O Recife dos EUA

A nova geração


Essa foto aérea mostra as formações de corais spur-and-groove em Molasses Reef.
"Assim que cruzarmos Jewfish Creek as coisas mudam," eu disse meio para mim, meio para Quinn, meu neto de 13 anos de idade, que está com seu nariz grudado na janela do carro. Ele estava olhando para oeste, observando um curso de água repleto de mangue que vai até Florida Bay, quando nos aproximamos do topo da ponte que cruza Jewfish Creek — a primeira e uma das mais altas das 42 pontes que se espalham pelos 200 km da rodovia U.S.1, conhecida como Overseas Highway. A rodovia histórica à beira do oceano conecta 37 ilhas das Florida Keys antes de finalmente ficar sem ilhas para conectar a Key West.

"O seu avô tem razão sobre isso. As Keys têm um jeito de amolecer você," Anna (Nana) afirmou no banco de trás, com seu rosto também colado no vidro.

"Se prepare", ela continuou enquanto nosso carro subia e descia a pista em direção a Key Largo. "Isso vai ser divertido."

Menos de quatro horas depois nós três estávamos navegando em direção a Molasses Reef. Anna e eu mergulhamos a mais de 60 anos e já fizemos milhares de mergulhos, muitos nas Florida Keys, frequentemente em Molasses. Essa seria a primeira vez de tudo para Quinn, e ele estava animado. Ele tinha que estar.


Recifes de franja oferecem habitat para vários peixes, incluindo a salema.

O Molasses Reef ficava a 45 minutos de barco de nosso resort do lado da baia (lado ocidental) da longa e estreita ilha conhecida como Key Largo. Nossa embarcação, com uma dúzia mais ou menos de mergulhadores a bordo, diminuiu a velocidade para entrar em um canal rodeado de casas que foi escavado através das rochas calcárias da ilha anos atrás, quando você podia fazer coisas como essa. Saindo do canal, nós aumentamos a velocidade em uma lagoa antes de diminuir novamente para uma navegação sinuosa por uma floresta de mangue. Então estávamos em mar aberto seguindo para nosso recife — uma fortaleza de coral paralela ao longo arco de 1,700 ilhas calcárias conhecidas como Florida Keys, que são os remanescentes de um antigo recife.

A linha de recife para onde estávamos indo é um dos mais longos e largos recifes de coral dos Estados Unidos Continental — um local selvagem sobrevivendo no limite norte da região onde os corais formadores de recifes podem crescer. Apesar disso, o recife é imenso. Se a estrutura não fosse interrompida aqui e ali em direção ao sul ela seria a quarta maior barreira de recifes do mundo. Nós temos sorte em ter tal tesouro em nosso quintal. Assim como o Yosemite, o Grand Canyon e o Appalachian Trail, ele é nossa herança, é parte do que somos. Eu não consigo pensar em um lugar melhor para o Quinn fazer seu primeiro mergulho no oceano do que no recife dos EUA.

Anna e eu estamos em uma missão muito importante para nós: estamos introduzindo nosso neto Quinn no mergulho. Ele e dois primos se certificaram quatro meses atrás. O treinamento das crianças foi excelente, mas os mergulhos de batismo foram conduzidos em um lago de nascente da Florida, muito diferente de se fazer um passo de gigante a partir de um barco em mar aberto. Anna e eu concordamos que seus primeiros mergulhos em um recife deveriam ser feitos com um instrutor. Portanto, logo após o 4 de julho, nós três saímos para uma viagem de carro de duas semanas para as Florida Keys — um destino tropical clássico conhecido por operações de mergulho de primeira linha, águas repletas de peixes e diversão.
O Benwood e a Lista
Os mergulhos de Quinn com um instrutor funcionaram. Dois dias depois de chegarmos ele estava relaxado, confiante e pronto para a aventura; e uma aventura é exatamente o que ele tem no Benwood. Esse naufrágio da época da II Guerra Mundial, torcido em uma massa emaranhada após meio século sob as ondas, se tornou um imã de vida marinha. Quando chegamos, os destroços giravam com peixes se alimentando em uma bola de silversides tentando se esconder dentro da proa. Predadores estavam por toda parte, gordos, felizes e brincando com a refeição de milhões de peixinhos a seu bel-prazer. Pelo menos duas dúzias de badejos quadrados espreitavam nas sombras, emboscando os peixinhos por baixo enquanto xereletes-azuis e guaíubas atacavam por cima. O frenesi agitava tudo; até mesmo moréias-verdes estavam nadando fora de suas tocas. Quando eu finalmente subi de novo abordo, Anna e Quinn ainda estavam falando sobre suas aventuras.


