Inesperadamente Sem Cores

Uma mudança na paleta e na abordagem


Folhagens, talos e vesículas de gás de um kelp gigante juntos constroem uma linda alga que segue os movimentos das ondas. Quase nunca para de se movimentar ou de buscar a luz da superfície. (1/40 sec @ f/16, ISO 400, estrobos)


A fotografia significa uma coisa para cada pessoa. É uma maneira de capturar um momento ou registrar uma memória. Ela pode ser funcional ou artística. As pessoas tiram fotografias para dar a uma cena uma perspectiva literal ou como um meio de traduzir um conceito abstrato em sentimento.

As razões pelas quais eu tiro fotografias mudaram ao longo do tempo, e minha abordagem ao longo dos anos mudou conforme meu conhecimento técnico se desenvolvia. Alguns anos atrás algo aconteceu comigo inesperadamente: eu fiquei completamente entediado com a fotografia colorida. Eu cansei dela. Eu sei que é estranho ficar enfastiado com uma paleta inteira, mas aconteceu assim mesmo. Desta forma eu tenho tirado fotografias preto-e-branco quase que exclusivamente nos últimos anos, e eu estou amando. Eu conversei com amigos fotógrafos, li artigos, e escrevi bastante para tentar entender; Eu eventualmente percebi que minha razão subjacente para tirar fotografias mudou. A narrativa que eu desejava para o meu trabalho mudou. Meus temas não mudaram, mas a maneira como eu olho para eles, ilumino-os e os trabalho no Adobe Lightroom mudou.
O Objetivo da Experiência e do Sentimento
Assim como todo fotógrafo tenta fazer, eu espero criar imagens que sejam atraentes e que provoquem uma reflexão. Eu quero criar fotos que fiquem com as pessoas, e eu acredito que a melhor maneira de conseguir isso não é simplesmente apresentando uma imagem de um peixe legal, mas criando um sentimento a respeito daquele peixe. Meu objetivo é criar um trabalho que não apenas mostre uma coisa, mas ao invés disso provoque uma sensação, um estado de espírito ou um sentimento ou deixe uma impressão com relação àquela coisa. Dizendo de uma outra maneira, eu quero imagens que traduzam uma experiência, não que sejam apenas um visual literal.

Quando eu tiro uma fotografia colorida, as imagens tendem a ser sobre as cores, pelo menos até um certo ponto. As cores têm que funcionar para serem parte da foto – elas tem que arrebatar e contrastar, e nós fotógrafos tendemos a querer saturá-las, enfatizá-las e mostrá-las de uma maneira espetacular. Muito pouco do que eu vejo e vivencio no oceano, entretanto, tem a ver com as cores. Por exemplo, uma das minhas coisas favoritas de encontrar no oceano é um cardume gigante de peixes. Eu fico extasiado quando vejo centenas ou milhares de peixes se movendo juntos rítmica e cooperativamente através da água. Tem qualquer coisa de melódico nisso; parece um organismo exibindo uma coreografia que nenhum animal solitário poderia apresentar. Muito do que há no oceano me dá essa sensação de muitas coisas juntas convivendo harmoniosamente, o que é uma experiência que não tem nada a ver com cores.
A Prática da Experiência e do Sentimento
A visualização é a prática de formar uma imagem mental de uma fotografia finalizada antes dela ser até mesmo composta. É uma maneira extremamente útil para os fotógrafos conceitualizarem o que eles estão tentando fazer.

Quando

Garibaldis são conhecidos por sua vibrante cor de laranja, mas a sua silhueta
contra a luz solar da tarde na Ilha Catalina é tão cativante quanto.
(1/400 sec @ f/22, ISO 80, sem estrobos)
visualizo imagens em preto-e-branco durante um mergulho, meu estado de espirito é bem diferente do que se eu estivesse visualizando em cores. Ao remover as cores dos meus pensamentos, eu mantenho as coisas que são mais próximas ao que eu estou vivenciando. Eu começo a olhar para configurações e formas, luz e tonalidade, padrões e texturas, detalhes e contornos. Ao remover as cores eu consigo escapar da ideia de querer tirar uma fotografia do peixe e busco o conceito de capturar minha experiência do peixe.

Visualizar em preto e branco também altera minha abordagem técnica. Como e por que eu ilumino as coisas passa de preocupações com o backscatter e a posição dos estrobos, para a estética. Se o meu objetivo é enfatizar uma forma, eu sei que devo iluminá-la por trás. Se eu quero criar uma textura, eu sei que devo utilizar uma iluminação lateral. Eu posso desenfatizar formas e achatar um tema ou cena utilizando uma iluminação frontal. Qualquer que seja o caso, eu conecto mais elementos com preto e branco porque minha mente está em sintonia com todas as coisas que eu vivencio com um cardume de peixes e que não tem nada a ver com cores. Seguem-se alguns poucos exercícios que podem ajudar você a aperfeiçoar sua visão pessoal em preto e branco.

