Caça aos Piratas: A Busca pelo Golden Fleece




Howard Ehrenberg segura uma garrafa do naufrágio Nuestra Señora de Guadalupe.


Para muitos não-mergulhadores, é difícil desassociar a prática do mergulho autônomo da ideia romântica de encontrar tesouros de piratas há muito escondidos em naufrágios sob as ondas. Sem dúvida, descobrir naufrágios históricos — e seus tesouros — é o sonho de muitos mergulhadores. Uma vez que colocamos a cabeça debaixo da água, alguns de nós não conseguem parar de pensar sobre o que mais está lá embaixo. Existem milhares de naufrágios perdidos por aí e milhares de histórias ainda não contadas.

Algumas vezes os sonhos se tornam realidade: Eu passei cerca de quatros anos vivendo e trabalhando na República Dominicana a procura de alguns dos mais antigos naufrágios nas Américas.


John Chatterton utiliza uma draga para procurar moedas de prata em um ponto de naufrágio.
A primeira vez que encontrei John Chatterton foi no verão de 2007. Na época eu não sabia sobre suas muitas realizações: eu nunca havia assistido a um episódio de Deep Sea Detectives ou lido Shadow Divers, embora eu houvesse escutado seu nome ser mencionado no ScubaBoard uma vez ou duas. Nós rapidamente nos tornamos amigos, e eu gostava de escutar suas aventuras. Não apenas Chatterton é um dos poucos homens que visitaram o RMS Titanic em seu local de descanso final, como ele também ajudou a identificar o U-896 e encontrou tesouros no SS Carolina, entre muitos outros grandes feitos.

Um ano após nos encontrarmos, Chatterton me convidou para ir para Samaná, na República Dominicana, onde ele e seu sócio, John Mattera, tinham uma loja de mergulho chamada Pirate's Cove Dive Center (Centro de Mergulho Enseada do Pirata). Nós passamos uma semana fazendo alguns mergulhos e treinamento de mergulho técnico em Samaná e arredores, e durante esse tempo eu concluí que o mergulho lá era terrível. Então, para fazer um de nossos últimos mergulhos, fomos para um ponto muito raso, com não mais de 6 metros de profundidade, arenoso e com uma visibilidade ruim. Nós encontramos um objeto cilíndrico que parecia ter cerca de 3 metros de comprimento, e eu imediatamente percebi o que era: um canhão. Eu não podia acreditar em meus olhos. Nós estávamos em um ponto de naufrágio muito antigo, e eu simplesmente fui fisgado.

Afinal, Chatterton e Mattera precisavam de ajuda com algumas de suas tecnologias de caça a naufrágios. Eles possuíam em seu arsenal um magnetômetro marinho a vapor de césio Geometrics G-882 e um sonar de varredura lateral L-3 Klein System 3900, e ambos exigem conhecimento técnico. Eu era um cara do tipo técnico, tendo sido engenheiro de som por 15 anos e um cara que as pessoas procuram para tirar dúvidas sobre computadores, mas eu nunca havia usado nenhum desses equipamentos antes. Mesmo assim, Chatterton disse, "Você é nosso cara. Quando você pode começar? " Dias depois, nós estávamos caçando naufrágios.
Usando Tecnologia para Encontrar Naufrágios
Aqui está a receita básica para encontrar antigos naufrágios: Navios da era Colonial tinham âncoras ou canhões de aço; portanto encontre as âncoras ou os canhões, e o navio deve estar próximo.


Chatterton encontra uma âncora da metade de 1500, o que pode ser evidência de um naufrágio.
As âncoras eram algumas das peças mais importantes de equipamento a bordo de antigas embarcações de madeira, e frequentemente esses navios carregavam várias âncoras reserva. Para nós caçadores de naufrágios existem dois tipos de âncoras: âncoras de trabalho, que estão fixadas no fundo após terem ficado irremediavelmente pressas, terem sido cortas e deixadas para trás; e âncoras que estão deitadas no fundo, que afundaram no decorrer dos naufrágios. As âncoras e os canhões eram tão valiosos que é improvável que eles fossem deixados para trás de propósito.

