“Estale”




Uma foto panorâmica retrata a baia cênica em frente a Soufrière, St. Lucia.

Estale. Isso era o que estava entalhado no chaveiro de madeira que me foi dado quando fiz o check in no resort na minha primeira parada em minha mais recente aventura de mergulho em St. Lucia. Mais tarde eu descobri que é uma palavra crioula que significa "relaxe". Era um conselho apropriado não apenas para o estado de espírito que eu deveria adotar mas também com relação às incertezas que eu tinha sobre o estado dos recifes da ilha. Eu logo descobriria que o mundo subaquático de St. Lucia é de uma grande beleza.

Eu já conhecia St. Lucia, mas por alguma razão eu não havia estado ali recentemente. Diferentes lugares e prioridades haviam me mantido ocupado em outras coisas. Eu não tenho certeza de quando foi a última vez em que estive lá, mas eu sei que não tirava fotos digitais ainda, e eu fiz a transição em 2001. Portanto, lá estava eu, em um destino caribenho que eu não havia visitado em provavelmente uma década e meia, e aqueles anos haviam sido duros para alguns dos recifes de corais do Caribe.

O mais recente desafio para os ecossistemas de recifes de corais da região veio na forma do invasor peixe-leão, o predador voraz com taxas reprodutivas alarmantes e sem inimigos naturais. Muitas nações caribenhas controlaram o problema em pontos de mergulho importantes através da coleta dos animais, mas isso exige que muitos mergulhadores gastem muito tempo na água caçando peixes-leões. Uma vez que a coleta começa, os peixes-leões que sobrevivem se tornam mais espertos e mais reclusos quando confrontados por caçadores, portanto, um controle consistente do peixe-leão nos locais de recife caribenhos demanda muito tempo e trabalho. Eu tinha medo de que St. Lucia pudesse não ter os recursos para controlar o problema, então antes de viajar eu previ ver muitos peixes-leões nos recifes. Ainda bem que eu estava errado.



Minha outra preocupação preconcebida era a de que as algas pudessem ter começado a afetar a saúde dos recifes desde a última vez em que mergulhei na ilha. Quando as algas recobrem um recife, corais jovens não podem se fixar no substrato, e os corais vivos são sufocados. A presença de algas é normalmente o resultado direto de atividades humanas: se nutrientes demais são jogados no oceano a partir de fossas sépticas ou devido a um tratamento inadequado do esgoto, o resultado inevitável é o crescimento de algas. Mas até mesmo nesses casos o oceano possui meios de manter as coisas equilibradas. Entre esses meios estão organismos como os ouriços-do-mar de espinhos longos (Diadema antillarum), que se alimentam das algas.

Infelizmente, em grande parte do Caribe e das Keys da Florida, houve uma grande mortalidade desses ouriços em 1983 (veja www.alertdiver.com/Diadema). Acredita-se que um patógeno transmitido pela água tenha causado essa mortalidade; mas, qualquer que seja a razão, a morte dos ouriços foi seguida de aumentos dramáticos nas populações de algas que eles mantinham sob controle.


Sarampinho nada entre os espinhos de um ouriço-do-mar de espinhos longos.

Nos recifes de St. Lucia em 2014 eu fiquei satisfeito em ver muitos ouriços-do-mar de espinhos longos e recifes que estavam impressionantemente sem algas. Eu até vi um crescimento recente de coral-chifre-de-alce (Acropora palmata) num local que é provavelmente um dos recifes mais visitados de St. Lucia para se fazer mergulho livre (próximo à Anse Chastanet). Isso não pode acontecer sem uma água de boa qualidade, e também não pode acontecer sem operadores de mergulho que se importem o suficiente com o recife para recomendar aos seus clientes que evitem contato com o coral. Pode parecer uma coisa pequena, mas observar recifes tão vibrantes e livres de algas foi realmente inspirador para mim.

