Manguezais e Angiospermas Marinhas




Raízes–escora de um mangue-vermelho fornecem apoio para a árvore e habitat para organismos marinhos.

Recifes de corais são sem dúvida fascinantes, e para muitos mergulhadores explorar o mundo subaquático significa ir para mar aberto. Mas no caminho para o recife você pode estar passando por (e sobre) habitats marinhos surpreendentes. As florestas de mangue e as pradarias de angiospermas marinhas são ambientes interessantes para se visitar fazendo mergulho livre, e eles são essenciais para a saúde dos recifes marinhos.

Uma das melhores coisas da prática do mergulho livre nos manguezais e pradarias de angiospermas marinhas é a paz destes ambientes costeiros. Muitos habitantes destes ambientes são mestres da camuflagem. É fácil aproveitar um mergulho em um recife de corais sem ter que procurar com muito esforço, mas se você quiser avistar aquele cavalo marinho, com seu rabo enrolado em uma folha de fanerógama marinha balançando lentamente para frente e para trás na corrente, ou o platelminto rastejando sobre uma raiz do manguezal em direção ao urocordado que será seu lanche, você precisará ficar imóvel e olhar com atenção. Simplesmente flutue de barriga para baixo e observe. Estude as folhas das angiospermas marinhas, e aproxime-se das raízes dos manguezais — sua beleza pode ser muito surpreendente. Lembre-se de que as menores criaturas podem ser as mais bonitas ou as mais interessantes de se observar. Porém um dia você pode se virar e encontrar um grande peixe boi olhando para você.
O Que é Tão Especial em um Monte de Angiospermas Marinhas?

Transitar de barco descuidadamente sobre leitos rasos de angiospermas marinhas cria cicatrizes de hélice visíveis que demoram anos para desaparecerem.

As angiospermas marinhas dominam as águas marinhas costeiras. Elas são encontradas em todo o mundo — desde regiões polares até os trópicos — em todos os continentes, menos na Antarctica. Esta dominância se deve, em parte, à habilidade das angiospermas marinhas de se reproduzirem tanto assexuadamente, através de crescimento vegetativo, como sexuadamente. As folhas das angiospermas marinhas crescem a partir de um caule horizontal chamado de rizoma, que fica enterrado na areia ou lama. Conforme o rizoma cresce, brotos emergem verticalmente. É assim que as angiospermas marinhas ocupam pequenas áreas que depois se desenvolvem em pradarias grandes e continuas.

A maioria das angiospermas marinhas se reproduz através de polinização enquanto submersas e completam todo seu ciclo de vida debaixo da água. Ervas marinhas produzem flores, frutas e sementes em um mundo subaquático salgado; a polinização é, portanto, bem diferente do que a que ocorre em plantas terrestres. A Thalassia testudinum (turtle grass em inglês), por exemplo, produz frutos flutuantes que boiam na superfície antes de se abrirem e liberarem sementes que caem no fundo. As sementes apresentam filamentos grudentos nas raízes que ajudam a ancorar os brotos no sedimento.


Sarah Egner conduz uma pesquisa sobre os organismos bentônicos de um leito de angiospermas marinhas.

As angiospermas marinhas, apesar de também serem chamadas de gramas marinhas, não são gramas verdadeiras; elas são, na verdade, parentes próximas das ninféias. Seu nome é apenas resultado da semelhança de suas folhas com gramas terrestres. As gramas marinhas são plantas vasculares fotossintetizantes verdadeiras: angiospermas, especificamente — plantas que produzem flores. As flores, normalmente pequenas e brancas, podem ser vistas próximas à base das folhas. Veja se você consegue encontrar uma da próxima vez em que você estiver se divertindo em um mergulho livre entre angiospermas marinhas.
Os Manguezais não são Apenas Pântanos infestados de Mosquitos?

Colhereiros-americanos se alimentam balançando seus bicos em forma de colher para frente e para trás na água para encontrar pequenos invertebrados, peixes e crustáceos.

Ok, então gramas marinhas não são gramas, e elas conquistaram o domínio das águas costeiras. E os manguezais? Embora mosquitos realmente vivam entre manguezais, estas arvores são muito mais do que apenas lares para os insetos. Os mangues, que são plantas lenhosas, são muito mais seletivos sobre o local onde vão fincar raízes do que as angiospermas marinhas. As florestas de mangue crescem em latitudes tropicais e subtropicais na interface entre terra e mar em baias, estuários, lagunas, águas estagnadas e rios influenciados pela maré. Cerca de dois terços da linha de costa de áreas tropicais do mundo são compostas por mangues.

