Fotografia do Invisível




Em qualquer ambiente marinho saudável existe uma multidão de criaturas, como esse peixe-sapo, que frequentemente não são percebidos, principalmente devido a sua história evolucionária.

Qualquer um que examine copias da Alert Diver reconhece que existe muito mais do que podemos ver na minucia de um recife de coral, uma floresta de fanerógamas marinhas, naufrágio ou encosta de areia escura. A ampla varredura da natureza submersa em 360 graus tende a ser abarrotada de uma quase inacreditável variedade de nichos e vida, sempre surpreendendo aqueles que procuram os mistérios abaixo da linha da água.

Enquanto imagens em grande angular do cenário submarino tendem a ser deslumbrantes, elas nunca contam a história inteira de um habitat. Escondido entre os recessos escuros e as sombras, ou até mesmo em plena vista mas praticamente impossível de ser visto, está um enorme número de criaturas que tem papeis importantes nas cadeias alimentares mas evoluíram para desaparecer visualmente de seus ambientes.

Os mares estão transbordando de criaturas usando truques visuais inteligentes para enganar outras criaturas em um jogo duro de vida ou morte.

A falsa isca de um peixe-sapo rajado é uma característica distinta que acrescenta um valor de história natural a essa imagem.
Com o tempo, a seleção natural levou a incríveis exemplos de padrões de camuflagem, padrões que iludem, pedaços de disfarces e mimetismos enganosos. Em muitos casos a captura de imagens nos permite puxar as cortinas para revelar a incrível criatividade dos escondidos.

Como gerar imagens estéticas de criaturas eficientemente escondidas é um dos eternos dilemas que os fotógrafos subaquáticos enfrentam. Existem muitas maneiras (e opiniões sobre como) de fotografar a vida marinha camuflada; este artigo tem a intenção de oferecer ideias fotográficas objetivas, técnicas e insights sobre alguns desses métodos. Como sempre, absorva o que puder do que você lê e dos conselhos de outros fotógrafos, e use sua própria criatividade para se desenvolver.
Faça sua Lição de Casa

Esse caranguejo decorador só poderia ser fotografado de cima para baixo devido ao local onde ele estava escondido.
Mergulhar é um jeito fácil de explorar um mundo diferente; para investigar e fotografar esse mundo proveitosamente, avalie o tipo de habitat no qual você vai entrar antes de vestir seu equipamento de mergulho. Quando seu objetivo é fotografar organismos que podem passar desapercebidos, conhecer um pouco sobre o que esperar no ambiente local pode melhorar sua capacidade de encontra-los. Pesquise quais criaturas existem na área, e aprenda quais delas são comuns e quais são raras. Determine quais são nichos ou micro-habitats pelos quais as criaturas têm afinidade.

Animais que se camuflam são de todas as formas e tamanhos, portanto você terá que decidir se irá fotografar com lentes macro ou grande-angular. Outros equipamentos que devem ser considerados incluem difusores, flashes escravos externos e adaptadores de lentes. Conhecer tanto o habitat quanto a variedade da vida marinha esperada irá sem dúvida aumentar a produtividade de sua produção de imagens.
Foco

Esses roughsnout ghost pipefish macho e fêmea ficaram parados por apenas alguns segundos.
Eu sou partidário de manter os seus objetivos fotográficos relativamente simples e se manter focado neles. Diversificar demais debaixo da água — tentar fotografar tudo o que você vê — é a melhor maneira de acumular um monte de imagens medíocres; seus objetivos fotográficos devem ser mais nobres do que apenas conseguir uma série de fotos comuns.