Para encontrar esses principais indicadores de naufrágios, nós usávamos nosso magnetômetro de césio — um instrumento que pode detectar ligeiras variações no campo magnético da Terra. Como os canhões e âncoras são feitos de aço e, portanto, apresentam polaridade, eles podem ser detectados com um magnetômetro. O magnetômetro também oferece dados que podem ser utilizados para calcular a massa de objetos, sua distância do towfish (magnetômetro rebocado) e, se enterrado, sua profundidade abaixo do fundo. Quando procuramos tesouros rebocamos o magnetômetro atrás de nosso barco de pesquisa e passamos horas metodicamente vasculhando pequenas parcelas de cerca de 2,6 km2 em uma técnica que chamamos de cortar a grama.

As águas que circundam a República Dominicana estão prontas para a descoberta de naufrágios da era Colonial. O oceano Atlântico ao norte de Hispaniola, a ilha que inclui a República Dominicana, tem milhares de metros de profundidade. Conforme você se aproxima da ilha, as profundidades abruptamente se tornam rasas, e um navio em apuros em uma tempestade pode facilmente encalhar. A entrada para a baia de Samaná é particularmente traiçoeira. Por exemplo, nossa área de trabalho principal ficava dentro de uma parte da baia de Samaná chamada Barco Perdido.


Duas balas de canhão: A da esquerda foi encontrada na terra e a da direita foi encontrada debaixo da água.


Após alguns meses nós havíamos localizado vários pontos de naufrágios antigos, alguns dos quais continham canhões e âncoras. Nós também descobrimos armadilhas para peixes, cabos e até uma grelha de churrasco. Infelizmente, nenhum desses pontos continha nada sobre o que valesse a pena escrever. Ainda assim continuamos a vasculhar a área, mergulhar em nossos achados e torcer por algo de valor.

Trabalhar com barcos e tecnologia na República Dominicana apresentava mais um conjunto de desafios. A saber, eletrônicos e água salgada não se misturam muito bem, e nós não podíamos simplesmente correr até a loja de eletrônicos mais próxima quando precisávamos de arame e solda para consertar alguma coisa. Também não era possível encomendar os equipamentos necessários para serem entregues em Samaná, como aprendemos quando um pacote demorou mais de seis meses para chegar até nós. (Nosso endereço era, em tradução livre, "o imóvel perto da beira da água próximo ao estaleiro").
A Busca pelo Golden Fleece
Em 2008, enquanto estávamos trabalhando em Samaná, o famoso caçador de tesouros Tracy Bowden nos pediu ajuda para localizar o navio que pertenceu ao Capitão Joseph Bannister. Bannister não foi apenas um capitão qualquer — ele era um pirata. E, como logo aprendemos, ele era um dos bons.

Bannister foi um capitão respeitável que navegou durante anos entre a Inglaterra e a Jamaica. Mas em 1684 ele decidiu buscar fortuna e glória se apropriando do Golden Fleece, um navio de 30 a 40 canhões com uma tripulação de mais de 100 homens. Os ingleses enviaram um navio que encontrou e capturou Bannister, que foi julgado em Port Royal, na Jamaica. Ele foi absolvido do crime, mas obrigado a ficar em Port Royal. Bannister escapou, entretanto, e continuou suas atividades de pirataria.

Em 1686 foi descoberto que Bannister estava se escondendo e fazendo carenagem (colocar a embarcação no seco para fazer manutenções e reparos) no que hoje é a Bahia Samaná. Os ingleses enviaram dois navios de guerra para capturá-lo e levá-lo a justiça. Bannister, entretanto, era esperto e tinha se preparado para um ataque. Ele tinha descarregado alguns dos canhões do Golden Fleece e organizado baterias na costa. Essa manobra estratégica foi bem-sucedida, e Bannister conseguiu se defender da Marinha Real, um feito espantoso que nenhum outro pirata antes tinha realizado. Após uma batalha de dois dias em julho de 1686, os ingleses foram forçados a se retirar sem seu objetivo, tendo gasto toda sua munição.

