O Verão Sem Fim de Douglas Seifert




Douglas Seifert fotografa um tubarão lombo-preto em Jardines de la Reina, em Cuba.


Talvez houvesse alguma coisa na água. Douglas Seifert aprendeu a nadar no que é hoje um dos destinos mais reverenciados para macrofotografia nos Estados Unidos: o Blue Heron Bridge em Riviera Beach, Flórida. No início dos anos 1960 o condado de Palm Beach era um verdadeiro paraíso; havia poucas lojas de mergulho e pouquíssimos turistas interessados em observar o mundo subaquático próximo à costa através de uma máscara de mergulho. Mas fazer isso era justamente a obsessão de Seifert na infância enquanto ele crescia em Singer Island, Flórida. Ele ia pescar em alto mar com seu pai todos os finais de semana e tinha aquários em casa para os quais ele coletava invertebrados e peixes tropicais. Ele se tornou um entusiástico observador do comportamento dos peixes muito cedo em sua vida.

Embora Seifert não tenha sido aprovado na parte teórica de suas primeiras aulas de mergulho autônomo aos 12 anos – a matemática envolvida nas tabelas de mergulho era demais para ele na época – mais tarde em sua vida ele mais do que compensou e se tornou um instrutor de mergulho, passando a ensinar a matemática que uma vez o confundiu. Sua imersão na indústria do mergulho o colocou em contato com um dos ícones pioneiros da conservação marinha no sul da Flórida, Norine Rouse. "Tire apenas fotos, mate apenas o tempo, deixe apenas bolhas" era o mantra dela, e Seifert era seu protégé. Ele a admirava muito, e a chamava de "essa mulher de 60 e poucos anos descolada, maluca e destemida que toca uma loja de mergulho." Ele se lembra que ela não era uma fã de alimentar os tubarões, mas naquela época poderia haver 20-30 tubarões cabeça-chata ou limão em um mergulho mesmo sem o uso de iscas. Essa era uma época em que em qualquer dia o condado de Palm Beach podia revelar 12-24 tartarugas, a maioria tartaruga-comum. Rouse mergulhava com uma esponja de polimento, e as tartarugas a reconheciam de longe e nadavam em sua direção para que ela limpasse suas carapaças. Ela tinha uma verdadeira conexão com a vida marinha. Sua paixão pelo bem estar da vida marinha era contagiante e ajudou a moldar o compromisso vitalício de Seifert com questões de conservação.

A sede de viagens e uma ambição de vender scripts de TV e filmes para Hollywood levou Seifert para o oeste. Logo desencantado com a indústria do entretenimento, ele vendeu tudo o que tinha para comprar um bilhete -ao-redor-do Pacífico, quando essas coisas ainda existiam. Isso significava que ele podia ir para um lugar como a Austrália, passar algumas semanas lá (ou meses) e então embarcar em outro avião para Fiji ou outro lugar. Seus pais deram um conjunto Nikonos de fotografia para ele como um presente de viagem, embora ele não soubesse muito bem como usá-lo. Enquanto ele estava em Sydney, ele entrou na loja Dive 2000 e encontrou o fotógrafo subaquático Kevin Deacon, que fortuitamente ofereceu aulas para o não iniciado.
Nos dias da fotografia com filme, aprender fotografia subaquática sem instruções era um processo muito lento e implacável, " Seifert se lembra. "Kevin acelerou minha curva de aprendizado, assim como um livro que eu lia quase todos os dias durante quatro meses: Howard Hall's Guide to Successful Underwater Photography. O Howard e eu nos tornamos bons amigos desde então, mas eu duvido que ele algum dia compreenda o quão importante foi aquele livro para mim naquela época da minha vida. " As instruções de Deacon se provaram inestimáveis quando Seifert mergulhou com tubarões brancos em Dangerous Reef, na Austrália Meridional, guiado pelo incomparável Rodney Fox. Naquela época, menos de 100 pessoas no mundo haviam mergulhado com tubarões brancos.