Você avalia o habitat, começa o mergulho e nada calmamente sobre o fundo do mar, seus olhos varrendo a paisagem marinha para encontrar qualquer coisa que se destaque — você usa imagens de busca assim como inúmeros predadores dos quais as presas que se camuflam evoluíram para fugir ao longo de milhões de anos. (Os predadores desenvolvem uma imagem de busca baseada em pistas sobre as presas que eles encontram mais frequentemente, geralmente passando sem perceber por tipos raros de presas). Você espia olhos, um padrão ou o contorno de algo indistinto entre o recife recoberto, e a adrenalina entra em suas veias, acelerando o seu pulso. A emoção da caçada e da oportunidade que você tem nas mãos está em você. Esse é um instante no qual decisões fotográficas críticas são tomadas. Como você irá retratar um animal que é, para todos os efeitos práticos, praticamente invisível?
Destaque o seu Modelo

Animais como esse stargazer (peixe da família Uranoscopidae) — assim como os linguados ou peixes-dragão — não apresentam muitas opções para diferentes ângulos fotográficos já que eles ficam achatados em fundos arenosos.
Se você deve separar seu modelo do plano de fundo ou incorporar o ambiente (e assim destacar a habilidade do animal de se misturar) é um dos primeiros dilemas a serem resolvidos. Embora seja frequentemente difícil se situar entre a cobertura do fundo e a topografia, fotografar o modelo a partir de baixo irá ajudar a destacar o animal do fundo. Fotografar de um angulo superior, por outro lado, irá trazer o fundo imediatamente adjacente para a imagem. Tente ambas as abordagens já que você nunca sabe até depois de processar qual configuração irá atingir a melhor taxa de aprovação da audiência.
Ilumine
Um equipamento básico e fácil de construir que todos os fotógrafos devem ter em seu arsenal de equipamento é um snoot. Um snoot afunila a luz de seu(s) estrobo(s); é basicamente o yang do difusor yin. Como um foco controlado, um snoot pode separar o modelo do fundo confuso ou desordenado onde ele está, independentemente do ponto de onde se observa o modelo.

Ao compor uma imagem, incluindo o habitat natural da criatura, como o sargaço flutuantes desse peixe-sargaço, oferece uma ideia de quão complexa a camuflagem pode ser.


Para destacar a textura de uma minucia da criatura, como o detalhe de um peixe-escorpião, você pode escolher usar a "iluminação monstro". Esse método de iluminação, raramente usado, irá enfatizar características elevadas e criar sombras escuras atrás de qualquer topografia do modelo, dando à imagem um ar assustador. Coloque um estrobo na frente do modelo mas em angulo extremamente de baixo para cima em direção ao modelo. Desligue o outro estrobo. (O efeito é o mesmo de quando você segura uma lanterna sob seu queixo para contar histórias de fantasmas). Só funciona com modelos com perfis irregulares. Uma iluminação estilo Rembrandt, na qual um estrobo angulado é forte enquanto outro estrobo é usado para luz de preenchimento, também é eficiente na criação de sombras dramáticas e destaques da vida marinha. Experimente usar estrobos em diferentes configurações, e trabalhe com eles no modo manual.

Iluminação lateral, com estrobos apontados em ângulos retos (ou próximos a isso) em direção às lentes, irá facilitar a captura de uma superfície escamosa, filamentosa ou ondulada de um modelo. Se você quiser caprichar, especialmente com criaturas que têm filamentos, dobras de pele ou contornos distintos, a luz contrária é um poderoso, embora algumas vezes difícil, método de criar imagens memoráveis. Luz contrária exige uma fonte de luz atrás do modelo apontada diretamente para as lentes. É preciso paciência, mas a luz contrária pode produzir imagens premiadas porque ela oferece perspectivas incomuns de criaturas camufladas.
Atraia o Olhar

Esse caranguejo de coral mole se misturaria aos seus pólipos de corais hospedeiros se não fosse por uma grande abertura que criou uma área mínima de foco.
Algumas das imagens macro mais chamativas de animais marinhos disfarçados são fotografadas usando-se uma pequena profundidade de campo. Ao abrir a abertura (para f/5.6, f/4 ou maior), você limitará a nitidez da imagem final enquanto acentua aspectos críticos do modelo (como os olhos de um linguado, um rinóforo de nudibrânquio ou um dente de peixe-lagarto) enquanto tira a ênfase do primeiro plano e do fundo. Outro método valioso de produzir uma imagem memorável de uma pequena criatura escondida é oferecer uma escala incorporando um coral ou pólipo próximos ou um aspecto familiar do ambiente — sem usar um objeto introduzido como uma moeda ou um dedo.
Mostre Movimento

