Planejamento de um Perfil de Mergulho Defensivo




Os computadores de mergulho geralmente funcionam de acordo com o projetado, mas os algoritmos matemáticos não avaliam muitos dos fatores que podem alterar o risco descompressivo de um determinado mergulho.


Suprimento de gás limitado e proteção térmica abaixo da ideal já trabalharam para colocar uma restrição no estresse descompressivo do mergulhador comum. O aumento das opções de suprimento de gás e uma melhor proteção térmica permitiram aos mergulhadores irem mais longe e por mais tempo. Os computadores têm igualmente ampliado a liberdade para explorar. Os perfis quadrados do passado podem ser substituídos por perfis de mergulho complexos que são facilmente controlados por essas caixinhas.

Uma descompressão segura pode ser alcançada permanecendo-se dentro dos limites do computador ou da tabela, mas a doença descompressiva (DD) pode se desenvolver mesmo após mergulhos que estiveram dentro dos limites prescritos. Os computadores de mergulho normalmente funcionam como projetado, mas os algoritmos matemáticos não avaliam muitos dos fatores que podem alterar o risco descompressivo de uma dada exposição. Adicionar pequenas margens de segurança em todas as etapas do mergulho pode ajudar a garantir bons resultados. Este artigo irá discutir conceitos importantes para práticas conservadoras, algumas das armadilhas que devem ser evitadas, e estratégias práticas para um planejamento e implementação de um perfil de mergulho defensivo.
Controle Conceitual
Conheça os riscos. O mergulho é usado tanto para trabalho quanto para lazer, e na grande maioria dos casos termina sem problemas. Os riscos, entretanto, não devem ser ignorados. Compreende-los é um passo essencial da preparação. Um reconhecimento precoce dos problemas pode resolver muitos deles, antes que se tornarem preocupantes.

Assuma a responsabilidade pela sua segurança. Não delegue a qualquer outra pessoa, ou dispositivo, autoridade completa sobre sua atividade. Alguns mergulhadores seguem um divemaster que eles acabaram de conhecer sem questionar; outros seguem um computador sem pensar sobre o que ele não sabe ou têm a expectativa de que ele os livrará de qualquer problema que possam criar. Qualquer pessoa ou dispositivo pode cometer erros. Certifique-se de estar ativamente e intencionalmente envolvido em todas as etapas de todos os mergulhos, capaz de guiar a você mesmo quando necessário.


A popularização da parada de segurança foi provavelmente a evolução mais importante na segurança da descompressão para o mergulho recreativo nos últimos 30 anos.



Conheça as ferramentas disponíveis. A dependência em computadores de mergulho é atualmente a norma para muitos mergulhadores. Embora você não precise ser um modelador de descompressão para mergulhar com segurança, é importante ter uma compreensão conceitual clara de como os algoritmos de descompressão nos quais você irá confiar funcionam. É igualmente importante saber o que eles não consideram e que eles podem errar. Faça perguntas, aprenda, e desenvolva planos para situações "só por precaução".

Avalie informações criticamente. Uma de nossas peculiaridades humanas é a enorme fé que colocamos no que aparece em uma tela ou medidor, como um manômetro ou tela de computador de mergulho. Isso pode até mesmo se estender para o que lemos na Internet, independentemente da origem. A tendência a uma fé cega deve ser mantida sobre controle. Mantenha uma mente aberta e crítica para avaliar plenamente as informações e usá-las de forma apropriada.

Conheça sua tolerância ao risco. O risco é inerente à vida; ele não pode ser totalmente evitado se quisermos viver, mas ele pode ser controlado. A tolerância varia entre indivíduos e situações. Geralmente a tolerância aumenta à medida que aumentam os benefícios vislumbrados e diminui à medida que aumenta a gravidade da lesão potencial. Conhecer a sua própria zona de conforto irá ajudá-lo a planejar e a agir para permanecer dentro dela.

Mantenha um estado mental orientado para a segurança. Quando regras são quebradas ou limites são violados, sem repercussões óbvias, pode haver um afastamento gradual da consideração deles como importantes. Isso pode levar a uma "normalização do desvio", na qual algo anteriormente considerado inaceitável torna-se aceitável. O problema é que o estresse descompressivo é um perigo relativamente invisível. Nós não mudamos de cor conforme nos enchemos de gás inerte, e o estresse descompressivo pode não ser percebido até que um estágio crítico seja atingido. Podemos nos sentir bem até o ponto em que nos sentimos muito mal. A vigilância é necessária para a manutenção de boas práticas.


Escolha duplas de mergulho cuja tolerância ao risco, metas e atitudes estejam alinhadas com as suas próprias.