Os manguezais são reconhecidos principalmente por seus densos emaranhados de raízes-escora que fazem com que as arvores pareçam estar sobre pernas de pau acima da agua. As raízes aéreas permitem que as árvores lidem com a subida e descida diária da maré; a maioria dos manguezais ficam alagados pelo menos duas vezes ao dia. Os mangues não precisam de água salgada para sobreviver, mas são únicos em sua tolerância aos ambientes salinos. Assim como as angiospermas marinhas, os mangues se utilizam de uma série de adaptações singulares para atingirem esta tolerância.

As inconfundíveis raízes aéreas não apenas dão estabilidade às árvores, como também permitem a utilização do oxigênio atmosférico pelos mangues, o que é importante, pois a maioria dos sedimentos sobre os quais as árvores vivem são anaeróbios. Se você olhar uma raiz de perto, você perceberá pequenas estruturas, que são chamadas de lenticelas. É através delas que as trocas gasosas ocorrem.

Outras adaptações ao ambiente salino incluem mecanismos fisiológicos que permitem à árvore excretar sal. Algumas folhas ficam cobertas de cristais de sal visíveis conforme a árvore elimina o sal; se você não conseguir ver o sal, pode conseguir prová-lo (experimente!). Existem também adaptações reprodutivas. A maioria das árvores do manguezal são vivíparas, o que significa que liberam para o ambiente indivíduos jovens. Os indivíduos jovens germinam presos à árvore mãe — na forma de propágulos — e não germinam externamente a partir de sementes. As flutuações das marés distribuem estes propágulos flutuantes uma vez que eles caem na água.
Conectados aos Recifes de Corais

Alguns peixes grandes, como a raia-prego, podem ser vistos visitando os leitos de angiospermas marinhas à procura de alimento.

A água azul brilhante que você vê nos recifes se deve, em parte, aos manguezais e angiospermas marinhas. Estes ambientes costeiros melhoram a qualidade da água nos recifes. Os corais dependem de água transparente e com poucos nutrientes. A fonte da maior parte dos nutrientes e sedimentos é a terra firme; quando os rios e córregos desaguam no oceano, a água tende a ficar rica em nutrientes como nitrogênio e fosforo e é, geralmente, muito túrbida, o que significa que contem sedimentos em suspensão.

Os sedimentos na coluna de água reduzem a penetração da luz e podem se depositar, sufocando colônias de corais e prejudicando a alimentação dos corais. As folhas das angiospermas marinhas e as raízes dos mangues diminuem a velocidade do fluxo de água, fazendo com que o material em suspensão se deposite no fundo. Consequentemente, a água que passa por esses habitats no caminho para os recifes apresenta uma baixa turbidez.

Geralmente a água sobre recifes de corais é pobre em nitrogênio e fosforo dissolvidos. Quando os níveis de nutrientes estão muito altos em um recife, o fitoplâncton e as algas marinhas de crescimento rápido podem excluir competitivamente e/ou sufocar corais e eliminar locais para fixação de larvas de corais. Angiospermas marinhas e mangues são sumidouros de nutrientes, tamponando a entrada de nutrientes e substancias químicas no ambiente marinho. Microorganismos que vivem entre as angiospermas marinhas e mangueis reciclam estes nutrientes de volta para o ecossistema marinho.

Muitos dos animais que você observa quando mergulha em recifes de corais passam os estágios iniciais de suas vidas escondidos entre folhas de angiospermas marinhas e raízes de mangues. Estes habitats costeiros funcionam como berçários, oferecendo comida e um abrigo seguro dos predadores do recife. Juvenis de tainhas, percas, whiting, enchovas, bream, peixes da família Lutjanidae e peixes-anjo-imperador, todos vivem entre leitos de angiospermas marinhas e mangues. Quando estes peixes crescem e se tornam maiores e mais fortes, eles seguem seu rumo para o mar aberto.
Ecossistemas Vitais

Um juvenil de barracuda do tamanho de um charuto aproveita a proteção da floresta de mangue.
Os recifes de corais não são os únicos beneficiários destes habitats costeiros. Angiospermas marinhas e manguezais oferecem muitas vantagens para o ecossistema marinho tropical como um todo. Todos os organismos precisam comer, e há muitos herbívoros que utilizam as folhas de angiospermas marinhas como comida. Eles incluem tanto vertebrados quanto invertebrados; e até mesmo residentes do recife de corais utilizam estes habitats costeiros como local de alimentação. Enquanto as folhas do mangue estão nas árvores elas são alimento para insetos, mas assim que elas caem na água, muitos herbívoros marinhos, como moluscos e caranguejos, se alimentam delas.