Tente usar a granulação ou um ruído como um elemento estético. Você provavelmente precisará aumentar o ISO para capturar uma cena sem flash, mas não tenha medo, já que a presença de ruído pode ser esteticamente agradável. Na verdade, no painel Efects do módulo Develop do software Lightroom, há um controle Grain que permite que você adicione granulação às suas imagens. Aumente aquele ISO, mergulhe naqueles tons monocromáticos naturais ao seu redor, e brinque. Câmeras modernas são bem mais eficientes em baixa iluminação de qualquer forma, portanto aumentar os valores de ISO não deve necessariamente intimidar você.

Considere o fundo como tão importante quanto seu modelo principal. Quando as cores são removidas você deve depender de outros meios para distinguir o modelo do fundo. Para começar, tente encontrar e incorporar fundos simples, limpos e descomplicados que contenham configurações sólidas de branco, cinza ou preto. Ou use gradações simples de escuro para claro, mas assegure-se de que seu modelo esteja posicionado na frente de um tom de fundo do qual ele possa ser claramente distinguido.


Simplifique seu equipamento, deixe seus estrobos em casa. Este conjunto de imagens foi feito apenas com a luz ambiente. Um estrobo não teria adicionado muito, além de um reflexo.


Técnicas para Processamento de Imagens
Se você é um usuário do Lightroom, a conversão para preto e branco é fácil. Embora exista mais de uma maneira de transformar sua imagem em preto e branco no Lightroom, eu sugiro ir direto para o painel B&W no modulo Develop. Apenas clique em B&W, e sua imagem está convertida. O truque está em estilizar o que você capturou. Aqui estão alguns estilos para tentar com seu trabalho monocromático.


Figura 1

High-key e low-key. Uma imagem high-key apresenta inerentemente tons claros, enquanto uma imagem low-key apresenta tons escuros. Com muitas imagens azuis subaquáticas, criar esses estilos pode ser feito com uma simples movimentação do mouse. Na Figura 1, observe o pequeno ícone no quadrante superior esquerdo do painel. Ele é chamado de Targeted Adjustment Tool (TAT), e se você clicar sobre ele, seu cursor se transforma em uma mira. Com essa mira você pode clicar e arrastar seu mouse para qualquer cor em sua imagem que você queira ajustar. Clique e arraste para cima para obter um efeito, e arraste para baixo para o outro.

Para criar uma imagem high-key, clique e arraste seu mouse para cima. Observe que, enquanto faz isso, o ajuste Azul no painel B&W se move para a direita, e todos os tons azuis são iluminados, como mostra a Figura 2. Para criar o efeito oposto, ou uma imagem low-key, você deve clicar e arrastar o mouse para baixo. Note que é raro uma imagem funcionar tanto como high-key ou como low-key. Normalmente elas funcionam como um ou outro, experimente para ver com qual funciona. Movimentando o ajuste Azul para a esquerda ou para a direita será, provavelmente, o primeiro passo de uma série de passos para revelar a imagem final.


Figura 2

Começando pela imagem mais à esquerda, temos o arquivo original em cores, seguido por uma imagem em preto e branco sem modificações. A terceira imagem é com o ajuste Blue para a esquerda, escurecendo os azuis, e a quarta imagem é com o ajuste para a direita, iluminando os azuis.

Color toning. Além do visual puramente preto e branco, você também pode ajustar a tonalidade. Para ajustar a tonalidade de suas imagens preto e branco, utilize o painel Split Toning. Este painel tem três seções, como mostra a Figura 3. Você pode controlar a matiz e a saturação de suas áreas iluminadas e sombreadas, ou apenas ajustar o equilíbrio em favor de uma ou de outra. Minha preferência pessoal é por imagens de tonalidade quente, com um ar de sépia. Eu gosto desta tonalidade em especial para imprimir, a Figura 4 mostra três opções de tonalidade que você pode utilizar nos seus trabalhos. A primeira imagem é com uma tonalidade quente, a segunda fria, e a terceira meio a meio.


Figura 3

Para criar uma tonalidade quente, eu sugiro colocar o valor 35 no ajuste Hue em Highlights and Shadows, e depois movimentar o ajuste Saturation para a direita, até gostar do resultado. Sinta-se à vontade para ajustar o Hue em qualquer direção para um ajuste fino, eu acho 35 um bom valor para uma tonalidade quente. Obter uma tonalidade fria é bastante similar; comece com o ajuste de Hue em 220. Para um meio a meio, tente ficar entre os dois valores, mas brinque e experimente. Você também pode colocar os Highlights a 220 e Shadows a 35, ou vice-versa. Não importa em que direção decida ir, o ajuste de tonalidade pode ajustar a sensação ou estilo que você procura.


Figura 4: A primeira imagem do lado esquerdo tem uma tonalidade quente, a do meio uma tonalidade fria, e a terceira imagem áreas iluminadas quentes e áreas sombreadas frias.

Veja as minhas sugestões como um ponto de partida para um processo que vai te levar ao encontro de um estilo fotográfico que só você pode descobrir. Não importa se você simplifica seu equipamento ao mergulhar sem estrobos, se foca em fundos simples, ou se muda o seu enfoque de criaturas para padrões, formas, texturas, tons e atmosferas, o truque para encontrar o que você gosta é continuar a experimentar e se divertir com sua fotografia.
Saiba mais
Veja Jason Bradley discutindo Processing Underwater Photos neste vídeo.



© Alert Diver — 4º Trimestre 2016

Language: EnglishSpanish