Guaíuba se alimenta de peixinhos na proa do Benwood.


"Conte ao Vovô o que você viu, Quinn."

"Uma manta," ele grita com um sorriso tão grande quanto o Benwood.

"Onde?" Eu perguntei, um pouco em dúvida se ele realmente havia feito essa rara avistagem.

"Próximo à proa, não distante de onde você estava fotografando os peixinhos," Quinn respondeu. "Eu mostrei para meu instrutor e para a moça com a gente. Eles viram também."

"Você acredita?" Anna disse enquanto trocava os cilindros. "Esse é um peixe impressionante para adicionar à sua lista."

Para ajudar Quinn a se familiarizar com a vida selvagem, nós havíamos sugerido que ele escrevesse os nomes das espécies de peixes que visse durante a viagem. Contando a manta, ele adicionou seis novas espécies à lista no Benwood incluindo moréia-verde, tarpão e, claro, a gangue de badejos-quadrados bem alimentados. Nós também havíamos programado várias visitas a praias durante nossa estadia para aprender sobre outras facetas do mundo submarino e se familiarizar com o que está sendo feito para proteger as criaturas marinhas e o ambiente.
An Underwater Hotel

Uma garoupa-chita agarra um budião-crioulo em Mike’s Wreck, próximo a Key Largo.
Naquela tarde estacionamos em uma área próxima a uma laguna de mangue, local onde fica o Jules' Undersea Lodge, para uma visita ao único hotel submarino do mundo. O habitat submerso, no qual podem dormir seis aquanautas, começou sua vida operacional no início dos anos 1970 quando foi colocado sobre um platô de areia próximo a Porto Rico, onde ele serviu como um dos primeiros laboratórios de pesquisa subaquáticos. Quinn e eu colocamos cilindros de mergulho e navegamos em um circuito através da laguna. Atacados por um contingente de peixes de águas rasas, chegamos atrasados, mas adicionamos mais cinco espécies à lista.

Por décadas eu ouvi sobre a exploração dos aquanautas vivendo sob o mar, às vezes por meses a cada vez. Mesmo após tudo que li eu não tinha consciência da trama envolvida até que eu entrei, através da piscina em lua, dentro da câmara molhada do habitat. Esse e os três compartimentos anexos, mantidos secos por um fluxo constante de ar comprimido, são espartanos mas bem equipados. Um par de janelas redondas de 1 metro de diâmetro dominam o espaço com um brilho amarelo esverdeado quente e a vista dos peixes passando.
Sete Milhas de Ponte
Na manhã seguinte deixamos Key Largo cedo para uma viagem de 124 km de carro para Big Pine Key — local do Looe Key Reef e uma joia de lugar para mergulhar. Nossa viagem de 2 horas nos levou através de grande parte da Overseas Highway — um destino por si só. No início, nas Keys mais ao norte, não se conseguia ver o mar, mas conforme continuávamos em direção a sudoeste, as pontes que separam o Atlântico da Flórida Bay se tornavam cada vez mais longas até que logo estávamos rodeados de água. Ponte após ponte cruzava um mundo azul ameno pontuado por barcos e ilhas. Quando chegamos na famosa Seven-Mile-Bridge (Ponte de Sete Milhas) no final sul de Marathon, foi fácil acreditar que a superfície da Terra é composta realmente de sete décimos de água.

A Seven-Mile Bridge corre paralela a uma antiga estrutura de ferrovia — um remanescente da primeira conexão por terra entre o continente e Key West. A extensão da Florida East Coast Railway (Ferrovia da Costa Leste da Flórida), apelidada de "Flagler´s Folly "(Loucura de Flager) às custas do magnata Henry Flager, que financiou sozinho a mal fadada empreitada, assentou seu primeiro trilho em 1905. Terminada em 1912, trens percorreram a linha por 22 anos sem lucro antes que ela recebesse o golpe final do Furacão do Dia do Trabalho de 1935. Sem apetite para reconstruir o que sobrou da ferrovia, foi vendida para o Estado. Seguindo um pouco de pensamento criativo, uma rodovia de asfalto de duas pistas foi construída sobre as estruturas existentes 5 metros acima dos antigos trilhos, tornando possível aos automóveis irem até Key West pela primeira vez.


