Diadema, Zelador dos Recifes



A Grande Praga
Na primavera de 1983 os recifes de corais nas Flórida Keys eram bem diferentes dos atuais. Embora encarassem as pressões decorrentes de intenso turismo, poluição e muita pesca, a cobertura de corais estava estabilizada em torno de 25 por cento. Já havia baixado dos 50 por cento desde o começo da década de 1970, mas corais pétreos vivos ainda eram a estrutura viva predominante nos recifes das Flórida Keys. Em cada cabeça de coral e em cada porção de entulho vivia ao menos um pequeno grupo de ouriços de cor violeta com longos espinhos pontiagudos, conhecidos por perfurarem roupas de neoprene e mãos distraídas. Porém, no curso de uma única semana em julho de 1983, os ouriços já estavam mortos ou em vias de morrer. Foi de repente que o Diadema antillarum passou a ser apenas uma lembrança.

Em apenas um ano, a partir de janeiro de 1983, a praga que atacava o Diadema se estendeu desde o sul do Caribe até ao norte das Bermudas. Enquanto a correnteza espalhava o agente patogênico, 92 ou 99 por cento de todos os bilhões de ouriços Diadema existentes neste vasto habitat oceânico, com 1,4 milhões de milhas quadradas, foram dizimados no decorrer de 13 meses. Esta foi a maior mortandade de qualquer forma de vida marinha já relatada, e a espécie rapidamente quase chegou a ser extinta.

Diadema era o principal herbívoro dos recifes tropicais ocidentais do oceano Atlântico. Eles se alimentavam das macro algas que crescem muito nos recifes, e sua atividade alimentar limpa e raspa o substrato de calcário, estimulando o alojamento de corais e outros invertebrados larvares. Sem herbívoros como a Diadema, as algas crescem demasiadamente nos corais, reduzindo a penetração da luz solar, acumulando sedimentos e até causando uma guerra química com os tecidos dos corais. Agora, quase 30 anos depois daquela impressionante mortandade, um modesto regresso de populações de Diadema tem ocorrido em outros pontos do Caribe, mas não nos recifes das Flórida Keys. A recuperação ecológica dos recifes das ilhas Keys é simplesmente impossível sem o regresso dos ouriços Diadema.

Quando Diadema Voltar



Ken Nedimyer e eu, ambos biólogos marinhos e membros do Conselho de Assessoria do Santuário Marinho Nacional das Flórida Keys, conduzimos um estudo a fim de demonstrar o que aconteceria se os ouriços Diadema voltassem aos recifes. No outono de 2001, com o apoio e o aconselhamento do pessoal do Santuário Marinho e do Centro para Pesquisas Subaquáticas Nacional (NURC) da Administração Atmosférica e Oceânica Nacional (NOAA), nós começamos a trabalhar em um projeto de restauração da população de Diadema.

Este projeto movia ouriços jovens sob risco em zonas de entulho para os recifes mais profundos a fim de verificar se eles seriam capazes de sobreviver a essa transferência e, caso sobrevivessem em quantidades satisfatórias (de aproximadamente um ouriço por metro quadrado), se poderiam promover uma mudança no ecossistema dos recifes. Nós selecionamos quatro pequenas áreas de recifes a uma profundidade de 7,5 metros a oeste de Pickles Reef, próximos de Key Largo. Introduzimos os ouriços em dois deles — os recifes experimentais — e observamos os outros dois como grupo de controle. NURC avaliou a ecologia dos quatro recifes antes e depois de um ano da relocação dos ouriços Diadema. Os efeitos ecológicos dos ouriços transferidos para os dois recifes experimentais no curto espaço de um ano foram incríveis.

Nos recifes experimentais, a cobertura de corais pétreos aumentou 59 por cento, enquanto nos recifes de controle os corais pétreos diminuíram 25 por cento. A densidade de colônias de corais juvenis, um indicador do sucesso na reprodução de corais, teve um crescimento de 151 por cento nos recifes experimentais e de apenas 55 por cento nos recifes de controle. A alga coralina, que promove o alojamento e a sobrevivência das larvas de corais, aumentaram 160 por cento nos recifes experimentais e menos de 1 por cento nos recifes de controle. Macro algas marrons que competem com os corais por luz e por espaço diminuíram nos recifes experimentais em 45 por cento, enquanto nos recifes de controle elas aumentaram 31 por cento.

Esse estudo enfatizou e demonstrou empiricamente que é possível se restaurar a população de ouriços Diadema nos recifes de corais das Flórida Keys, e que essa repopulação pode reverter o declínio de corais e reduzir as macro algas que cobrem os recifes.