Estes herbívoros são consumidores primários, que por sua vez sustentam uma série de consumidores secundários, que incluem pequenos peixes e juvenis de predadores como as barracudas. Quando estes juvenis crescem, eles se tornam consumidores terciários. Grandes predadores como as garças, os biguás, os tubarões, as percas-gigantes, os salmões e os crocodilos também são atraídos às pradarias de gramas marinhas pelos cardumes de peixes que buscam abrigo ali.

Mesmo folhas mortas de mangues e angiospermas marinhas são importantes para todo o ecossistema, pois elas fornecem a base para a teia trófica dos detritos. Bactérias, fungos e outros microrganismos colonizam e decompõe o material vegetal morto, criando os detritos, uma fonte de alimento rica em proteínas consumida por minhocas, organismos microscópicos, nematoides e crustáceos. Pequenos peixes se alimentam destes detritívoros (assim como de detritos), e estes peixes se tornam presas de peixes maiores, aves e outros animais.


Vieiras de olhos azuis podem parecer sésseis, mas elas podem se mover usando propulsão a jato quando ameaçadas.
Recifes próximos ao litoral protegem a costa de ventos e ondas e ajudam a prevenir erosões. Da mesma forma, florestas de mangue estabilizam a linha costeira, limitando a erosão causada por ondas de tempestade, correntes, ondas e marés. Angiospermas marinhas também são importantes na estabilização de litorais com seus vastos sistemas de raízes e rizomas.

Conforme os manguezais estabilizam o sedimento, ilhas podem eventualmente se formar. Uma ilha de mangue se torna um habitat para um grupo de plantas e animais completamente diferentes daqueles que normalmente habitariam a área. Muitos pássaros — como cabeças-secas, garças, Íbis, colhereiros-americanos, biguás e pelicanos — fazem seus ninhos e empoleiram-se em mangues. As ilhas de mangue também são o lar de uma ampla variedade de repteis, anfíbios e mamíferos. Os manguezais Sundarban entre a Índia e Bangladesh — a maior floresta de mangue da Terra — são o lar de tigres-de-bengala, chitais, crocodilos de água salgada, gatos-pescadores e várias espécies de golfinhos.

Habitats costeiros saudáveis também são muito importantes para mitigar as mudanças climáticas globais. Manguezais e angiospermas marinhas absorvem grandes quantidades de dióxido de carbono — um dos gases do efeito estufa — da atmosfera e as armazenam. Estes habitats, conhecidos como sumidouros de carbono, contém grandes quantidades armazenadas de carbono acumuladas por centenas de milhares de anos. Quando estes ambientes são danificados ou destruídos, não apenas sua capacidade de sequestro de carbono é perdida, como também o carbono armazenado é liberado, o que contribui para o aumento dos níveis de gases do efeito estufa na atmosfera.
Veja por Você Mesmo

Andar de caiaque nos mangues é uma oportunidade de observar pássaros, peixes e peixes-boi tranquilamente.
Todos esses benefícios parecem muito legais, mas por que eu iria querer trocar o meu mergulho no recife por um mergulho livre em meio às angiospermas marinhas ou mangues? Pradarias de gramas marinhas e florestas de mangue são lugares incríveis para se observar todos os tipos de vida marinha, desde minúsculos nudibrânquios até grandes peixes-boi. Os substratos fornecidos por angiospermas marinhas e raízes de mangues são importantes para organismos sésseis como esponjas, urocordados, ostras e anêmonas-do-mar. Mesmo organismos imóveis podem ser deslumbrantes; esponjas crescendo nas raízes de mangues acrescentam cores maravilhosas ao habitat.


Os peixes-boi respiram na superfície através de narinas que apresentam válvulas que se fecham quando eles estão submersos.
Estes ambientes são o lar de organismos que você provavelmente não irá encontrar nos recifes. Estas criaturas incluem invertebrados como límulos, estrelas-do-mar, nudibrânquios, platelmintos, lesmas-do-mar e ofiuroides; peixes como os tarpões e cavalos-marinhos; mamíferos como os golfinhos ou peixes-boi. Algumas espécies protegidas como os Dugongos (Dugong dugon) e a tartaruga-verde (Chelonia mydas) se alimentam principalmente de angiospermas marinhas. Uma tartaruga-verde adulta come cerca de 2,5 kg de grama marinha por dia, enquanto um dugongo adulto come cerca de 30 a 45 kg por dia.