Logo eu comecei a notar que havia inúmeros pedaços de um quadro pontilhista que ilustravam um coral abundante e saudável em St. Lucia. Nuvens de donzelinhas marrons e peixes da família Pomacetridae estavam presentes na maioria dos mergulhos. Alguns especialistas acreditam que matar peixes-leões adultos nunca irá controlar as populações de peixe-leão, mas que grandes populações de pequenos peixes consumindo os ovos dos peixes-leões irão mantê-los sob controle. Essa teoria da "parede de bocas" sugere que peixes da subfamília Anthiinae e outros pequenos peixes que existem em enxames sobre os recifes do Indo-Pacífico mantem os peixes-leões em harmonia com o resto do ecossistema ali. Peixes pequenos desse tipo não são comuns na maior parte do Caribe, mas em St. Lucia eles aparentemente são. Causa e efeito? Seria necessário muito mais do que as observações casuais de um fotografo subaquático para estabelecer uma validade empírica, mas havia muitos peixes pequenos e não havia muitos peixes-leões nos recifes em que eu mergulhei. Alguém (com dados consistentes) terá que nos dizer o por quê.
A Área de Gerenciamento Marinho Soufrière

Um bacalhau juvenil
A qualidade do meio ambiente marinho aqui também deve muito às contribuições da área de gerenciamento marinho Soufrière (Soufrière Marine Management Area — SMMA na sigla em inglês). Eu me lembro claramente de mergulhar em Anse Chastanet no final dos anos 1980s antes do estabelecimento da SMMA, e até mesmo no adorável coral do resort eu vi armadilhas para peixes jogadas no coral e redes de pesca segurando esquilos-caqui e roncadores em um abraço mortal. Estar lá para fotografar a beleza do recife e dividir esse tesouro com pescadores tradicionais cujo trabalho diário era remover aquela beleza para alimentar suas famílias foi para mim uma experiência conflitante.

Sem a interferência governamental, os grupos usuários provavelmente teriam continuado em conflito. Os mergulhadores e pescadores estavam inevitavelmente em lados opostos: Um queria observar o que o outro queria extrair. Embarcações de lazer que visitavam a ilha também se envolviam. Elas estavam jogando suas ancoras sobre os corais delicados, o que deixava furiosos tanto os mergulhadores quanto os pescadores, que tinham o acesso à suas redes atrapalhado. Tudo isso era complicado pelo fato de que o melhor mergulho está concentrado em uma pequena área ao redor das bases dos icônicos Pitons e em algumas poucas baias relativamente próximas.

No final, os três grupos de usuários conversaram entre si em reuniões durante 18 meses, e em 1994 a SMMA foi estabelecida. Ela compreende apenas 11,3 km de linha de costa, mas protege o melhor do mergulho na região. Bóias de amarração foram colocadas no local para evitar danos causados pelas âncoras, com o efeito colateral de espalhar e limitar a pressão dos mergulhadores. Em retrospecto, e do ponto de vista de alguém que mergulhou em St. Lucia tanto antes quanto depois do decreto da SMMA, ela é um vistoso exemplo de uma conservação marinha proativa que resultou em enormes dividendos positivos para a indústria do turismo na ilha. Eu não conheço muitos lugares no mundo onde você pode dizer que o mergulho agora é melhor do que era há 15 anos atrás, mas essa foi minha percepção de St. Lucia, e é devido em grande parte às inteligentes práticas de conservação.
A Experiência de Mergulho em St. Lucia
Férias de mergulho em St. Lucia devem ser consideradas no contexto da ilha como um todo, tanto na superfície quando debaixo da água, e embora a Alert Diver tenda a se concentrar em experiências subaquáticas e não em opiniões sobre de barcos ou hotéis, eu seria negligente em não destacar que apenas algumas propriedades estão particularmente bem posicionadas para oferecer uma ótima experiência de mergulho. São resorts que investiram significativamente na infraestrutura de barcos, compressores e equipe e estão geograficamente situados de forma a oferecer curtos trajetos de barco até os melhores pontos. Eu consegui ficar em três dos melhores destes resorts em minha curta estadia em St. Lucia: Jade Mountain, Anse Chastanet e Ti Kaye.


Uma massagem no Resort Ti Kaye
Eu vou deixar que você faça sua pesquisa e decida qual dos resorts é melhor para você. Todos eles operam de maneira segura e profissional e possuem instalações de mergulho na praia e barcos estáveis e ergonômicos. Eles também oferecem a bem-vinda comodidade de possuírem guarda-volumes para os equipamentos dos hospedes na praia. Isso é importante porque St. Lucia é uma ilha muito vertical, com os quartos de hotel normalmente situados nos morros para aproveitarem a brisa fresca, e com os barcos, é claro, saindo de píers nas praias. Carregar o equipamento de mergulho para cima e para baixo entre o barco e os quartos seria um transtorno que os operadores não querem que os hospedes tenham; isso certamente não estaria de acordo com o estado de espírito estale. Embora cada um desses resorts também ofereça serviços de spa exemplares, de forma que os nós nos ombros doloridos dos mergulhadores poderiam ser aliviados em uma sessão de massagem à tarde (e talvez com um pouco de um dos vinhos de suas extraordinárias adegas).