Algum tempo depois, de volta à Flórida, Seifert encontrou Doug Perrine (veja a edição da Alert Diver do outono de 2013) e foi com ele em uma viagem para os Açores. Armado com uma Nikonos RS e lentes 20-35 mm, Seifert conseguiu tirar algumas fotos subaquáticas de baleias cachalotes em uma época em que poucas imagens desse tipo existiam. Ele as mostrou para os editores de Ocean Realm, que alegremente concordaram em publicá-las juntamente com um artigo sobres suas aventuras nos Açores. Naquela época Ocean Realm era a revista de mergulho mais prestigiada, e ter as suas imagens proeminentemente publicadas foi um evento muito importante. Após esse artigo ele escreveu um sobre peixes-boi e dugongos, que foi a reportagem de capa da edição da revista lançada no DEMA (Diving Equipment and Marketing Association) Show de 1996. A indústria da fotografia subaquática reparou naquelas imagens em particular, e isso marcou a entrada de Seifert para a fraternidade do fotojornalismo subaquático. Também em 1996 Seifert começou a escrever artigos para Dive International, uma publicação de mergulho britânica (agora chamada DIVE). Atualmente ele é o editor mundial da DIVE e o autor de uma publicação mensal chamada "Water Column". Ele já escreveu e fotografou cerca de 100 artigos.

Uma marca da fotografia e do texto de Seifert é a exigente pesquisa que faz parte de seus projetos bem antes da viagem. "Se eu não lesse e pesquisasse, não saberia o que eu devo fotografar ou não saberia reconhecer a importância de comportamentos que eu posso capturar", ele disse. "Eu vou para o mar pensando que eu sei algo sobre o que pode acontecer, mas a natureza consistentemente me encanta e vai muito além da minha imaginação. Eu não poderia mergulhar sem minha câmera tanto quanto não poderia escrever um artigo que vale a pena sem a extensa pesquisa que faço toda vez."

Quando perguntado sobre seu câmera favorita para uso subaquático, Seifert responde, "Eu vejo meu equipamento fotográfico como uma caixa de ferramentas. Às vezes eu preciso de uma chave Phillips, outras vezes de um martelo. Há uma ferramenta certa para cada trabalho, e infelizmente não existe um canivete suíço fotográfico. Seria mais conveniente se um fabricante fizesse tudo, mas eu amo os arquivos em 50-megapixel da minha Canon DSLR, com a linda densidade e capacidade de cortes. Eles também fabricam minhas lentes telefoto favoritas para uso acima da água. A Nikon tem uma lente macro 60mm brilhante, que é rápida e muito precisa. Além disso posso usar minha confiável lente Nikonos RS 13mm de 20 anos de idade no corpo da minha Nikon digital através de uma astuta adaptação em minha caixa estanque Seacam. Esse é meu equipamento favorito para fotografia subaquática, especialmente porque tenho uma preferência irresistível por fotografar grandes animais marinhos, como tubarões, baleias e raias manta."

Seifert passa até 40 semanas por ano viajando hoje em dia em busca de imagens subaquáticas. Ele normalmente está acompanhado de sua esposa Emily, que não era uma mergulhadora quando eles se conheceram, mas atualmente já registrou mais de 1.600 mergulhos. A maior parte desse tempo é gasto ajudando grupos de conservação como Shark Savers, Manta Trust e Global Shark Diving.

"Eu gosto do que faço, e a cada mergulho eu valorizo mais meus mentores, que me ensinaram tanto sobre o mar em geral, e especificamente sobre fotografia subaquática, " ele explicou. "Chris Newbert, Doug Perrine, Jim Watt, Avi Klapfer e Howard Hall foram todos muito amáveis comigo. Ron e Valerie Taylor, Stan Waterman e Eugenie Clark me levaram para outro nível de aventura e técnica em nossas décadas de mergulho ao redor do mundo. Eu espero poder oferecer algo para a próxima geração. " Apesar de ter tido uma carreira longa e bem-sucedida, Seifet não tem planos para diminuir o ritmo num futuro próximo. Quando perguntado se ele já planejou diminuir as viagens um pouco, ele prontamente respondeu, "Eu considero Stan Waterman meu modelo, portanto isso significa que devo ter pelo menos mais 40 bons anos pela frente. "

Leia as descrições feitas por Seifert de suas imagens favoritas.
O Homem de Sobretudo Cinza
"Eu sou fascinado pelos tubarões brancos desde que assisti ao filme Morte Branca em Água Azul no cinema quando criança, mais ou menos em 1971. Eu viajei para a Austrália com minha primeira câmera subaquática para conhecer esses magníficos animais pessoalmente com o experiente guia, porta-voz e vítima de tubarão: Rodney Fox. Eu tenho mergulhado irregularmente, mas com frequência, com tubarões brancos na Austrália Meridional, África do Sul e na Ilha de Guadalupe, no México, desde então. Apenas a Austrália Meridional oferece a oportunidade de levar uma gaiola para o fundo e observar os tubarões vaguearem através de canyons rochosos e pela periferia de planícies de kelp e angiospermas marinhas. Eu fiquei impressionado com o quão graciosos e serenos eles ficavam quando não estavam sendo provocados com iscas suspensas a partir de boias na superfície. Eu estava praticamente fora da gaiola quando fiz esta imagem. O tubarão estava realmente muito mais próximo do que parecia através do visor. Eu tentava não pensar sobre isso porque a cena era simplesmente tão eletrizante e linda."