Reforce mensagens de segurança. Pensar ou ensinar "faça isso ou machuque-se" pode ser contra produtivo para uma pratica orientada para a segurança. Como descrito acima, a primeira vez que a linha é cruzada sem um resultado negativo a regra se tornará menos importante. Depois que ela tenha sido cruzada algumas vezes a regra pode parecer irrelevante, ou o indivíduo pode achar que é dotado de uma proteção especial. Esses dois pontos de vista podem levar a decisões ruins. Lançar o foco em "faça isso e aumente sua segurança" pode proporcionar um reforço muito mais saudável. Quando nada de ruim acontece, os benefícios positivos da prática são reforçados. Tanto a paz de espírito quanto as boas práticas são promovidas.

Evite uma mission creep+. Mesmo as melhores intenções podem ser deixadas de lado por mergulhos sem problemas e conforto pessoal. Isso pode ser exemplificado em viagens de mergulho de vários dias. A intensidade de mergulhos frequentemente aumenta conforme a viagem se desenvolve. Não é incomum que uma pessoa que desenvolve DD durante uma viagem descreva suas práticas mais conservadoras como sua norma. Registro de mergulhos eletrônicos, entretanto, frequentemente revelam uma erosão das margens de segurança durante dias sucessivos.

Escolha bem a sua dupla. A mentalidade e a prática de outras pessoas no grupo podem afetar radicalmente seu risco. Escolher pessoas com metas, objetivos e atitudes complementares pode ajudar a garantir que a atividade permaneça dentro de sua zona de conforto. Se alguém com quem você estiver a mergulhar empurrá-lo para fora de sua zona de conforto, lembre-se das duas primeiras regras: conheça os riscos, e assuma a responsabilidade pela sua própria segurança.


Utilize ferramentas para defender suas práticas. Selecionar configurações conservadoras em seu computador de mergulho pode reduzir a necessidade de discutir sobre limites não descompressivos ou perfis de descompressão. Voltando à fé que temos nos computadores, diferenças nas configurações selecionadas podem levar a discussões que ajudam todos a ganharem compreensão. Uma mente crítica é essencial nesse momento para pesar os méritos das crenças dos participantes do debate. Compreender as ferramentas disponíveis é importante para compreender as opções e níveis de conservadorismo. Um artigo sobre fatores de gradiente na edição de outono de 2015 da Alert Diver pode ser útil para esse fim.1
Estratégias Práticas
Conhecimento sólido, consciência, pensamento crítico e seleção inteligente de parceiros fornecem a base para uma boa prática de mergulho. A sua implementação requer mais reflexão. Empregar uma série de pequenas margens de segurança pode produzir uma rede de proteções que pode significar abrir mão de pouco em termos de oportunidades enquanto mantem um elevado grau de conservadorismo.

O perfil

Bolhas podem ser vistas no coração de um mergulhador na tela um aparelho
de ultrassom portátil. O lado direito do coração é mostrado no lado esquerdo,
com o ventrículo direito acima do átrio direito.
de mergulho é o determinante único mais importante do risco de descompressão final de um mergulho. A mudança de perfis quadrados para perfis em níveis múltiplos pode produzir vantagens poderosas.

Ir para o fundo aumenta a taxa de absorção de gás inerte e do montante final a ser eliminado, mas ir aos extremos de seu treinamento pode ser atraente. O mergulho multinível oferece uma boa maneira de matar essa vontade, enquanto mantem uma boa segurança de descompressão. Escolher locais adequados para mergulhos multinível é uma ótima maneira de começar. No caso mais simples, nadar na ida a uma profundidade e na volta a uma profundidade mais rasa pode limitar a absorção de gás inerte e aumentar o período controlado de eliminação de gás inerte. O estresse descompressivo é minimizado e o mergulhador pode apreciar diferentes zonas durante um único mergulho.

Ida e volta funciona para a maioria das exposições recreativas, mas à medida que as profundidades máximas aumentam, torna-se cada vez mais importante passar progressivamente mais tempo em profundidades progressivamente mais rasas. Pontos de mergulho que tornam isso fácil proporcionam perfis de mergulho otimizados.

A alta taxa de mudança de pressão relativa na zona mais rasa a torna essencial na determinação do estresse descompressivo geral. Além da diminuição da intensidade de um mergulho, a ação de segurança mais importante na descompressão é o tempo passado nas regiões rasas durante a subida. Para a maioria dos mergulhos recreativos essas regiões podem ser consideradas profundidades menores do que 7,5 metros. A popularização da parada de segurança foi provavelmente a evolução mais importante da segurança descompressiva para o mergulho recreativo dos últimos 30 anos. A parada de três minutos é boa, mas é ainda melhor se for feita após um perfil multinível progressivo e for estendida de acordo com a disponibilidade de suprimento de gás e se as condições do ambiente permitirem.