Eu não consegui visitar todos os sites de mergulho disponíveis no pouco tempo que eu tive, mas os seguintes pontos são representativos do que há de melhor.
Fairyland
Fairyland é uma extensão do recife do resort em Anse Chastanet. Entretanto, ele está exposto a um maior fluxo de corrente do que a parte do recife voltada para a praia, assim as esponjas e outras decorações do recife são muito mais coloridas e abundantes. Me lembrou do melhor das Ilhas Virgens; grandes pedaços de granito estavam cheios de esponjas amarelo vibrantes e vermelhas. Esponjas em forma de barris gigantes, as xestospongia muta, são mais uma evidência da corrente, que deve correr no local de vez em quando. Eu vivenciei não mais do que um fluxo leve em todos os meus mergulhos, mas isso pode ter sido uma anormalidade; a abundância de filtradores sugere que a corrente deve ser bem forte de vem em quando. As profundidades variam de 18 metros no declive de fora a cerca de 5 metros próximo à praia. Embora você possa chegar ao ponto de mergulho através de um longo nado a partir da praia em Anse Chastanet, as correntes fazem com que o mergulho embarcado seja mais apropriado para esse ponto.
O Naufrágio do Lesleen M

Jem Lorde mergulhando no naufrágio Lesleen M

O Lesleen M era um navio de carga de 165 pés que foi afundado intencionalmente pelo Departamento de Pesca em outubro de 1986 para ser um recife artificial. O naufrágio está perfeitamente de pé com a proa a 9 metros de profundidade, e é aí que o cabo de amarração é preso. Há um molinete na proa e um monte de esponjas amarelas fotogênicas decoram a parte da frente do navio. Entretanto, na popa é que a decoração de esponjas é maior. No meio do navio há uma estrutura de guindaste coberta de gorgônias que, juntamente com o motor e a quilha aos 20 metros, são imperdíveis em qualquer exploração do local.

A parte da popa, que inclui a casa do leme e as escadas, é um caleidoscópio absoluto de cores hoje em dia. Peixes fogueira e da família Priacanthidae se escondem em cantos escuros, e enquanto os peixes-anjo não são particularmente abundantes em outros lugares nos recifes de St. Lucia, eles são comuns nesse local. Como o naufrágio não é realmente adequado para grandes grupos de mergulhadores, os operadores de turismo podem visita-lo apenas em certos dias da semana. Isso é uma coisa boa, já que a visibilidade na parte da popa pode ser dramaticamente diminuída por sedimento levantado por mergulhadores. Se você conseguir chegar às escadas ao estibordo da popa com um bom controle de flutuabilidade e uma água clara, você terá um dos melhores enquadramentos grande angulares que você pode encontrar em qualquer naufrágio em qualquer lugar. Mas fotografe logo — os demônios da retrodifusão invadem a coluna de água rapidamente.

Os Pitons refletidos na água em Jade Mountain.


Anse La Raye
Enquanto a maioria dos pontos de mergulho ao longo da base do Pitons são declives suaves, Anse La Raye é mais como um mergulho em paredão. Começando no raso existe uma rede de corais de fogo e esponjas, e ao longo da face vertical há muitas esponjas e uma boa chance de ver cardumes de xaréus e de preguiçosas-brancas.
Pinnacles
Eu nunca tinha visitado Pinnacles antes, mas agora, tendo ido a esse ponto, é improvável que eu volte à St. Lucia e não o inclua em minha lista de atividades. Existem quatro montes submarinos separados aqui. No primeiro eu vi uma devastação de corais-dedo feita por marés bravos, mas fora esse pequeno desvio natural do imaculado, cada um desses pináculos parece mais colorido e magnifico do que o anterior. A grande densidade de esponjas recobrindo os contornos das rochas é impressionante, e com os picos se elevando a 5 metros de profundidade, há tempo suficiente para explorar completamente todos os quatro em um mergulho de 60 minutos. Ao flutuar no raso fazendo minha parada de segurança, pensei sobre a brilhante rocha branca — pontuada por uma ocasional colônia de esponjas — que forma o cone superior do monte submarino. Então me ocorreu a razão pela qual a formação chamava a minha atenção: não é comum ver rochas tão brancas. Inspecionando mais de perto eu vi dúzias de Diadema se alimentando na área, mantendo-a livre de algas e acessível ao recrutamento de esponjas e corais.
Superman’s Flight

