Perfil do Pesquisador: David Doolette




David Doolette visita as instalações hiperbáricas do Centro Sueco de Mergulho das Forças Armadas e de Medicina Naval (Swedish Armed Forces Diving and Naval Medicine Centre).


Um fisiologista pesquisador do departamento de pesquisas biomédicas da Unidade de Mergulho Experimental da Marinha dos EUA (NEDU do inglês U.S. Navy Experimental Diving Unit) e um professor assistente do departamento de anestesiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Duke, David J. Doolette, Ph.D., também é um mergulhador técnico avançado e mergulhador de cavernas, um educador e orador público. Com vários artigos publicados em revistas científicas, ele tem ajudado a fazer avanços significativos na ciência do mergulho há mais de 20 anos.

Nascido e educado na Austrália, Doolette fez sua pesquisa pós-doutoral sobre o fluxo sanguíneo e o transporte de gases, drogas e substâncias fisiológicas para tecidos e órgãos, como o cérebro, coração, pulmões e músculos. Ele se tornou especialista na modelagem dos efeitos das mudanças no fluxo sanguíneo e das variações nos parâmetros acumulo de substâncias, o que é ideal para o estudo da transferência de gases durante a compressão e a descompressão. Embora pesquisadores com essas habilidades estejam em alta demanda na área de fisiologia clínica e farmacologia, Doolette foi para a fisiologia do mergulho.

Depois que ele se tornou um mergulhador, Doolette quis aplicar suas habilidades à ciência do mergulho. O mal descompressivo (MD) tem várias formas e níveis de gravidade, e o diagnóstico do MD em estudos de campo com base em auto-relato é evasivo. Doolette desenvolveu uma ferramenta para medir o estado de saúde em mergulhadores e calibrou-a para diagnosticar o MD. Esta ferramenta foi usada mais tarde para estudar e melhorar a segurança de vários grupos de mergulhadores.

Ele publicou vários estudos que modelam vários aspectos da saturação e desaturação antes de se juntar à equipe da NEDU. Desde então ele está na vanguarda da pesquisa e desenvolvimento de procedimentos de descompressão segura. Agradecemos sua vontade de nos contar mais sobre seu trabalho.

Como e quando você se tornou um mergulhador?
Eu sempre vivi perto do mar, e uma escola do ensino médio que eu frequentava ficava muito próxima de uma costa rochosa, onde regularmente eu passava o meu intervalo de almoço fazendo mergulho livre. Um dia eu vi as trilhas de bolhas que levavam a dois mergulhadores na água e pensei: "Eu quero fazer isso". Em 1979, no dia em que fiz 16 anos (na época a idade mínima para aprender a mergulhar), me inscrevi em um curso de mergulho. Fiquei envolvido com o mergulho, a trabalho e a lazer, desde então.

Por que você desenvolveu a ferramenta de pesquisa de saúde e o que ela faz pela pesquisa da descompressão?
No início dos anos 90, uma indústria de piscicultura intensiva que utilizava mergulhadores surgiu no sul da Austrália. O atum rabilho era capturado no mar e transportado para currais costeiros, onde eram engordados para o mercado de sashimi. No início a indústria empregava mergulhadores com treinamento recreativo, e havia uma grande quantidade de incidentes de doença descompressiva grave (DD). Trabalhei com Derek Craig, um mergulhador e inspetor de saúde e segurança, para caracterizar as práticas de descompressão. Eu precisava de um método padronizado para a coleta de informações sobre os desfechos de saúde pós-mergulho, particularmente os sintomas de DD, de um grande número de mergulhadores em campo. O método ideal seria ter pessoal treinado na área médica para ir a campo monitorar os mergulhadores. Isso não foi prático, então desenvolvi e validei o questionário de saúde do mergulhador, um questionário de uma página usado para auto-relatório de status de saúde relevante para a DD.

A incidência de DD no mergulho recreativo é relativamente baixa e os mergulhadores ficam surpresos quando ela ocorre porque eles e seus duplas já fizeram mergulhos com perfis semelhantes muitas vezes sem nenhum problema. Você poderia nos falar sobre a variabilidade dos desfechos da descompressão e como isso afeta sua pesquisa?
É por causa desta questão que estamos tendo esta entrevista. Em 1985, terminei meus estudos de graduação em fisiologia e estava trabalhando como instrutor de mergulho. Um dia dois amigos e eu estávamos fazendo um mergulho de naufrágio; era um mergulho descompressivo com ar bastante profundo e, logo após, um dos meus duplas, que já havia feito milhares de mergulhos, desenvolveu DD. Isso me fez pensar: "Por que ele e porque nesse dia?" e despertou meu interesse pela DD.

