Kelp Paddies

Ilhas de vida à deriva em mar aberto


Gaivotas se empoleiram em um kelp à deriva próximo à Ilha de Santa Barbara durante o El Niño de 2015.


Eu estava em um pequeno barco a cerca de 30 milhas da costa de San Diego, na Califórnia, procurando por vida. Estávamos navegando a 20 nós quando de canto de olho eu vi uma pequena mancha marrom contrastando com o imenso azul de fundo. Era um pouco de kelp do tamanho de uma tampa de lata de lixo. Eu me dirigi à mancha e imediatamente vi um imenso espirro de água e uma albacora-de-laje nervosa fazendo pequenos círculos ao redor do kelp. Aqui estava uma imagem que eu queria havia anos: uma albacora em um kelp paddy (massas de kelp emaranhadas flutuando à deriva).

Quando entrei na água eu vi o que causou aquele grande espirro de água quando um imenso marlin-azul de 200-230 kg se materializou do nada. A ficha caiu imediatamente, e eu sabia por que o grande marlim estava lá – o marlim listrado, mais comum, não se alimenta de albacoras de 9-13 kg.

Aquele dia eu consegui imagens do marlim azul e da albacora (veja a edição da Alert Diver, Inverno 2015). Essas foram provavelmente as primeiras fotos subaquáticas de um marlim azul tiradas em águas da Califórnia. Foi um dos dois ou três melhores dias que eu já tive em 35 anos mergulhando em kelp paddies.

Isso aconteceu no outono de 2014, que foi o início de uma série de anos quentes que incluíram o poderoso El Niño de 2015. Os eventos de aquecimento de 2014, 2015 e 2016 trouxeram para as costas da Califórnia espécies de água quente provenientes do sul que haviam sido raramente vistas em muitos anos, e todas elas foram observadas ao redor de kelp paddies.
O que é um Kelp Paddy?
Procurar por assuntos para fotografar no grande vazio azul do mar aberto pode ser frustrante. Sinais de vida são efêmeros. Os sutis espirros de água causados por mamíferos marinhos ou pássaros estão entre os poucos sinais que indicam a possibilidade de vida.

Assim

Um golfinho-de-laterais-brancas-do-pacífico observa um kelp paddy no
“nine-mile bank,” a 10 milhas da costa de San Diego, Califórnia.
como a costa Atlântica, que apresenta seu próprio habitat de alga à deriva (Sargassum), a costa Pacífica da América do Norte tem kelp à deriva. O kelp gigante (Macrocystis) cresce desde o Alasca até a Baja Califórnia. Kelp paddies se formam quando os rizoides que fixam o kelp se enfraquecem e se soltam após tempestades, eventos de aquecimento ou predação por ouriços-do-mar. Quando a planta de 25m de comprimento se solta e se afasta ela se embaraça em outros kelps. Levadas à superfície por vesículas de gás (penumatocistos), essas massas flutuantes são então empurradas para o mar pelos ventos e correntes. Um kelp paddy de tamanho médio pode ser do tamanho de uma banheira, mas eles podem ter mais de 15 metros de diâmetro com rizóides pendurados a 12 metros de profundidade. Kelp paddies podem ser encontrados em qualquer época do ano com localizações variando desde apenas cerca de uma milha de distância da costa até centenas de milhas para dentro do mar. A maioria dos kelp paddies boiando na costa da Califórnia se originaram nos leitos de kelp gigante nas Ilhas do Canal ou em outro lugar da Costa Oeste.

Melhor descritas como "ilhas de vida à deriva", kelp paddies oferecem um refúgio para os peixes e invertebrados plantônicos que inicialmente se fixam no habitat pré-fabricado. Pequenos peixes e invertebrados atraem cardumes de peixes como sardinhas e cavalas. Predadores maiores como atuns, marlins, tubarões e mamíferos marinhos completam a cadeia alimentar conforme eles chegam para se alimentar dos peixes. Toda a gama de grandes predadores pelágicos encontrados na costa do Pacífico pode ser vista próximo aos kelp paddies. Quando os grandes predadores aparecem, peixes juvenis podem se recolher dentro da proteção da massa de plantas emaranhadas.

