Pesque por uma causa






Fazendo as malas após uma viagem de mergulho autônomo em Bali, cinco anos atrás, Colleen Gallagher ouviu um guia local se lamentar por não ter nada que levar para o velório de um parente que havia morrido. Um outro mergulhador apanhou seu equipamento de caça submarina, entrou de volta na água e retornou rapidamente com dois grandes peixes, que ofereceu ao homem.

"Fiquei surpresa pela forma com que uma pessoa ajudou a outra sem pestanejar. Comecei a pensar em fundar uma ONG que combinasse a caça submarina com a filantropia", disse Gallagher. Enfermeira de UTI dedicada a ajudar os outros, ela adquiriu a paixão pela caça submarina através de sua agora falecida amiga Bonnie Row. A dedicação de Gallegher a estes dois compromissos levou a fundação do Diving for a Cause (Mergulhando por uma causa — DFAC na sigla em inglês). A primeira viagem organizada por ela culminou com a doação de quase 230 kg de peixe para um orfanato na Baja California.


Diving for a Cause é uma organização de caridade sem fins lucrativos que oferece aos voluntários oportunidades de mergulho livre, caça submarina e ajuda a comunidades carentes em todo o mundo.
Desde então, Gallagher organizou outras viagens — para a Grécia, Nova Zelândia, Panamá, Bahamas, Costa Rica, Madagascar entre outras — tendo o objetivo de realizar uma viagem a cada mês. O DFAC já voltou para a Baja California, alojando-se outra vez nas Palapas Ventana, um conjunto de casitas a beira mar de propriedade de Tim Hatler, que ajudou na primeira viagem. O californiano Eric Small, que previamente trabalhou para Hatler como divemaster, liderou uma dessas viagens.

O caçador submarino levou crianças do orfanato local para fazer flutuação com máscara e repirador. "Foi a primeira vez que a maioria delas usou uma máscara e olhou para o fundo do mar" diz Small. "Algumas delas estavam bastante tímidas, mas logo começaram a se divertir e tiveram que ser praticamente arrastadas para fora da água." No último dia de viagem o grupo organizou uma equipe em fila para transportar o peixe doado do veículo até o congelador do orfanato. "Transportando o peixe desta forma pudemos ter uma idéia do quanto estávamos realmente doando", ele adiciona. "Foram várias grandes caixas térmicas cheias de peixes realmente muito bons." Depois os mergulhadores jantaram com as crianças e a noite acabou com um jogo de futebol.



Os participantes das viagens do DFAC sempre praticam mergulho livre. Segundo o mergulhador livre veterano e pioneiro de segurança Dr. Terry Maas, "O DFAC combina o espírito do serviço comunitário com praticas éticas de caça submarina — caçar apenas o que será usado, poupar populações escassas ou em perigo de extinção, e não caçar espécies grandes de peixes apenas como troféus. Mergulhando por uma causa e dedicando tanto ao mergulho responsável quanto ao serviço comunitário.

Gallagher destaca que a natureza seletiva da caça submarina é usada para limitar seu impacto potencial nas populações de peixes e que o DFAC presta uma atenção especial às leis e limites. A ênfase do grupo no serviço comunitário também cria uma atmosfera diferente. "Ninguém se importa com quem pesca o maior peixe. Isso elimina todo o lado competitivo," disse ela. "Fazemos isso como uma equipe, e doamos tudo". Bill Ernst, um bombeiro aposentado da Califórnia e um caçador submarino veterano de competição, participou em uma recente viagem a Grécia, onde doou peixe para três instituições de caridade. "A caça submarina me parece muito mais justa do que qualquer outra maneira de se pegar peixes", disse ele. "Você está jogando pelas regras deles".




Antes do DFAC visitar um destino em particular, Gallagher envia pessoas para estabelecer contato com escolas locais ou outras instituições de caridade e para organizar os suprimentos com donos de estâncias turísticas. Isso garante que o trabalho comunitário fará um uso eficiente do tempo dedicado pelos voluntários. As estâncias turísticas oferecem descontos nos serviços por causa da enorme boa vontade gerada nas comunidades. "Os moradores locais podem estar inicialmente céticos com o fato de que donos de estâncias turísticas de repente participem do seu mundo" disse Gallagher, "mas logo se rendem ao interesse genuíno, contribuições e amizades oferecidas pelos membros da DFAC." Muitos encorajam o grupo a voltar.

A típica viagem DFAC dura uma semana e combina vários dias de caça submarina com pelo menos dois dias de serviço comunitário. Os mergulhadores doam 70 por cento ou mais de sua caça e ainda participam de um projeto de serviço social. Eles levam máscaras, respiradores e bolas de futebol doadas e as entregam para as crianças locais pessoalmente. Eles também levam livros e material escolar para escolas e participam de atividades em sala de aula, muitas vezes lendo os livros que eles mesmos trouxeram. Eles pintam edifícios, fazem reparos elétricos e geralmente contribuem com melhorias duradouras onde quer que vão.



O programa é tão popular que alguns destinos já pediram visitas da DFAC, disse Maas. "Não vamos salvar o mundo com dois ou três dias de serviço comunitário, mas isso deixa a todos, participantes e receptores, sentindo-se muito bem. O sentimento de boa vontade que deixamos na comunidade não pode ser medido." Entretanto, essas centenas de quilos de peixes colocados nos congeladores dos orfanatos, cozinhas e a asilos, podem.
Para mais informações
As viagens são abertas tanto a mergulhadores quanto a não mergulhadores. Visite www.divingforacause.org para saber mais ou para se inscrever em uma próxima viagem.


© Alert Diver — 1º Trimestre 2013

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