Mini Temporada de Pesca de Lagosta

Os médicos e pesquisadores da DAN respondem a suas dúvidas sobre medicina do mergulho.




Q: Eu estou planejando participar da lobster mini season (mini temporada de pesca de lagosta) da Flórida (temporada esportiva) no final de julho, mas parece que todo ano há relatos de mortes de mergulhadores durante esses dois dias. Por quê?

A lobster mini season é um passatempo anual para a comunidade da Flórida, mas relatos de morte de mergulhadores têm causado preocupações. O evento de dois dias é uma oportunidade para mergulhadores esportivos coletarem lagostas antes que os operadores comerciais coloquem armadilhas durante a temporada de pesca normal, que começa uma ou duas semanas mais tarde em 6 de agosto. Em algumas áreas, duas vezes mais lagostas podem ser pescadas legalmente durante a mini temporada do que durante a temporada normal. O curto período de tempo juntamente com o aumento do limite da sacola levou ao surgimento de uma cultura com elementos altamente competitivos. Para muitos participantes, pescar para se alimentar tende a ser secundário. Com início à meia noite em áreas que permitem o mergulho noturno, o evento pode se assemelhar vagamente a uma maratona onde o "vencedor" é o mergulhador com a pesca mais impressionante após 48 horas.

Assim como outros esportes, o mergulho autônomo exige foco, proficiência adquirida através de pratica regular e manutenção de uma boa condição física e saúde geral. Uma grande sensação de competição e adrenalina juntamente com os desafios particulares da pesca podem desviar a atenção dos mergulhadores dos fundamentos de segurança. Antes da participação, é essencial que os mergulhadores sejam proficientes, especialmente considerando-se as complexidades inerentes à pesca. Esse tipo de mergulho é baseado em um objetivo, o que o torna diferente da maioria dos mergulhos recreativos. Manusear equipamentos como varas, laços e bolsas de coleta contribui para um acumulo de tarefas, um aumento de responsabilidades que leva a um maior risco de erro. Além disso, o mergulho noturno é popular em algumas áreas por causa do início à meia noite, e isso, também, exige equipamentos e habilidades especiais. O maior tráfego de barcos é mais uma preocupação para os mergulhadores.

Fatalidades e vários acidentes de mergulho ocorrem em toda mini temporada. Durante a mini temporada de 2014 a linha telefônica para emergências de mergulho da DAN recebeu um grande número de chamadas relatando acidentes que resultaram em barotrauma pulmonar. Por exemplo, um mergulhador recentemente certificado que participava de sua primeira mini temporada reclamou de dor no peito, dor de garganta e falta de ar ao chegar à superfície. Ele foi levado ao pronto socorro local e diagnosticado com pneumomediastino grave (ar nos tecidos ao redor do coração). Embora o mergulhador não conseguisse apontar um evento específico que tivesse levado à lesão, existem várias formas dela ocorrer.

Gás se expande nos alvéolos (sacos de ar) dos pulmões durante a subida. Se o mergulhador prender a respiração (ou tossir ou estiver com soluço) durante a subida, pode ocorrer uma hiperexpansão dos alvéolos, podendo causar pneumotórax (pulmão colabado), pneumomediastino, enfisema subcutâneo (ar sob a pele) ou embolia arterial gasosa (ar nas artérias). Manusear equipamentos adicionais e lagostas pescadas pode criar problemas de controle de flutuabilidade. Para compensar o peso extra, alguns mergulhadores podem prender um volume maior de ar nos pulmões, o que pode aumentar o risco de uma hiperexpansão pulmonar, especialmente na subida.

O espetáculo da mini temporada de pesca de lagosta pode ser intoxicante, mas com alguma preparação os mergulhadores podem minimizar os riscos de acidentes. Ao se preparar para a mini temporada, pense nela como uma maratona: Comece a se preparar bem antes do evento treinando consistentemente, desenvolvendo as técnicas e refinando as habilidades. Prepare-se e planeje-se para situações adversas. Concentre-se no objetivo, mas saiba quando parar se for necessário para evitar acidentes. Sempre haverá mais maratonas para correr e mais mini temporadas de pesca de lagosta para mergulhar.

— Stefanie D. Martina




Q: Se 5,7 litros de água é um volume considerado grande demais para se beber (retirado da Medical Line, 3o trimestre de 2014), qual é a recomendação de vocês? Não dependeria do ambiente e da atividade? Quando eu trabalhei como guia de rio remando no Grand Canyon, nós facilmente bebíamos mais de 3,8 litros de água durante o dia.

Hidratação ideal é um tópico complicado — facilmente discutido na teoria, mas muito difícil de ser precisado em números. A desidratação, frequentemente causada por uma ingestão insuficiente de líquidos (hipohidratação), resultará em um volume reduzido de fluido e um aumento da concentração sanguínea, o que, por sua vez, causa redução da taxa de sudorese, aumento do acúmulo de calor e uma diminuição da pressão venosa central. Finalmente a capacidade cardiovascular, a capacidade de exercício aeróbico e a capacidade de tolerar estresse de calor serão prejudicadas, comprometendo enormemente tanto o desempenho físico quanto o cognitivo.