Mergulhos

Doolette ajuda a implantar equipamentos para rastrear o fluxo de água no
sistema de cavernas subaquáticas Wakulla-Leon Sinks.
semelhantes podem na verdade ser diferentes o suficiente para terem um risco de DD diferente, mesmo que o perfil de profundidade / tempo seja o mesmo (o que é improvável fora das configurações de pesquisa). Por exemplo, se os mergulhadores trabalharem muito em profundidade ou estiverem com frio durante a descompressão, o risco de DD aumenta bastante em comparação com o repouso e o calor - tanto quanto se eles duplicassem seus tempos de fundo. Mesmo em um ambiente de laboratório, no entanto, onde os mergulhos são conduzidos em um tanque pressurizado onde o perfil de mergulho, o gás respirado, a temperatura da água e o trabalho realizado podem ser idênticos para todos os propósitos práticos, vemos variabilidade na ocorrência de DD. Em outras palavras, mergulhos idênticos com o mesmo mergulhador podem resultar em DD em algumas ocasiões e não em outras.

Desde 2000 a Marinha realiza uma série de experimentos nos quais um indivíduo mergulha o mesmo perfil de mergulho várias vezes, às vezes resultando em DD e às vezes não. Isso é uma evidência clara de que a susceptibilidade de um indivíduo à DD muda de um dia para outro. Existem duas mensagens importantes para os mergulhadores: 1) Os mergulhos não são completamente "seguros" ou "inseguros" - em vez disso, eles têm um risco maior ou menor de DD; e 2) ter feito mergulhos similares no passado sem incidentes não é motivo para desconsiderar a DD. A ciência da descompressão moderna está preocupada com a mensuração e a previsão do risco de DD.

Como os computadores lidam com a variabilidade dos desfechos da descompressão?
Os computadores de mergulho e as tabelas de descompressão lidam com variabilidade diária do indivíduo em sua susceptibilidade à DD fornecendo uma escolha de orientação de descompressão relativamente conservadora, de modo que a maioria das pessoas na maioria dos dias esteja segura desde que mergulhe adequadamente.

Como os computadores de mergulho deveriam ser avaliados na fase de desenvolvimento?
Um computador de mergulho deve implementar um algoritmo de descompressão que tenha sido submetido a testes humanos para que o risco de DD dentro dos limites não descompressivos e dos perfis de descompressão esteja bem caracterizado. O computador de mergulho deve então ser submetido a testes de validação para garantir que ele produz fielmente limites não descompressivos e perfis de descompressão exatamente conforme o previsto. Esta é a abordagem utilizada pela Marinha dos EUA.

O que os mergulhadores devem levar em consideração ao escolher um computador de mergulho?
Infelizmente,

Doolette inspeciona um fóssil no sistema de cavernas subaquáticas
Wakulla-Leon Sinks.
os mergulhadores recreativos provavelmente não têm muitas opções de computadores de mergulho que implementem um algoritmo de descompressão submetido ao mesmo nível de testes humanos que o computador de mergulho da marinha americana. Eu não sou um especialista em computadores de mergulho recreativo, mas sei que muitos implementam variantes do algoritmo de descompressão ZH-L16 (Bühlmann), e os testes humanos com o ZH-L16 estão bem documentados.

Paradas profundas têm atraído a atenção do público de mergulho - mergulhadores técnicos em particular. Os debates ainda não podem ser resolvidos, mas sua equipe contribuiu com provas importantes. Onde estamos em relação à eficácia de paradas profundas?

Precisamos considerar três tipos de paradas profundas. Primeiro é o uso de paradas de segurança mais profundas do que as tradicionais para mergulhos recreativos sem parada, onde o tempo total de mergulho, incluindo a parada de segurança, é menor do que os limites não descompressivos aceitos. Esta parada de segurança profunda provavelmente não faz mal, mas as evidências são conflitantes sobre se elas são ou não mais benéficas do que as paradas de segurança tradicionais aos 5 metros de água do mar.

Em segundo lugar, a prática que foi popular nos primórdios do mergulho técnico de adicionar uma breve parada descompressiva não programada mais profunda do que a primeira parada de descompressão prescrita e, em seguida, recalcular (ou deixar o computador de mergulho recalcular) o tempo adicional de descompressão necessário. Isso resultará em um tempo de descompressão total mais longo e, se as paradas não forem muito profundas, devem ser mais seguras do que a programação original, mas o quão mais seguro nunca foi rigorosamente testado.

O terceiro tipo de parada profunda é quando um algoritmo de descompressão é projetado para redistribuir o tempo de paradas de descompressão rasas para paradas profundas; em outras palavras, em comparação com um perfil de descompressão convencional, existem paradas profundas adicionais, mas o tempo total de descompressão é o mesmo (ou menor). A premissa teórica é que as paradas profundas resultam em menos bolhas e bolhas menores e, portanto, a programação de paradas profundas resultante deve gerar um risco de DD menor do que uma programação convencional. Existe atualmente uma considerável evidência experimental de que esses tipos de perfis com paradas profundas não resultam em um risco de DD menor do que os perfis convencionais.

