Mergulhando na História de Florida Keys

Voluntários contribuem para uma grande descoberta arqueológica




No outono passado, quatro mergulhadores voluntários ajudaram o Florida Keys National Marine Sanctuary a resolver o mistério de um naufrágio não identificado, do início do sec. XX, próximo a de Key Largo. Trabalhando junto com dois experientes arqueólogos marinhos da National Oceanic and Atmospheric Administration, NOAA, os voluntários da National Association of Black Scuba Divers, NABS, ajudaram a mapear um navio de 315 pés conhecido como "Naufrágio do Mike", nome dado em homenagem a um empregado de uma loja de mergulho local. A pesquisa submarina em Elbow Reef, a seis milhas de Key Largo, confirmou o que os cientistas já suspeitavam após uma extensa pesquisa histórica em terra.

"Nós identificamos o naufrágio do Mike: é o vapor Hannah M. Bell" disse Matthew Lawrence, pesquisador principal deste projeto e arqueólogo marinho afiliado ao Stellwagen Bank National Marine Sanctuary em Massachussetts. A confirmação da identidade do navio dá importância a este naufrágio, que era considerado apenas um coadjuvante para aqueles naufrágios mais conhecidos da região, o City of Washington e o USS Arkansas. "Estes projetos nos conectam com a nossa história", disse Lawrence. "O Hannah M. Bell é uma conecção tangível, algo que você pode realmente ver".

O vapor construído em aço no Reino Unido ia para o México com uma carga de carvão vinda de Newport News, na Virginia, quando afundou por causa de uma tempestade em 4 de Abril de 1911. Uma embarcação federal evacuou a maioria da tripulação enquanto o capitão e alguns outros ficaram para ajudar a equipe de salvatagem, conhecida localmente como wreckers. A equipe determinou que o navio não poderia ser reflutuado, e desistiu três dias depois. Antes que os donos do vapor pudessem iniciar um esforço de salvatagem próprio, a embarcação quebrou em pedaços devido ao mal tempo.

Lawrence disse que o próximo passo é documentar melhor a área assim como tentar uma possível nomeação para o National Register of Historic Places. Brenda Altmeier, coordenadora de herança histórica marítima do Florida Keys National Marine Sanctuary, observou que os mergulhos realizados em meados de setembro foram os primeiros mapeamentos detalhados realizados pela NOAA neste naufrágio, que está a 8 metros de profundidade, e que o mal tempo limitou a possibilidade de dias de mergulhos para apenas três.

Isso significou que Lawrence Altmeier e quatro mergulhadores da NABS, moradores da região de Washington, Ernie Franklin, Jay Haigler, Kamau Sadiki e Paul Washington conseguiram cobrir apenas 21 metros da enorme área. Os mergulhadores da NABS pretendem retornar ao naufrágio este ano para criar um mapa completo da área, que seria oferecido ao santuário e colocado a disposição do público.
Mergulhando com um propósito

The Hannah M. Bell
Os quatro mergulhadores da NABS são certificados pela NOAA em mergulho científico. O processo de certificação é rigoroso, com exames médicos, acadêmicos e de habilidades. O Office of National Marine Sanctuaries conta com apenas 23 mergulhadores voluntários em todo o país. A equipe da NABS também recebeu treinamento da Nautical Archaeology Society nos métodos de mapeamento e documentação de naufrágios. "Eles se esforçaram para obter o treinamento necessário para nos ajudar com este trabalho," disse Lawrence. "É dispendioso colocar um grupo de pessoas em campo. A boa vontade que eles tiveram ao doar as suas excelentes habilidades e tempo realmente impulsionaram a nossa missão."

Os mergulhadores voluntários que participaram do projeto Hannah M. Bell são membros do programa da NABS Diving with a Purpose, que foi fundado pelo membro de Nashville, Ken Stewart, depois de conversas com o arqueólogo do Biscayne National Park sobre a necessidade de ajuda na busca pelo navio de escravos Guerrero. Stewart disse que pensou sobre o assunto, ligou para alguns amigos e perguntou: "Não estão cansados dos mesmos mergulhinhos de sempre? Vamos mergulhar com um propósito". Desde então, Diving with a Purpose (DWP) documentou dez naufrágios e contribuiu com mais de 8.500 horas dedicadas à arqueologia marítima. O programa proporcionou um intensivo programa de treinamento para 75 mergulhadores, e a lista de seus membros inclui seis mergulhadores certificados pela NOAA em mergulho científico, seis mergulhadores certificados pelo National Park Service e duas dúzias certificados pela Nautical Archaeology Society.