Cultivando Diadema

Martin Moe cultiva ouriços Diadema, desde larvas planctônicas até ouriços juvenis, em seu laboratório. O auge do seu trabalho vai consistir na reintrodução desses herbívoros cruciais aos recifes de corais das Flórida Keys.

Os ouriços Diadema ainda estão presentes nos recifes de corais das Keys, mas em números tão pequenos que não exercem nenhuma função ecológica. Uma fêmea Diadema pode produzir 15 milhões de ovos a cada desova, mas é necessário que ela esteja próxima de um macho para que a reprodução seja bem sucedida. Assim, se uma população suficiente de Diadema puder ser mantida no recife para mantê-lo livre das macro algas, os corais seriam bastante beneficiados e os ouriços seriam capazes de se reproduzir eficientemente. Tudo que é preciso é desenvolver uma técnica para uma cultura incubadora de Diadema e criar um programa científico para o estabelecimento e manutenção de populações funcionais em recifes específicos. Certamente isso não é algo impossível, e é justificável se puder resultar na restauração e proteção do ecossistema de corais das Flórida Keys, um verdadeiro patrimônio nacional.

Reprodução
Eu mantive um grupo reprodutor de ouriços Diadema adultos com 20 a 35 espécimes no laboratório em um sistema com 750 litros de água do mar por mais de quatro anos. Verifiquei que, caso os ouriços adultos estivessem prontos, bastava colocar alguns em um tanque com água tépida para que eles se desovassem. Esse processo possibilitou uma desova sempre que uma nova geração fosse agendada.

Criação De Larvas



A criação de larvas de Diadema é mais difícil do que a criação de larvas de outros ouriços do mar. Essas larvas de Diadema estão entre as menores de todos os ouriços, e sua vida planctônica é longa. A metamorfose da larva planctônica para o estágio juvenil do ouriço pode ocorrer num mínimo de 36 dias, mas em geral leva vários meses. Essas larvas precisam de um fluxo lento de água, semelhante à corrente oceânica, assim como água com a qualidade de mar aberto, dificultando seu crescimento e desenvolvimento em condições mantidas em laboratório. O sucesso da cultura e do amadurecimento de larvas até a metamorfose para o estágio juvenil dos ouriços foi rotineiramente alcançado em meu pequeno laboratório; e, embora a sobrevivência até ouriços juvenis estáveis e já se alimentando tenha sido problemática, a tecnologia básica para a desova e produção das larvas já foi desenvolvida.



Na primavera de 2011, o projeto entrou na segunda fase e foi transferido para Dave Vaughan no Laboratório de Pesquisas Tropicais (TRL) do Mote Marine Laboratory em Summerland Key. Vaughan está trabalhando com tanques de grande volume para criação de larvas, e conduzindo com sucesso a criação pós-metamorfose de muitos ouriços juvenis já se alimentando. Tendo se iniciado com o trabalho de Tom Capo no laboratório da Universidade de Miami, continuado com o estudo em meu pequeno laboratório e prosseguido para as pesquisas de Vaughan no TRL do Mote Marine Laboratory, o projeto vem avançando agora na direção de estudos comportamentais de ouriços juvenis e pesquisas quanto à relocação e sobrevivência de ouriços Diadema nos recifes. Tenho confiança de que logo será possível começar a próxima fase de pesquisas: o desenvolvimento de métodos eficientes de recuperação e manutenção de populações funcionais desse importante herbívoro nos recifes de corais das Flórida Keys.

Aprenda Mais


Esse estudo foi possível graças ao financiamento do programa de licenciamento de veículos com placas customizadas do Projeto Nossos Recifes patrocinado pelo Mote Marine Laboratory. Com financiamento e apoio contínuo, Diadema poderá em breve regressar aos recifes das Flórida Keys. Você também pode ajudar esse projeto visitando www.mote.org e se engajando como voluntário. Compre uma placa customizada (para veículos da Flórida) ou faça uma doação. Flórida Keys ainda voltarão a ter uma cobertura de 50 por cento de corais como na década de 1970? Talvez seja pedir demais para o futuro próximo, mas com mais Diadema nos recifes, o esforço na recuperação dos corais por parte da equipe de Ken Nedimyer e a melhora na qualidade das águas graças ao tratamento de esgoto substituindo o uso de fossas sépticas, os cientistas vêm desempenhando uma luta louvável.


© Alert Diver — Winter 2012


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