Manguezais são tampões de vento naturais; use isto a seu favor escolhendo um local para mergulhar a sotavento de uma floresta de mangues. A visibilidade pode ser próxima de zero em mares agitados a barlavento de uma ilha de mangue, enquanto o lado contrário àquele de onde sopra o vento é perfeitamente limpo e calmo. Leitos de angiospermas marinhas frequentemente são encontrados adjacentes a ilhas de mangue, portanto você pode observar os dois ambientes em uma única visita. O fundo pode ter bastante sedimento e ele pode ser levantado facilmente quando está ventando, mas normalmente ele se deposita bem rápido. Quase sempre você pode encontrar um ambiente calmo e com boa visibilidade para mergulhar, mas não espere a visibilidade e a água azul transparente encontrada nos recifes. Os taninos dos mangues frequentemente tingem as aguas ao redor, deixando-as com uma cor avermelhada ou amarronzada.
Tome Cuidado

Uma garça-azul- grande (branca) é uma das muitas aves aquáticas que dependem das ilhas de mangue para refúgio.

Praticar o mergulho livre em meio a angiospermas marinhas e raízes de mangues é bem diferente de praticar o mergulho livre em recifes de corais. Mas assim como em recifes, manguezais e angiospermas marinhas são ambientes frágeis que devem ser visitados com cuidado.

Não fique de pé quando estiver mergulhando em manguezais ou leitos de angiospermas marinhas, e tenha cuidado onde bate o pé. Se você tiver apenas nadadeiras grandes, dispense-as e mergulhe sem nadadeiras (você não deve precisar delas; correntes são mínimas ou inexistentes). Não apena o sedimento é facilmente levantado, como também organismos frágeis e /ou perigosos como águas-vivas e raias vivem no ou próximo ao fundo, e células urticantes tendem a se depositar no sedimento. Pisar repetidamente sobre as folhas de angiospermas marinhas pode mata-las.

Evite tocar nos habitantes, para seu benefício assim como para o da vida marinha. Organismos imóveis se protegem de maneiras sutis. Esponjas, por exemplo, parecem inofensivas mas apresentam toxinas, assim como defesas físicas na forma de espículas.

Tenha cuidado, pois como os mangues e angiospermas marinhas agem como filtros, eles infelizmente tendem a coletar lixo humano. Se você resolver coletar lixo para descartá-lo, observe atentamente antes. Uma garrafa, um pote ou lata de alumínio pode ser o lar de um peixe ou um polvo.

Em algumas regiões tropicais e subtropicais, derrubar mangues é ilegal, mesmo que eles estejam em seu quintal. Ao transitar de barco, esteja atento à profundidade — não apenas para proteger seu motor, mas para a saúde da grama marinha também.
Entrelaçados

Os peixes-boi preferem viver próximos à costa, onde há angiosperma marinha suficiente para comer.

Os recifes de corais/manguezais/pradarias de angiospermas marinha são ecossistemas que podem ser pensados como um todo. Algumas espécies, como a caranha, utilizam os três durante seu ciclo de vida. Cada um destes habitats é dependente dos outros; se um deles é danificado, os outros também serão afetados. Para preservar um destes habitats, deve-se proteger todos os três.

Se você é o tipo de mergulhador que vê mais do que apenas os tubarões, tartarugas e raias quando está em um recife de coral, você irá realmente se divertir fazendo mergulho livre entre angiospermas marinhas e mangues. Mesmo que você não goste destes ambientes de início, você irá se beneficiar deles indiretamente da próxima vez que fizer um mergulho incrível em um recife. Habitats de angiospermas marinhas, mangues e recifes de corais são interconectados. Se quisermos preservar nossos recifes de coral, devemos apreciar e proteger estes habitats costeiros.
Referências
Kruczynski WL and Fletcher PJ (eds.). Tropical Connections: South Florida's marine environment. (Cambridge, Md.: IAN Press, University of Maryland Center for Environmental Science, 2012).

McKenzie L. Seagrass Educators Handbook. (Cairns, Australia: Seagrass-Watch HQ, February 2008). Available at: www.seagrasswatch.org/education.
Sobre a autora
Sarah Egner é diretora de pesquisa e desenvolvimento da Marine Resources Development Foundation.

© Alert Diver — 2º Trimestre 2014

Language: EnglishSpanish