegar: Voe para o aeroporto de Îles-de-la-Madeleine.

Condições: No inverno a ilha fica coberta de gelo, o que significa que você precisa de roupas de sobrevivência na superfície e roupas secas para mergulhar.


© Alert Diver — 4º Trimestre 2014

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