Veado das Keys se alimenta em Big Pine Key.
Nós chegamos em Big Pine Key, o portão de entrada para as Keys do sul e a apenas 35 km de Key West às 7 da manhã, cedo demais para fazer o check in na loja de mergulho, portanto fomos caçar veados — veados das Keys para ser exato, a versão miniatura da ilha dos cariacus, não muito maiores do que Setters Irlandeses. Nós seguimos o GPS da Anna até um cruzamento fora da cidade onde dizem que eles ficam. E avistamos três fêmeas e um macho mordiscando capim na beira da pista. Quinn abaixou sua janela e tirou uma foto.

A famosa formação recifal spur-and-groove dentro do Looe Key National Marine Sanctuary (Santuário Marinho Nacional de Looe Key) há tempos é um dos meus mergulhos favoritos. Embora a pesca seja permitida, armadilhas, caça com arpão e a coleta de peixes foram banidos há três décadas, permitindo que a vida marinha crescesse abundantemente. Quase antes que as bolhas sumissem Quinn se juntou a um cardume de budiões que estava passando embaixo do barco. Um frade dócil com mergulhadores mordiscava as bolhas em volta de sua cabeça quando ele ajoelhava na areia. Atrás de uma curva ele viu um tubarão bico-fino à distância. Ele nadou em direção a ele para ver melhor — um bom sinal. Ainda mais surpreendente, um mero de 1,5 m e 200 kg passa lentamente — um beneficiário da lei de 1990 que protege a espécie. Um encontro com um peixe desse tamanho seria incomum quatro décadas atrás quando eu mergulhei nas Keys pela primeira vez.


Um mero que mora em Looe Key reef desfila com um cortejo de xereletes-azuis.


Key West e o Vandenberg
Nós chegamos em Key West no meio da manhã e paramos no novo Florida Keys Eco-Discovery Center. O centro educacional de última geração oferece uma oportunidade de aprendizado sobre a vida selvagem da região, habitats e esforços de conservação — uma mensagem que queremos que Quinn ouça. Nós começamos aprendendo sobre o Florida Keys National Marine Sanctuary (Satuário Marinho Nacional das Florida Keys, FKNMS na sigla em inglês), que é um dos 14 parques subaquáticos controlados pela National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA). O FKNMS, estabelecido em 1992, abrange cerca de 10.000 km2 desde o sul de Miami até Dry Tortugas (mais 112 quilômetros por mar a partir de Key West). Duas unidades de conservação previamente estabelecidas, o Key Largo National Marine Sanctuary (Santuário Marinho Nacional de Key Largo) e o Looe Key National Marine Sanctuary (Santuário Marinho Nacional de Looe Key) foram englobados pelo maior e mais poderoso FKNMS. [A NOOA é uma agência federal norte-americana voltada para pesquisas científicas sobre o clima, os oceanos e as zonas costeiras, para a divulgação científica e a conservação e o gerenciamento de ecossistemas e recursos marinhos e costeiros.]

Esses dias mergulhando em Key West quase que obrigatoriamente tinham que incluir uma visita ao USS Vandenberg, uma embarcação rastreadora de mísseis de 523 pés que atualmente está afundado com suas torres de 10 andares, apoiado sobre um solo rígido a 42 metros de profundidade, sete milhas ao sul de Key West. Desde que foi afundado como recife artificial em 2009, o imenso navio tem atraído mergulhadores e peixes ás dezenas de milhares. Com sua nova certificação de mergulhador avançado e mergulhando com um instrutor, Quinn pode explorar a superestrutura do navio que se eleva até 15 metros de profundidade. Nossa única preocupação era a correnteza que às vezes varre o Vandenberg com grande força.


Quinn nada sobre um dos dois refletores de radar gigantes no Vandenberg.