Como a temperatura corporal afeta a descompressão?
Estar muito aquecido no fundo ou estar com muito frio durante a descompressão aumenta o risco de DD. Presumivelmente, isso é causado pelo aumento do fluxo sanguíneo para os tecidos superficiais e, portanto, pela absorção mais rápida de gás inerte quando aquecido e, inversamente, reduz o fluxo sanguíneo e leva a uma remoção mais lenta do gás inerte quando frio. Isso provavelmente não tem muita consequência para os mergulhadores que realizam mergulhos não descompressivos e certamente não vale a pena ficar deliberadamente com frio no fundo e arriscar ter hipotermia. Para os mergulhadores que realizam mergulhos descompressivos, no entanto, vale a pena pensar no assunto. Se um mergulhador ficar com muito frio durante a descompressão, o tempo necessário para a descompressão é aumentado. Se os mergulhadores tiverem um sistema de aquecimento ativo, como uma roupa interior aquecida eletricamente, eles devem usa-la apenas o suficiente para ficar confortável enquanto estiverem no fundo e conservar a bateria para garantir que eles possam usar o calor durante a descompressão.

O que os mergulhadores recreativos devem fazer quando as condições do mergulho os fazem se esforçar mais do que o habitual?
Trabalho no fundo aumenta o fluxo sanguíneo e resulta em uma absorção mais rápida de gás inerte. Isso aumentará o risco de DD em um mergulho não descompressivo. Os mergulhadores recreativos que se exercitam mais do que o habitual no fundo devem acrescentar alguma segurança, subindo antes de atingir o limite não descompressivo.

Agora temos mais maneiras de estudar as bolhas de gás venosas que podem se formar após o mergulho. Quais são algumas das ferramentas e métodos que permitem essa pesquisa?
A embolia venosa gasosa (EVG), as bolhas que ocorrem nos tecidos do corpo, são transportadas pelo sangue venoso e podem ser detectadas em veias grandes ou no lado direito do coração. O número de bolhas é comumente descrito semiquantitativamente (ou seja, por uma nota em uma escala ordinal). Muitos mergulhos resultam em EVG detectável, mas não resultam em DD. A EVG depois de um mergulho de maneira alguma indica se o mergulhador desenvolverá DD. Em grandes compilações de mergulhos experimentais, no entanto, há uma maior incidência de DD em mergulhos que resultaram em EVG de nota alta do que em mergulhos que resultaram em EVG de nota baixa. Essa relação leva as pessoas a usarem EVG como medida de estresse descompressivo (um índice do risco de DD) em mergulhos que não necessariamente resultam em DD. Isso pode produzir informações úteis se o EVG for a medida de resultado apropriada, se o experimento for cuidadosamente projetado e bem executado, e se os resultados forem interpretados de forma pensada.

A EVG, no entanto, não é a medida de resultado apropriada para todas as experiências relacionadas à descompressão. O EVG só é significativo se o experimento estiver testando uma intervenção que altere a formação de bolhas e seu crescimento no tecido e, desse modo, influencie o risco de DD. Exemplos são testes de perfis de descompressão, esforço do mergulhador e estado térmico do mergulhador. O EVG não é uma medida de resultado adequada para intervenções direcionadas à "jusante" da formação e crescimento de bolhas - nas respostas fisiopatológicas às bolhas. Um exemplo seria a avaliação dos métodos de tratamento da DD.

As notas de EVG após mergulhos idênticos são bastante variáveis, tanto entre mergulhadores quanto para o mesmo mergulhador em diferentes ocasiões. Portanto, a nota da EVG após um único mergulho em um único indivíduo não é informativa. Somente após múltiplas repetições do mesmo perfil de mergulho são úteis as notas de EVG. O número de repetições depende da pergunta da pesquisa, mas, na minha opinião, deve haver uma boa justificativa para menos de 20, e 50 seria preferível.

Existem dois desenhos experimentais comuns. O EVG pode ser usado para validar uma tabela de descompressão avaliando perfis selecionados. Cada perfil é mergulhado pelo menos 20 vezes e "falha" se mais da metade dos mergulhos resultarem em EVG de nota alta; caso contrário, "passa". Um desenho experimental mais comum e, na minha opinião, o melhor uso da EVG, é comparar dois ou mais procedimentos de descompressão diferentes. Cada procedimento é mergulhado 50 vezes, e uma diferença significativa nas notas da EVG indica uma diferença no risco de DD.

Existem muitos desafios técnicos na execução de um bom estudo de EVG, mas uma consideração muito importante é a frequência e o momento das medidas de EVG após o mergulho. O único índice validado de "estresse descompressivo" é o pico da nota de EVG medido após o mergulho. Esse pico pode ocorrer a qualquer momento desde imediatamente após a subida à superfície até várias horas depois. Geralmente, é prático medir a EVG apenas periodicamente, então essas medidas precisam começar logo após a emersão e continuar com frequência por duas ou mais horas.

Uma das muitas considerações importantes na interpretação dos resultados das experiências de EVG é que, embora uma diferença significativa nas notas da EVG entre dois procedimentos seja evidência de uma diferença no risco de DD, não é um indicador confiável de quão grande esta diferença é. Da mesma forma, por muitas razões, não encontrar uma diferença nas notas de EVG entre os procedimentos de descompressão não indica que não há diferença no risco de DD.
Saiba Mais
Assista à apresentação de David Doolette sobre "Decompression Methods" no Rebreather Forum 3.0.



© Alert Diver — 4º Trimestre 2016

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