Estabelecendo uma Cultura de Segurança no Mergulho

Uma abordagem sistemática

Neste artigo continuamos a discussão sobre o papel do contexto social no mergulho iniciada no artigo do terceiro trimestre de 2014 "Uma Cultura de Segurança no Mergulho". Aqui, o Dr. Jack Meintjes, um especialista em medicina ocupacional que oferece assessoria a empresas de mergulho (e outras) em questões de saúde ocupacional e segurança, responde a algumas perguntas sobre a cultura de segurança no mergulho recreativo atualmente.

A cultura de segurança foi definida como o produto dos valores, atitudes, competências e padrões de comportamento de um indivíduo, ou grupo, que determina o comprometimento, e o estilo e proficiência, para com programas de saúde e segurança de uma organização.



Como você definiria a cultura de segurança no mergulho?
Eu gosto da definição "a maneira como as pessoas se comportam quando ninguém está olhando". No mergulho nós dependemos de uma série de pessoas para nossa saúde e segurança. Muitos mergulhadores acreditam de boa-fé que o ar fornecido a eles pela operadora de mergulho atende às exigências de segurança, que o operador do barco estará lá quando eles subirem à superfície, etc. Por experiência, entretanto, sabemos que isso nem sempre é verdade. Eu gostaria de ver uma cultura tangível que estivesse presente quando você engaja todas as pessoas envolvidas na operação.



Por que uma cultura de segurança é importante?
Enquanto a maioria das pessoas está preocupada com doenças e lesões relacionadas à pressão, a maior parte dos acidentes não está relacionada à pressão. Eles variam de quedas ou escorregões na superfície a acidentes causados por atitudes ruins ou maus projetos. Isso é importante para todos: Para operadoras de mergulho, isso envolve riscos legais e financeiros, incluindo o risco de uma má reputação. Os empregados da operadora de mergulho poderiam estar expostos ao risco de lesões ou doenças, incluindo doenças causadas por longas exposições aos fatores de risco presentes durante a realização de seu trabalho. Para os mergulhadores que são clientes de uma operação "não segura", o risco de ter as férias de mergulho arruinadas e dos custos médicos e outros custos associados é óbvio.



Quem é responsável pela cultura de segurança no mergulho?
Todos desempenham um papel. Por exemplo, você pode olhar para qualquer documento que tenta regular a saúde e a segurança, seja ele a legislação formal de um país ou as políticas de segurança de uma companhia ou instituição. Se corretamente desenvolvido, esse documento irá tratar das responsabilidades de todas as pessoas que possam vir a entrar no local e arredores. Ele não irá apenas tratar do lado gerencial da segurança, mas também dos papéis de todos os empregados, clientes e até mesmo visitantes. Mas devemos tomar cuidado com a mentalidade do "se todos são responsáveis, então ninguém é", portanto, é importante atribuir responsabilidades a pessoas específicas. Embora todos nós tenhamos uma responsabilidade, nem todo mundo tem a mesma responsabilidade.



Quais são os principais atributos de uma cultura de segurança sólida?
O processo começa com a identificação de possíveis perigos (itens ou ações, ou falta de, que poderiam levar a um acidente ou doença ou outros danos). Uma vez que os perigos tenham sido identificados, cada um deles deve ser avaliado para se determinar o risco associado a ele. Alguns perigos podem ter mais de um risco – um risco de acidente pode também ter um risco de litígio, ou algumas substâncias químicas podem oferecer um risco de dano ao fígado, ao cérebro, à pele e até mesmo câncer. Deve-se determinar o risco de cada um desses resultados. Uma vez que os riscos sejam conhecidos e classificados de maneira a indicar os maiores riscos da instituição, eles devem ser abordados de forma sistemática. Abordar alguns riscos envolve mudanças de engenharia (ex: mudar o desenho de uma escada em um barco de mergulho para evitar acidentes com as mãos), enquanto abordar outros envolve mudanças administrativas relacionadas às regras, procedimentos de operação padrão, treinamento, etc.

Por último, o uso de equipamento de proteção individual deve ser considerado – para lidar com o risco de perda auditiva em operadores de compressor, por exemplo. Quando um sistema como esse é implementado e gerenciado ativamente, as escalas de risco (como foram medidas) irão diminuir. Isso por sua vez irá fazer com que outros fatores de risco recebam notas maiores e, portanto, precisem ser trabalhados. O que ocorre então é que a instituição entra em um ciclo continuo de melhorias em saúde e segurança. Se comportamentos saudáveis e seguros forem recompensados eles se tornam enraizados em todos os indivíduos e se tornam parte da cultura daquela organização. Os atributos principais são a identificação dos perigos, avaliação dos riscos associados a esses perigos, mitigação desses riscos de maneira sistemática e melhorias continuas ao longo do tempo.