A sorte de Quinn continuava. Na manhã em que chegamos ao ponto de mergulho juntamente com um barco cheio de pesquisadores de peixes voluntários do Reef Environmental Education Foundation (Fundação para a Educação Ambiental sobre Recifes, REEF na sigla em inglês) quase nenhuma ondulação agitava o cabo de amarração, e a visibilidade flutuava ao redor de 25 metros. O Vandenberg parecia nunca acabar, mesmo após 20 minutos de navegação entre discos parabólicos de radar a pilhas, pendurais e mastros com ninhos de corvo presos, conseguimos ver apenas metade das atrações. Como um bônus, no dia 4 de Julho, uma imensa bandeira americana de 9 por 12 metros estava presa na antena posterior. Ela normalmente balança com as correntes, mas agora na calma caía como cascata em dobras de vermelho, branco e azul.


Um malabarista oferece diversão noturna no Mallory Square em Key West.
Analisar os observadores de peixes em ação tornou a ideia da identificação de peixes ainda mais atraente. Os pesquisadores, compostos pela equipe, estagiários e voluntários estavam monitorando o Vandenberg como parte de um censo de vários anos da população de peixes. Os voluntários da REEF também estudavam o invasor peixe-leão e agregações reprodutivas. Quinn absorvia tudo.

Nenhuma viagem a Key West teria sido completa sem uma amostra de um pouco da vida noturna, embora parte dela fosse um pouco demais para nosso neto. Quando ele crescer nós sugeriremos que ele venha no Halloween e se divirta na Fantasy Fest, uma festa sem igual. Por enquanto, após jantarmos cedo, perambulamos por Mallory Square e Duval Street onde Key West e Margaritaville se unem em uma das cidades festeiras perenes preferidas no mundo. Mas após um longo dia na água e com dois mergulhos programados para a manhã seguinte, nós voltamos cedo para o hotel para descansar.

A famosa vida noturna de Key West’s se acende em Duval Street.


Uma Aventura em Marathon
Após os mergulhos matutinos, nós arrumamos as malas e dirigimos 80 km de volta em direção ao norte na rodovia para Marathon. Saindo de Key West, a lista de espécies de Quinn estava em 75, graças em grande parte aos pesquisadores de peixes. Quando ele entrou na água em Pillar Patch, próximo à Marathon, ele só pensava em peixe. Com a ajuda de um guia especialista em peixes ele adicionou mais 20 espécies durante os quatro mergulhos seguintes, o que o deixou muito próximo de seu objetivo da viagem, 100.

À tarde voltamos para a água, mas dessa vez dentro de um enorme aquário

Quinn e Anna alimentam peixes no tanque no Marathon’s Florida Keys Aquarium Encounters.
em Florida Keys Aquarium Encounters, o novo parque de aventura de vida marinha de Marathon. É uma grande operação oferecer encontros onde se alimentam os animais e trilhas de mergulho livre, mas o ponto alto para nós foi quando Quinn e Anna entraram no tanque de exposição principal e alimentaram os peixes a partir de vasilhames de plástico. Com o primeiro esguicho a dupla desapareceu atrás de uma nuvem de raias, galos-de-penacho, vermelhos, bodiões-de-pluma e bodiões e budiões. Foi uma diversão!

De volta no recife, na manhã seguinte, Quinn precisava de mais cinco peixes para atingir seu objetivo, então Anna e eu o levamos para o areião para ensina-lo a encontrar peixes que vivem na areia. Não demorou muito para Anna apontar o que se tornou o número 100 — uma lasca de peixe branco fantasma flutuando acima de sua toca. Ela rabiscou "Seminole goby" em sua prancheta com um grande 100 ao lado. Mas os objetivos não acabaram aqui. Ao mostrar um gastrópode para o Quinn eu percebi um pequeno peixe esvoaçando dentro da espiral rosada da concha. Foi minha vez de comemorar: era um Astrapogon stellatus, uma espécie que eu venho pessoalmente procurando há 40 anos.