Uma esponja-vaso-azul domina o campo de filtradores decorando o recife em Superman’s Flight.
Com o nome do breve segmento do filme Super-Homem II de 1980, no qual o homem de aço voa sobre o vizinho Gros Piton em um esplendor de glória cinematográfica, o nome do ponto de mergulho vem não apenas da proximidade com o Piton, mas também da probabilidade de encontrar uma forte corrente. Corais-dedo perfeitamente intactos confirmam o bom controle de flutuabilidade dos mergulhadores respeitosos assim como a alimentação constante pelo fluxo das correntes. A população de esponjas-vaso-azul aqui é especialmente impressionante, embora existam muitas orelhas-de-elefante-laranja, esponjas-barril e várias nuanças de outras esponjas que somam à diversidade. Também há grandes cardumes de donzelas-marrons e outros organismos de recifes tropicais adaptados a se alimentar entre os buracos dos corais como os peixes-borboleta e peixes-papagaio. Bacalhaus juvenis e até mesmo cavalos-marinhos estão lá para aqueles que renunciam as grandes vistas e examinam as minucias do recife.
Lado de cima
Acima da água St. Lucia é uma ilha particularmente bonita; um jardim botânico, uma cachoeira e lama borbulhante de um vulcão em atividade são todos atrativos de fácil acesso em um tour de três horas a partir da região de Soufrière. Com vistas cênicas de Piton e do mar azul caribenho, St. Lucia é um excelente destino para casamentos, e os resorts estão particularmente bem adaptados para acomodar esses dias muito especiais.

O aeroporto internacional fica no extremo sul da ilha, 60 a 90 minutos de carro a partir do coração da região de mergulho. No extremo norte da ilha fica a capital, Castries, que é onde fica o porto dos navios de cruzeiros e alguns grandes resorts all-inclusive, incluindo o Sandals. Eles também oferecem mergulho, e os barcos normalmente visitam os mesmos pontos mencionados anteriormente, mas as navegações até os pontos serão mais longas.
Como Mergulhar Lá
Localização: St. Lucia está situada no leste do Caribe e é banhada pelo Atlântico Tropical à leste e pelo Mar do Caribe à oeste. Parte das Ilhas de Barlavento, o grupo de ilhas ao sul das Pequenas Antilhas nas Índias Ocidentais, St. Lucia fica ao norte de São Vicente e das Granadinas, a noroeste de Barbados e ao sul da Martinica.

Condições: Os pontos mais populares ficam a sotavento da grande ilha montanhosa, portanto existe ampla proteção contra os ventos. A visibilidade é fortemente influenciada pelo escoamento de água da ilha durante as chuvas fortes. Em condições secas, você terá entre 18 a 25 metros de visibilidade em pontos próximos a Soufrière e os Pitons e mais próximo de 15 metros no naufrágio do Lesleen M. A temperatura da água varia de 25°C a 28°C. As condições de mergulho são normalmente benignas, embora possa haver correnteza. Quando a corrente está correndo, a maioria dos mergulhos é feita como mergulho de correnteza (drift dives). Embora seja possível mergulhar mais fundo em muitos pontos, raramente há necessidade de ir abaixo dos 25 metros porque existe muita beleza no raso. Mares calmos, água quente e boa visibilidade são típicos.


Um cardume de xiras

Câmara Hiperbárica: A Sociedade Hiperbárica de St. Lucia (St. Lucia Hyperbaric Society) está localizada no Hospital Tapion em Castries.

Serviço de Eletricidade: A maioria dos resorts tem voltagem tanto 110 quanto 220v, mas pode não haver tantas tomadas 110 em seu quarto. Se você prevê a necessidade de recarregar muitos aparelhos simultaneamente, traga uma tomada múltipla ou algum tipo de adaptador.

Nitrox: Nitrox não é comum nas operadoras de mergulho da ilha. Está disponível no Scuba Steve´s e também no Scuba St. Lucia, que servem Jade Mountain e Anse Chastanet.

Chegando lá: Há vôos diretos para St. Lucia de várias companhias a partir de aeroportos em Nova Iorque, Atlanta, Charlotte, Philadelphia, Toronto, Montreal e Miami, assim como em algumas cidades europeias selecionadas. Outros voos podem fazer conexão em San Juan, Porto Rico. Passaportes válidos são necessários para todos os turistas entrando em St. Lucia.
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© Alert Diver — 3º Trimestre 2014

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