"Um bom mergulhador está sempre aprendendo, e este é o nosso mesmo conceito - só que agora ele é mais focado, e uma coisa se encaixa na outra", disse Haigler, instrutor chefe da DWP. A fundação NABS, fundada recentemente pelo grupo, vai permitir a busca de financiamentos para futuros projetos de história marítima. Enquanto isso, Stewart disse que a versão juvenil da DWP planeja enviar 19 estudantes do ensino médio e universitário para mergulhar no Biscayne National Park neste verão.

O interesse de Lawrence pelo Naufrágio do Mike teve início em 2009, quando ele estava mergulhando no famoso City of Washington com um grupo de mergulhadores NABS que estavam praticando suas recém adquiridas habilidades de arqueologia náutica. "É engraçado que este ponto seja chamado de Naufrágio do Mike, porque é obvio que podemos descobrir seu verdadeiro nome", pensou Lawrence enquanto vistoriava o grande naufrágio situado a 90 metros do City of Washington. Na verdade, enquanto muitos naufrágios mais antigos da região possuem poucos fragmentos úteis, o Naufrágio do Mike apresenta um número considerável.

Apesar de ter sofrido com anos de intempéries e com a tentativa de salvatagem, Lawrence disse que o Hannah M. Bell ainda é uma visão impressionante embaixo da água, com porções do casco com quase 5 metros de altura, enormes vigas do convés e placas do casco elevando-se do fundo do mar.

"Quando mergulhei pela primeira vez nele, fiquei maravilhado" disse Lawrence."Ele possui mais material do que o City of Washington. Isso faz com que seja um ponto muito interessante para se mergulhar."

Quando voltou para casa, ele começou a pesquisar os dados históricos, procurando por navios que tivessem naufragado em Elbow Reef ou próximo a ele. O enorme vapor de aço Hannah M. Bell, que afundou em 1911, não estava listado como tendo naufragado em Elbow, mas parecia ser uma alternativa provável.
Mais trabalho a ser feito
Altmeier já trabalhou com mergulhadores da NABS em outros projetos, incluindo mergulhos no que é possivelmente o naufrágio do Guerrero, que afundou em 1827 enquanto era perseguido pelo navio de guerra britânico Nimble, que patrulhava a costa da Flórida com o objetivo de impor a proibição ao tráfico de escravos. Em 2010 e 2012 mergulhadores da NABS mapearam o segundo de três possíveis locais para o naufrágio do Guerrero, e planejam retornar ao sul da Florida para investigar — e potencialmente excluir — um terceiro local na região de Carysfort Reef nas Upper Keys.

Ao contrário do Bell, que é um naufrágio facilmente identificável, Altmeier disse que o provável local do Guerrero está desmantelado, o que significa que os artefatos estão espalhados sobre uma grande área. "Não há nada definitivo, e pode nunca haver," disse ela. Entretanto durante os mergulhos de mapeamento, a equipe da NABS identificou artefatos condizentes com o período do naufrágio.

Haigler explicou os passos da equipe embaixo da água: Mapear toda a área para estabelecer os seus limites. Decidir como orientar as linhas de base, que corre por toda extensão do naufrágio. Estabelecer estações equidistantes ao longo da linha de base. Colocar marcadores ao lado de artefatos ou pontos de interesse.

A seguir é realizada a triangulação, que usa "três pontos para localizar um ponto de interesse com relação à linha de base, linha esta que é colocada no que determinamos como sendo o meio do naufrágio", disse Haigler. Depois os membros da equipe desenham cada ponto de interesse. "É neste momento que as coisas se tornam desafiadoras", disse Haigler. "Você está levitando, você está observando, você está medindo e você está desenhando debaixo da água" — tudo enquanto mantém uma flutuabilidade perfeita para não danificar o ambiente ou levantar sedimentos.

"A maior parte do que fazemos é coletar dados que vão ajudar os arqueologistas a determinar o que está ali," disse Washington. Com a ajuda de desenho assistido por computador e da expertise de Gayle Patrick, membro da NABS e arquiteto, ao longo de semanas os dados coletados se transformam em um mapa igual ao que o grupo fez no que se acredita ser o local do Guerrero.

O trabalho dos mergulhadores da NABS no Guerrero foi mostrado em um recente episódio da série "Changing Seas" apresentado pelo canal de TV WPBT de Miami, e estará disponível online em www.changingseas.tv. O episódio "Sunken Stories" segue os mergulhadores enquanto eles aprendem a mapear e quando voltam a mergulhar em busca do Guerrero.
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© Alert Diver — 1º Trimestre 2013
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