Um filhote de tartaruga-de-couro resgatado está sendo cuidado no The Turtle Hospital em Marathon.
Depois de uma soneca, nós vestimos chinelos e shorts e fomos para o The Turtle Hospital, um antigo hotel transformado em um hospital e operação de resgate. As principais atrações do local estão em tanques azuis do lado da baia onde os visitantes encontram pacientes em recuperação e ouvem suas histórias. As tartarugas remando ao redor das piscinas transparentes apresentam todos os tipos de problemas — algumas foram atingidas por barcos, outras estavam se recuperando de cirurgias de tumores ou haviam sido encontradas presas a redes. Uma minúscula tartaruga-de-couro, com o saco vitelínico ainda preso, havia sido recentemente resgatada de uma marina ao lado da baia onde havia sido empurrada para a costa. Ela será alimentada até que fique estável, e então levada 50 km para dentro do mar e solta em um Sargassum flutuante. A visita nos faz sentir bem com relação às tartarugas e às pessoas.

Nossa parada seguinte foi em Tavernier, uma pequena comunidade ao sul de Key Largo. Os recifes eram mais próximos da praia lá, e as bordas transbordavam de Haemulidaes e vermelhos. Quinn estava à vontade, relaxado, animado e aproveitando a vida em geral. Para coroar um ótimo dia na água, um peixe-boi do tamanho de uma vaca mascava algas próximo à plataforma de mergulho enquanto descarregávamos o equipamento no pier.

Cocorocas-boca-de-fogo estão aglomeradas sob a borda de um recife próximo a Tavernier.


A Touch of History
O History of Diving Museum (Museu da História do Mergulho) em Islamorada deveria ser um local de peregrinação para todos aqueles que amam mergulhar. Ele certamente foi bem sucedido com Quinn, que experimentou botas de mergulho de 9 kg, manejou uma antiga bomba de ar até estourar um balão, colocou sua cabeça dentro de meia dúzia de capacetes, tentou levantar uma barra de prata recuperada de um galeão espanhol e, durante o processo, aprendeu muito sobre o esporte que ele estava começando a praticar.

A história moderna da exploração submarina começou em 1691

Capacetes de mergulho antigos em exposição no History of Diving Museum (Museu da História do Mergulho) em Islamorada.
quando o astrônomo e erudito inglês Edmond Halley inventou o primeiro capacete de mergulho. Durante os 250 anos seguintes sua ideia do capacete de fluxo contínuo dominou a tecnologia submarina. Essa parte da história do mergulho é contada pela magnífica coleção de capacetes dos fundadores do museu, Joe e Sally Bauer. Os capacetes em exibição na parede internacional são objetos de arte tanto quanto de tecnologia. Mas os capacetes são apenas o começo. Toda curva nos leva a uma nova aventura, desde caça a tesouros até mergulho comercial e continua com o início do mergulho autônomo e fotografia subaquática. Como se pode esperar de um lugar tão encantador, até o Capitão Nemo e sua fantasia de viver sob o mar tem um lugar de honra. Nossa estadia planejada de duas horas se tornou quatro horas, e ainda não estávamos prontos para ir embora.
Um Presente para o Mar
Desde que Quinn havia ouvido falar sobre plantar corais ele estava apaixonado pela ideia. Um jardineiro por mérito próprio e um homem obstinado por vocação, a possibilidade de transplantar corais era bem a sua cara, então Anna e eu marcamos um dia na água com os amigos Ken e Denise Nedimyer, fundadores da Coral Restoration Foundation (Fundação para Restauração dos Corais, CRF na sigla em inglês).

Dez anos atrás a ideia de construir recifes de corais com as mãos soava tão absurda quanto as viagens submarinas do Capitão Nemo. Isso foi antes de Ken, um criador de rochas vivas para o mercado de aquários, começar a cultivar chifres-de-veado, um coral de crescimento rápido que um dia já recobriu os recifes em todo o Caribe. Por diversas razões, a uma vez abundante espécie desapareceu do Atlântico ocidental ao longo das últimas décadas; Ken e outros observaram consternados enquanto os jardins de chifres-de-veado ruíam.

Alguns anos atrás, larvas de coral chifre-de-veado se fixaram em massa no berçário de rochas vivas de Ken. Por lei ninguém pode legalmente vender corais, portanto primeiro Ken simplesmente se manteve atento aos órfãos e os observou crescer e crescer. Por curiosidade ele começou a prender fragmentos deles em blocos de cimento. E eis que os fragmentos cresceram como mato. Ele continuou a inovar até que os corais dominaram o berçário. O que fazer?