A coleção de animais encontrados em associação com o kelp à deriva na costa do Pacífico não pode ser encontrada em nenhum outro lugar do mundo. Por exemplo, os estágios juvenis do splitnose rockfish (Sebastes diploproa) só foram observados sob kelp à deriva. A forma adulta deste peixe é encontrada em águas muito profundas, entre 215 e 450 metros de profundidade. O kelp à deriva também pode ser um importante habitat para os estágios juvenis do olho-de-boi, , halfmoon e outras espécies. Cientistas marinhos coletando amostras de kelp paddies encontraram mais de 25 espécies diferentes de peixes entre os kelp paddies, com a maioria das espécies sendo representada totalmente por juvenis.

Você nunca sabe o que vai ver sob o kelp; as populações variam de ano para ano e de área para área. Uma área de água a 18OC pode ter um grupo de animais completamente diferente de uma área de água a 22 OC a apenas 5 milhas de distância. É isso que torna os kelp paddies tão interessantes.

Os recentes anos quentes trouxeram tubarões-martelo-liso, marlins-azul, bluefin tuna, falsas orcas e muitas outras espécies que eram raras em anos anteriores. Até o verão de 2014, por exemplo, nunca havia sido documentado a presença de cavala-wahoo em águas da Califórnia, mas no forte El Niño de 2015, mais de 1.000 cavalas-wahoo foram pescadas em águas da Califórnia por pescadores esportivos.
Mola Mola
Kelp paddies são com certeza os melhores lugares para encontrar Mola mola. Os peixe-lua, que vem para o kelp à deriva para serem limpos pelos halfmoon fish, são repletos de parasitas, tanto externamente quanto internamente. Nós vimos um peixe-lua que estava particularmente tranquilo com a presença de mergulhadores e conseguimos retirar copépodos parasitas que estavam profundamente encravados em sua pele. O peixe na verdade pareceu ficar satisfeito com o encontro.


Kelp paddies são ótimos locais para se encontrar peixes-lua (Mola mola).


Não é incomum ver até três peixes-lua em um kelp à deriva. Meu recorde pessoal de alguns anos atrás foi 50 peixes-lua em um único kelp paddy. Eles ficam normalmente desconfiados com fotógrafos que se aproximam na superfície ou a partir do fundo. Um mergulhador em uma roupa preta parece um leão marinho para o peixe-lua. Eu já vi leões marinhos destruírem peixes-lua, portanto é importante se aproximar devagar e não agressivamente. Alguns peixes-lua podem não se importar muito com um mergulhador se aproximando, mas o mais comum é que eles nadem para longe.
Mergulhando em Kelp Paddies

Mergulhar em kelp paddies pode ser muito recompensador; você nunca
sabe o que irá encontrar.
O melhor é mergulhar em kelp paddies a partir de um barco não fundeado, com um piloto permanecendo à bordo. Amarrar-se ao kelp normalmente o separa, e ancorar ou prender-se a uma boia é impossível devido à profundidade da água (normalmente entre 300 e 900 metros). Fique atento, pois pescadores que procuram peixes pelágicos também procuram os kelp paddies. Eu já vi algumas vezes pescadores jogarem iscas no kelp à deriva com mergulhadores na água.

Por esta razão, a embarcação deve ostentar uma bandeira de mergulho, e o piloto do barco deve monitorar cuidadosamente o local do kelp e os mergulhadores o tempo todo. Também é melhor ficar com o barco contra o vento em relação aos mergulhadores. O tempo pode mudar rapidamente, e uma embarcação que fique à favor do vento e perca o motor pode se transformar em um perigo para um mergulhador que tenha que nadar para alcançar a embarcação que desaparece rapidamente. Com apenas uma pequena mancha marrom em um imenso fundo azul como referência é fácil para o piloto do barco perder um kelp paddy de vista. Levando isso em conta, os mergulhadores devem carregar consigo marcadores de superfície, apitos, lanternas e algum tipo de indicador de posição via satélite (EPIRB).

Nos últimos anos equipes filmaram a história dos kelp paddy para a IMAX, BBC, National Geographic e Silverback Films. Meu projeto de filmagem de um kelp paddy mais memorável foi um no qual Howard Hall coordenou nossa equipe subaquática de cinco homens para posicionar uma câmera IMAX 3-D de 635 kg com cable lights para filmar com sucesso vários peixes-lua em uma estação de limpeza. Encontrar e explorar kelp paddies demora algum tempo e demanda certo esforço, mas vale a pena ver o que está sob eles.

© Alert Diver — 4º Trimestre 2016

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