A ingestão excessiva de líquidos (hiperhidratação), por sua vez, pode diluir o equilíbrio hídrico normal do corpo. Casos extremos podem resultar em hiponatremia, uma condição caracterizada por menores concentrações de sódio no sangue. Os sintomas podem incluir dor de cabeça, náusea, vômito, letargia, consciência prejudicada e, em casos extremos, morte.

A água do corpo é obtida através da ingestão de líquidos, da ingestão de algumas comidas e da produção metabólica. Enquanto os ingredientes de algumas bebidas agem como diuréticos, particularmente a cafeína e o álcool, eles são frequentemente ingeridos juntamente com volumes de líquido grandes o suficiente para que o resultado final seja um aumento efetivo no volume de água no corpo. Embora a ingestão de álcool seja desaconselhada por outras razões, a cerveja — especialmente cervejas com baixo teor alcoólico — tem se mostrado um eficiente agente de reidratação. Bebidas eletrolíticas repõem sais e outros elementos importantes para as funções fisiológicas juntamente com a água, reduzindo a possibilidade de hiponatremia (níveis anormalmente baixos de sódio no corpo) mesmo com grande ingestão de líquidos.

Avaliar o estado de desidratação baseando-se na coloração da urina parece lógico, mas nem sempre é válido. A produção de urina ao longo do dia é muito influenciada por eventos de curta duração. Por exemplo, sentir frio momentaneamente irá causar uma vasoconstrição e uma concentração de sangue na parte central do corpo. Mais sangue na parte central do corpo significa que mais sangue retorna ao coração. O coração responde a esse aumento de volume batendo de forma mais forte e alterando a liberação de hormônios para estimular a eliminação de líquido nos rins. Isso, por sua vez, resulta em uma urina clara independentemente do estado de hidratação subjacente. Da mesma forma, uma urina muito escura não necessariamente significa que uma pessoa esteja desidratada, pois o volume de urina é facilmente sacrificado em prol da manutenção do volume de plasma.

A influência da variabilidade de curto prazo pode ser em grande parte evitada observando-se a primeira amostra de urina após um período de sono completo e confortável. A produção normal de um adulto varia entre cerca de 0,06 a 0,09 L por hora (1 mL por quilo de massa corporal por hora). Baixas taxas de produção indicam um funcionamento inadequado dos rins, possivelmente devido a uma ingestão insuficiente de líquido. A coloração deve ser amarelo pálido, mas tenha em mente que algumas comidas e medicamentos (vendidos com ou sem receita médica) podem afetar a coloração normal. Assumindo que não haja nenhuma interação com comidas ou medicamentos, um amarelo intenso ou mais escuro sugere a necessidade de uma ingestão maior de líquido. Uma urina consistentemente sem cor pode indicar um padrão de hidratação excessiva.

A sede não é um indicador confiável do estado de hidratação de uma pessoa. Beber líquidos regularmente e verificar a primeira urina da manhã provavelmente oferecem uma base melhor. Levando em conta as diferenças de tamanho corporal, padrões de ingestão de líquido e de comida e pressões ambientais entre os indivíduos, é frequentemente inadequado recomendar a ingestão de volumes de líquido arbitrários. No mundo real e para pessoas reais, o volume recomendado poderia variar de muito pouco a demais.

Como uma observação interessante, a frequentemente citada recomendação de ingerir oito copos de 240 mL de água por dia não é baseada em fatos científicos. A recomendação foi adotada como uma simples campanha promocional para a comunidade quando a ingestão inadequada de líquido foi vista como um problema crítico.

Embora não haja uma resposta simples à sua pergunta, as informações acima podem ser aplicadas na prática. Se uma pessoa não tem dores de cabeça frequentes, se sente bem em geral e apresenta uma urina amarelo pálido clara na primeira amostra de urina da manhã, então os padrões atuais de ingestão de fluído podem ser razoáveis. Se a primeira urina da manhã é transparente e a pessoa se sente letárgica ou apresenta outros sintomas que possam estar associados à hiponatremia, reduzir a ingestão de liquido pode ser um teste útil para verificar se a sensação de bem-estar melhora. Uma dieta balanceada irá ajudar a garantir uma base de eletrólitos adequada. Períodos de muito estresse hídrico, como exercitar-se em condições quentes e úmidas, podem ser resolvidos com uma combinação de água e bebidas eletrolíticas, mas saiba que a quantidade de calorias presente na maioria das bebidas eletrolíticas pode ser maior do que o necessário. Mais importante, qualquer preocupação concreta deve ser discutida com um profissional da área médica.

— Neal W. Pollock, Ph.D.

© Alert Diver — 2º Trimestre 2015

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