A FKNMS sabia do sucesso inicial de Ken e achou que não tinha nada a perder, então eles emitiram uma autorização para que ele transplantasse corais criados em ambiente controlado para o recife externo. Seus recifes prosperaram e a autorização foi estendida e expandida. Então Ken e Denise começaram a pensar. Mas como a maioria das grandes ideias, ela precisou de tempo, dinheiro e trabalho braçal. Trabalho braçal é onde o Quinn entrou. Mergulhadores voluntários têm ajudado a manter o berçário, transplantado pedaços de corais por todas as Keys e recentemente construído novos berçários na Colômbia e em Bonaire. Atualmente, Ken, Denise e a CRF sonham com nada menos do que ressemear toda Bacia Caribenha (veja "A Restauração de Corais se Expande Internacionalmente").


Denise Nedimeyer mostar ao Quinn como propagar corais chifre-de-veado no berçário da Coral Restoration Foundation (Fundação para Restauração dos Corais) próximo a Tavernier.

"Irá funcionar?" eu perguntei ao Ken enquanto seu barco de trabalho de casco aberto navega em direção ao berçário. "Nós somos como Lad Akins e REEF, que estão combatendo a invasão de peixes-leão", ele responde. "Os céticos amam nos lembrar de que estamos perdendo nosso tempo. Eles dizem, "Vocês nunca vão se livrar dos peixes-leão; vocês nunca irão reconstruir recifes, a tarefa é simplesmente grande demais."

Ele elevou a voz um pouco para ser ouvido apesar do barulho do motor. "Eu tenho certeza de uma coisa: Qualquer que seja o resultado, nossos esforços são muito melhores do que não fazer nada."

Navegar no berçário foi como nadar através de uma loja de porcelana. Até onde se podia ver, milhares de fragmentos de corais balançavam como sinos de vento em árvores de PVC sustentadas por boias. Quinn se movimentava através do labirinto como um peixe e flutuava como uma nuvem enquanto limpava as algas da estrutura de plástico. Quando ele terminou, ele se ajoelhou próximo a Denise, observando ela demonstrar como quebrar e amarrar fragmentos de forma que eles ficassem pendurados livremente nas correntes.


Peixe-anjo-azul
Após fixar os fragmentos, Ken e Quinn destacaram quatro pedaços maduros de 30 cm de um ramo, os colocaram em cestas de plástico e voltaram para o barco para uma viagem até Snapper Ledge, onde o trabalho e a diversão continuaram. Levou todo o segundo mergulho para a dupla fixar os pedaços em dois metros quadrados de rocha de recife. Próximo a onde eles trabalhavam um chifre-de-veado saudável de 60 cm de altura previamente plantado vai crescendo na borda. Na minha visão, os corais de Ken são a melhor coisa que essa parte do recife tem no momento. Entretanto, ao norte e através de um longo terreno de escombros fica o ponto de mergulho mais conhecido como Snapper Ledge, abarrotado com nuvens de cocorocas-boca-de-fogo, coro-coros e trilhas. Por alguma razão, esse pedaço discreto apresenta mais peixes do que as estruturas recifais similares próximas e está sendo analisada para ganhar uma maior proteção através da designação de área marinha protegida. Isso é parte da genialidade da FKNMS; existem zonas designadas com graus de proteção muito específicas na esperança de satisfazer as várias partes envolvidas, sejam eles pescadores de anzol, de arpão ou apenas observadores e fotógrafos subaquáticos como nós.

Já sem seu equipamento e cheio de confiança, Quinn pegou o leme e nos levou de volta para a praia. Em meio a todo o trabalho do dia ele adicionou duas últimas espécies de peixe à sua lista — números 125 e 126.

Diante de nossos olhos Quinn se tornou um mergulhador, mas a segunda parte da equação é igualmente gratificante: Ele reconhece que o estranho mundo novo pelo qual ele acabou de se apaixonar precisa da sua ajuda. O mar é nosso presente para Quinn, e Quinn é nosso presente para o mar.
Explore Mais
Veja a galeria de fotos das Florida Keys.

© Alert Diver — 4º Trimestre 2014

Language: EnglishSpanish