Usar uma velocidade baixa de obturador cria um fundo mais leve ou mais azul, dando uma sensação diferente para essa imagem de um cavalo-marinho pigmeu.
Capturar o movimento ou comportamento de criaturas camufladas exige grande paciência, mas pode ser altamente recompensador. Uma imagem de um bocejo de um peixe-sapo ou um movimento pulsante de um linguado achatado dá aos espectadores uma ideia de um momento raramente visto na vida do animal. Enquanto espera que um peixe ou invertebrado faça alguma coisa — qualquer coisa — tenha certeza de ter os olhos dele em foco. Movimento é difícil de fotografar, portanto use espaço negativo para dar ao animal espaço para se mover em sua composição. Tente prever o que irá acontecer (alimentação ou reprodução, por exemplo).
Grande ou Pequeno
Enquanto a maioria dos fotógrafos se concentra em criaturas marinhas camufladas de menor porte, precisando de lentes macro como uma 60mm ou 100mm, muitos animais por aí — como tubarão-tapete, Sepia latimanus adulta, peixe-sapo-gigante e grande polvos — exigem lentes grande angulares ou olho-de-peixe. Embora você possa usar lentes completamente diferentes para fotografa-los, como uma olho-de-peixe, as mesmas técnicas usadas para criaturas disfarçadas menores ainda se aplicam.


Um denso cardume de varredores-dourados acrescenta cor a essa cena focada em um tubarão-tapete que é, não fosse isso, inteiro em tons de terra.
Eu espero que esse artigo te dê algumas novas ideias ou lembre você de um método que você já conheça. Transforme em um hábito tentar usar uma variedade de diferentes técnicas fotográficas, especialmente com criaturas que tão frequentemente passam desapercebidas. Planeje seus mergulhos de acordo com o tipo de iluminação que você estará usando, mas tente permanecer flexível. Como todo mergulhador sabe, a mãe natureza é caprichosa. Tire fotos de ângulos incomuns, use iluminação incomum para destacar características incomuns, e utilize diferentes velocidades do obturador e aberturas. Mas principalmente, lembre-se de admirar o que você está testemunhando — a mãe natureza em sua forma mais criativa. Muitas adaptações maravilhosas, incluindo misturas, padrões, disfarces e mimetismos, são especialmente comuns debaixo da água porque predadores aquáticos evoluíram para usar imagens de busca altamente eficientes. Lembre-se de que a evolução está sempre em ação, aperfeiçoando as espécies dentro de seus habitats; conforme os predadores se tornam melhores no que eles fazem, eles removem presas que não estão tão bem adaptadas ao ambiente.


A fotografia close-focus grande angular de criaturas camufladas, como dessa Rhinopias spp., confere um olhar inovador às imagens subaquáticas.

Portanto lembre-se de se surpreender com a aparente infinita variedade de formas que a vida toma. Não é nada fácil jogar luz em animais crípticos, camuflados e criar ótimas imagens. Mas por alguma razão, nós mergulhadores somos atraídos por buscar e fotografar essas criaturas, que podem ser mais grotescas ou enganosas em aparência do que lindas ou graciosas. Se as razões para essa atração são relacionadas a emoções de privilegio ou admiração ou baseadas no desejo de se maravilhar com as adaptações da natureza moldadas ao longo do tempo e sob pressão, a fotografia do invisível é um desafio e um teste de sua criatividade fotográfica. Também é apenas uma boa e velha diversão.
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© Alert Diver — 3º Trimestre 2014

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