Como podemos avaliar a consciência dos mergulhadores com relação à segurança?
Nós desenvolvemos um programa na DAN Sul da África, em colaboração com a DAN Europa, que é específico para o ambiente de mergulho. Nós o utilizamos com sucesso em vários locais de mergulho ao redor do mundo, incluindo algumas operações de mergulho comercial, e temos recebido retornos positivos. Essas operadoras se associam então à DAN, e nós as auxiliamos com uma assessoria especializada (em medicina ocupacional, engenharia, etc.) que pode levar a uma melhora na saúde e segurança delas, ao mesmo tempo em que também reconhecemos seus esforços colocando-as na lista de Diving Safety Partners (DSP). Os mergulhadores podem ver quem são as operadoras conscientes com relação à segurança e mergulhar com elas.

A outra consideração é a avaliação da consciência de segurança dos mergulhadores, o que não começamos ainda. Nós avisamos aos mergulhadores sobre o programa, e publicamos muitos artigos sobre questões de segurança associadas a operações de mergulho, mas ainda não medimos a consciência dos mergulhadores com relação à segurança. Minha ideia seria a de primeiro trabalhar com nossos associados a DAN - tanto através de nossos canais de comunicação quanto em campo.



Quais são as lacunas na cultura de segurança no mergulho atualmente?
As lacunas estão no conhecimento de alguns riscos específicos entre as operadoras de mergulho e na falta de uma abordagem estruturada da segurança no mergulho. A maioria das pessoas lida com os riscos "óbvios", mas eles não são os que causam a maior parte dos acidentes. Algumas vezes os avisos estão lá na forma de quase acidentes. Entretanto, existem muito poucas operadoras de mergulho que medem e avaliam sistematicamente os acidentes, muito menos os quase acidentes.



O que pode ser feito sobre isso, e quem pode fazer?
A DAN Sul da África iniciou o processo com o programa de identificação e avaliação de riscos Hazard Identification and Risk Assessment (HIRA) (veja barra lateral). Uma vez que os perigos e riscos sejam conhecidos, as operadoras podem começar a lidar com eles de uma forma sistemática. Nós também oferecemos uma estrutura na qual esses problemas podem ser trabalhados e funcionamos como um centro de recursos nesse sentido. Entretanto, nós não empurramos essa abordagem, nós a oferecemos. O processo é sempre iniciado pela operadora de mergulho. Nós as convidamos a nos pedir auxílio e então trabalhamos com elas quando solicitado.

Como nós temos uma paixão pela cultura de saúde e segurança no mergulho, nós atualmente oferecemos esse serviço gratuitamente para as operadoras de mergulho da sua região. Nós queremos que os mergulhadores venham a ter a expectativa de um alto nível de segurança e de uma cultura de segurança. Isso iria então tirar do mercado as operadoras não seguras. No final, todos iriam cumprir suas responsabilidades para com a saúde e a segurança.




Quais são os possíveis obstáculos para o avanço da cultura de segurança, e como eles podem ser superados?
Muitas pessoas simplesmente não sabem da existência de padrões de segurança. É comum que uma operação de mergulho venha a fazer alterações mais baratas e fáceis que podem ter um impacto dramático na segurança. Por isso é importante que tornemos a informação disponível a todos os envolvidos. Infelizmente existem ainda muitas pessoas que "têm feito dessa maneira há anos" e não querem mudar – elas simplesmente aceitam uma alta taxa de acidentes.

Eu acredito que o poder está nas mãos do cliente. Quando a expectativa dos mergulhadores começar a ser a de ter mergulhos (e todas as interações associadas) saudáveis e seguros, as operadoras terão que oferecer um serviço assim para sobreviver.
Metas e Objetivos do HIRA
  • Engajar e depois aumentar a participação de todos os provedores de serviço de mergulho.
  • Promover a educação da consciência de risco e segurança a todos os participantes.
  • Oferecer cursos de mitigação e controle de risco baseados em aspectos operacionais concretos.
  • Ter um programa de monitoramento de acidentes em funcionamento para avaliar continuamente a condição do progresso em direção a visão.

Áreas de Risco Comuns
  • Escadas
  • Entradas e saídas, rotas de saída de emergência
  • Hélices e operações de barco
  • Superfícies escorregadias
  • Levantamento de equipamento pesado
  • Perda auditiva causada por ruído
  • Compressores, qualidade do gás, recarga de cilindros, limpeza

FONTE: DAN Sul da África
Conheça o Especialista
W.A. "Jack" Meintjes, MBChB, DOM, FCPHM(SA) Occ Med, MMed (Occ Med), começou sua carreira na medicina do mergulho no Institute for Maritime Medicine em Simon's Town, na África do Sul, e atualmente é médico assessor do Ministério do Trabalho da África do Sul. Ele é o chefe da Unidade de Prevenção e Controle de Infecções da Stellenbosch University e do Tygerberg Academic Hospital e é diretor médico da DAN Sul da África. Um mergulhador apaixonado que já fez vários mergulhos recreativos, comerciais e militares, Meintjes trabalhou em várias organizações de medicina do mergulho internacionais, incluindo o European Diving Technology Committee e o Diving Medical Advisory Committee.
Saiba Mais
Assista ao vídeo de Francois Burman explicando o programa de Identificação e Avaliação de Riscos HIRA (Hazard Identification and Risk Assessment).




© Alert Diver — 2º Trimestre 2015

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