A Figura 1 mostra o perfil de mergulho de um mergulho descompressivo no qual o mergulhador completou a descompressão 3 a 6 metros mais fundo do que o algoritmo do computador exigia e então estendeu o tempo na zona relativamente rasa após o período de parada obrigatória, antes de subir à superfície. Este pode ser um perfil de subida mais conservador do que o exigido, mas o resultado final sem preocupações se reflete na ausência de bolhas no coração durante o monitoramento pós mergulho.


Figura 1.


Há momentos em que o excesso de aplicação de regras bem-intencionadas pode atrapalhar a segurança. Por exemplo, os mergulhadores são frequentemente ensinados a subir à superfície com 50 bar de reserva em seus cilindros. Se a preocupação com subir com essa reserva se torna tão forte que as paradas de segurança são abreviadas, a regra se torna contra produtiva. Os mergulhos devem ser planejados para terminarem com uma reserva de ar, mas usar um pouco desse suprimento para estender a parada de segurança é provavelmente uma concessão com grande benefício. Dito isso, qualquer desvio das regras estabelecidas deve ser discutido após o mergulho e atitudes devem ser tomadas para evitar futuras violações desnecessárias.

Outra área na qual a segurança pode ser colocada em risco é o perfil de mergulho reverso. Todas as outras coisas sendo iguais, planejar o mergulho mais profundo primeiro faz sentido já que é consistente com boas práticas para mergulhos multinível. Mas todas as coisas normalmente não são iguais, e, tanto quanto sabemos, nosso corpo na verdade não registra se o gás inerte acumula a uma pressão A ou B; o importante é o acúmulo total e as pressões subsequentes atingidas para eliminar o gás inerte do corpo. Em termos práticos, a ordem da profundidade máxima entre dois mergulhos pode não ter importância. Surgem preocupações quando a regra do "mergulho mais profundo primeiro" é aplicada com tanto rigor que um mergulho profundo desnecessário é conduzido por nenhuma outra razão senão permitir um segundo mergulho profundo quando ele precisa ser feito mais tarde (por exemplo, para atender a um estado de maré adequado). Uma fixação sem sentido nas regras pode criar problemas. O planejamento de mergulho deve ser pensado.

Intervalos de superfície também precisam ser considerados. Há uma tendência a um encurtamento progressivo, provavelmente devido a uma ampliação dos objetivos e uma percepção de eficiência. Os intervalos de superfície são importantes para a eliminação de gases inertes. O intervalo de superfície mínimo razoável varia de acordo com a exposição, mas focar no mínimo não é uma pratica conservadora. Se intervalos de superfície curtos forem necessários, a intensidade dos perfis de mergulho deve ser moderada.

Os finais das viagens de mergulho frequentemente requerem a consideração do intervalo de superfície final antes de voar. Os planos de voar após mergulhar são normalmente baseados nas diretrizes produzidas em um workshop da DAN.2 Os intervalos superfície mínimos antes de voar foram desenvolvidos a partir dos dados disponíveis: 12 horas após um único mergulho dentro dos limites não descompressivos; 18 horas após múltiplos mergulhos em um dia ou dias seguidos de mergulho; e "substancialmente mais do que 18 horas" após mergulhos descompressivos. Um desafio adicional é que essas diretrizes se aplicam a cabines de aeronaves com pressões equivalentes a altitudes na faixa entre os 2.000 e 8.000 pés (600 e 2.400 metros). Margens de segurança adicionais são recomendadas já que não se pode saber com certeza se a altitude de cabine irá exceder essa faixa. Planejar um intervalo de superfície de pelo menos 24 horas após mergulhar é uma boa regra geral, e uma margem de segurança adicional pode ser obtida através de exposições mais conservadoras no último dia de mergulho. Dirigir para altitude após mergulhar pode igualmente levar a um maior estresse descompressivo; também requer intervalos de superfície apropriados antes de viajar.

Em última análise, a melhor maneira de proteger a si e seus duplas é adicionar conservadorismo em todos os aspectos do planejamento e execução do mergulho. O resultado concreto pode ser um alto nível de segurança, normalmente com pouco comprometimento de sua experiência de mergulho. Quando bons hábitos são estabelecidos e a paz de espírito é mantida, o melhor mergulho do mundo é possível. O mergulhador ponderado e bem informado continua sendo o fator mais importante na produção de desfechos seguros.

+n. da t. (mission creep é um termo que se refere a uma mudança ou ampliação gradual dos objetivos durante uma companha militar, frequentemente após um sucesso inicial e levando a um comprometimento de longo prazo não planejado.)

Referências
1. Pollock NW. Gradient Factors: A pathway for controlling decompression risk. Alert Diver 2015; 31(4): 46-9.

2. Sheffield PJ, Vann RD, eds. DAN Flying After Recreational Diving Workshop Proceedings; May 2, 2002. Durham, NC: Divers Alert Network, 2004.


© Alert Diver — 1º Trimestre 2016

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