Mantas Noturnas
"O mergulho noturno para ver raias manta na costa de Kona, no Havaí, é um dos maiores espetáculos do mundo subaquático. É acessível a mergulhadores livres e autônomos de todos os níveis, quase todas as noites do ano. A teatralidade do mergulho é surpreendente de se testemunhar; é um show de luzes com raias manta rodando e se alimentando, um Cirque du Soleil do mar. Depois que os mergulhadores se vão, o show ainda continua? Minha equipe e eu passamos algumas noites com um barco, um gerador, e uma iluminação de cinema para descobrir. É claro, onde há comida, há comensais. A iluminação atraia os copépodos para a superfície, onde os peixes os devoravam, e as mantas faziam acrobacias do tipo "barrel rolls" conforme se alimentavam da comida abundante. Esta é uma imagem colorida transformada virtualmente em preto e branco pelas circunstâncias, não por tratamento."






Moréias-Dragão
"Na maior parte de toda sua área de distribuição, especialmente em águas Havaianas, as


moréias-dragão foram comercialmente pescadas excessivamente, até o ponto de serem muito raras atualmente. Mas as moréias-dragão não são pescadas nas Ilhas Marquesas da Polinésia Francesa e são, portanto, mais frequentemente encontradas. Elas não são, de maneira alguma, comuns, mas em uma exploração recente de duas semanas nas Marquesas eu tive a grande sorte de encontrar duas juntas na mesma toca. Foi uma sorte inacreditável, e eu passei a totalidade do meu mergulho me concentrando na dupla, prestando pouca atenção à manta que nadava em preguiçosos círculos sobre minha cabeça."

Fuga de Amor
"Fazendo um trabalho com autorização em Tonga, eu realmente queria ver o que acontece em um ‘heat run'. Cuidado com o que você deseja. Um heat run é um comportamento no qual jubartes macho competem entre si pelo favor de uma fêmea no cio, que eles estão perseguindo a uma grande velocidade.

"Pular no meio de um grupo de agitadas baleias de 12m de comprimento com suas intenções alternando entre a violência e o desejo é algo que você não quer passar tempo contemplando. Como Ron Taylor sempre me aconselhou, ‘Você deve estar envolvido para conseguir. Portanto eu pulei da popa para o meio do caminho das baleias. Eu estava subjugado pela beleza do espetáculo, e o tempo desacelerou como ele frequentemente faz em situações intensas. Para ser honesto, foi emocionante. Para ser realmente honesto, foi aterrorizante. Meu corpo flutuando na superfície era golpeado por cavitações conforme os corpos e caudas das baleias passavam, e elas iam em direção ao mar aberto, continuando seu trem de amor, indiferentes ao atordoado voyeur que deixaram em seu rasto."






Iguana Marinha
"Apenas nas Ilhas Galápagos as iguanas marinhas podem ser encontradas e apenas em uma pequena janela de tempo a cada manhã em águas rasas próximas da costa com grandes ondulações e ondas se quebrando sobre um fundo rochoso recoberto por algas. A fotografia subaquática é mais desafiadora quando você está sendo esmurrado por ondas, jogado contra rochas e protegendo um frágil domo de vidro (e menos frágeis vida e membros) enquanto dá às iguanas espaço suficiente para cuidarem de suas vidas. Eu cresci assistindo a filmes do Godzilla na televisão, e se alguma vez houve a oportunidade de encontrar um Godzilla bem pequeno, ela existe em Galapagos, embora somente de acordo com os caprichos das iguanas marinhas."






Coconut Octopus em um Copo de Guinness
"Cada noite apresenta o inesperado, algumas vezes de maneiras estranhas ou engraçadas. No Estreito de Lembeh, na Indonésia, encontramos um coconut octopus arrastando sua casa móvel – um copo de Guinness descartado – através de um dos pontos de mergulho. Ao ser pego no feixe de luz da lanterna de mergulho, o polvo se retirou para a relativa segurança do copo transparente, talvez não atento ao fato de estar se escondendo à vista de todos. Trabalhando para uma revista de mergulho do Reino Unido, e tendo estado em reuniões da equipe em um bar ou dois, eu achei que parecia apropriado, talvez até destinado aos leitores da DIVE."






Leaf Scorpionfish de Dia e de Noite
"Em uma ilha que visitamos em Cenderawasih Bay, na Indonésia, havia muitos leaf scorpionfish (Taenianotus triacanthus), predadores de emboscada crípticos,


porém fascinantes, que são frequentemente encontrados em pares ou trios. Eles permanecem residentes em formações de coral específicas por meses ou anos e podem ser encontrados em várias cores (por razões desconhecidas) variando desde um branco pálido até dourado, magenta ou marrom escuro. Eu tirei uma foto de um espécimen em um mergulho de manhã e voltei para o mesmo recife para nosso mergulho noturno. Ao invés de usar uma lanterna típica de mergulho, eu usei luzes fluorescentes Nightsea e um filtro para capturar a bioluminescência emitida por muitas espécies de coral enquanto elas se alimentam à noite. Conforme eu apontava a luz azul da minha lanterna Nightsea para a escuridão, o brilho deslumbrante do mesmo leaf scorpionfish destacou-se na escuridão a 5 metros de distância. O brilho laranja vem de uma bactéria bioluminescente associada à pele do peixe. Um colega do leaf scorpionfish, que era marrom durante o dia, não apresentou brilho bioluminescente durante a noite. Acredita-se que o brilho bioluminescente seja visto pelos outros peixes, mas seu propósito ainda é desconhecido."

Three-Spot Frogfish


"Mestres da camuflagem, os frogfish jogam o jogo da espera, prevalecendo em última instancia como predadores de emboscada por excelência. Suas nadadeiras ventrais são modificadas para agarrar como mãos, e eles ficam imóveis por longos períodos de tempo. Eles utilizam uma outra nadadeira modificada que eles manipulam para se mexer como se fosse uma isca viva em uma vara de pesca, atraindo um indefeso peixe ao alcance de ser engolido por uma boca cavernosa. Este three-spot frogfish, fotografado nas Filipinas, apresenta colorações que se misturam com o recife e são aumentadas pelo crescimento de algas, tornando muito difícil detectar o frogfish, mesmo para guias experientes."

Agregação de Snapper
"A Polinésia Francesa é um dos meus lugares favoritos no mundo, e meus melhores mergulhos lá tem sido consistentemente nas Ilhas Tuamotu. Normalmente quando se pensa nas Tuamotus, se pensa em tubarões. Há tubarões (muitos), mas há muito mais. Visitar Rangiroa em diferentes épocas do ano revelará diferentes fenômenos. Em outubro, o recife do lado de fora e Tiputa Pass ficam lotados com uma agregação reprodutiva de humpack snappers (Lutjanus gibbus). O número de peixes deve alcançar as centenas de milhares, se não milhões. Quase não se consegue ver o recife através da massa de peixes."






Tubarão-baleia, Baia Cenderawasih, Indonesia


"Um tubarão-baleia passando sobre minha cabeça fornece uma perspectiva diferente e uma oportunidade para incorporar o sol e a superfície do mar ao clima geral. Em muitas partes do mundo onde o mergulho autônomo ou livre com tubarões-baleia é certo, legisladores autoritários decretaram que a iluminação com flash não pode ser utilizada devido à crença pseudocientífica completamente sem embasamento, na minha opinião, de que os tubarões baleia são especialmente sensíveis à luz. Eu acho esse um dos disparates verdadeiramente irritantes das presunções que os humanos fazem sobre o bem-estar animal. Como um embaixador da Global Shark Diving, é meu dever trazer argumentos embasados para a percepção do público e dos legisladores sobre a verdadeira natureza desses sublimes animais."

Dragão-Marinho-Folhado
"Se houvesse um prêmio para o animal que mais se parece com um carro alegórico em um desfile de Mardi Gras, o dragão-marinho-folhado ficaria bem na frente do segundo lugar. Esses membros singulares da família dos cavalos-marinhos são infinitamente fascinantes de se observar, e eles devem ser observados atentamente se você quiser encontrar seus apêndices entre o kelp e as alga marinhas. As praias esculpidas pelas ondas da Austrália Meridional, onde os dragões-marinhos-folhados são encontrados, são dramáticas, portanto neste espírito eu enquadrei o animal com algas e floresta de gorgônias. Eu enfatizei a forte luz solar, que me parecia a iluminação de uma ópera – Siegfried de Richard Wagner em um teatro cosmopolita, talvez."





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© Alert Diver — 4º Trimestre 2016

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