Embora os ingleses não tenham afundado o Golden Fleece, ele ficou gravemente danificado e não podia mais navegar. Bannister submergiu o navio e fugiu de Samaná em um navio menor que ele havia previamente capturado. Os ingleses eventualmente capturaram e mataram Bannister no início de 1687, mas o lendário pirata deixou para trás seu precioso Golden Fleece — bem no nosso quintal.


Chatterton documenta uma pilha de lastro usando uma videocâmera.


Para Bowden e o resto de nós, encontrar um navio pirata seria uma descoberta verdadeiramente histórica. Apenas um navio pirata dos anos-dourados, o Whydah, encontrado por Barry Clifford em 1984, havia sido positivamente identificado; um sino com a inscrição do nome do navio foi encontrado entre os destroços. (As identidades de Barba Negra de Queen Anne´s Revenge e do Capitão Kidd de Quedagh Merchant não haviam sido autenticadas na época). Embora um sino de um navio ou outro marcador de identificação possa ser encontrado em naufrágios modernos, esse tipo de prova de identidade é improvável em navios piratas — embarcações que não pertenceram a nenhuma nação e valorizavam o furto e a invisibilidade. Quando começamos nossas buscas, nós não tínhamos nem certeza se o navio de Bannister era batizado como Golden Fleece ou se isso era apenas um apelido.

Bowden é mais conhecido pela recuperação dos galeões conhecidos como "quicksilver" Nuestra Señora de Guadalupe e El Conde de Tolosa, ambos os quais afundaram em um furacão em 1724. Os galeões haviam saído da Espanha com destino ao México carregando uma carga de mercúrio (prata-viva, do inglês quicksilver) e, para muitos dos passageiros, todas os seus pertences mundanos. Os dois navios afundaram próximo à costa da República Dominicana perto da boca da baía de Samaná.

Bowden nos fez concentrarmos nossas buscas no que é hoje chamado de Cayo Levantado. Levantado, hoje em dia um resort luxuoso, era na época chamado de Cayo Banistre (por causa do pirata Bannister). Muitos historiadores modernos pensavam que o Golden Fleece estivesse próximo a Levantado por causa disso.

Para nos ajudar em nossa busca, consultamos alguns especialistas — ou pelos menos seus livros de registros de navios. Em 1687 William Phips e sua tripulação encontraram o naufrágio do galeão espanhol Nuestra Señora de la Concepción perto de Hispaniola. Bowden explicou que Phips havia passado um tempo em Samaná em 1686, onde ele também viu os destroços do Golden Fleece no fundo do mar, de acordo com o registro de um dos navios de Phips, o Henry of London:

Às três horas da tarde o Capitão Phips enviou seu barco longo e o pinnace com bastantes homens e armados para navegar ao longo da costa e ver se conseguiam encontrar alguma evidência de carenagem. A cerca de duas milhas do navio eles encontraram um naufrágio a quatro braças de água e queimada até seu convés, julgaram ser um navio de cerca de quatrocentas toneladas, igualmente acharam dois ou bala de aço que tinham broad arrows (N da T: marca de propriedade dos militares Britanicos) sobre eles, e várias pederneiras... De todas as formas o naufrágio foi identificado como sendo Bannister o pirata que estava fazendo a carenagem dela e foi surpreendido por algumas de nossas fragatas inglesas.
Uma coisa a nosso favor era que essa batalha é a única batalha de que se tem registro na Bahia Samaná. Se conseguíssemos encontrar balas de canhão, deveríamos conseguir encontrar o local da batalha e, finalmente, o naufrágio.

Armados com nossa evidência histórica, começamos a pesquisar todos os lugares ao redor de Levantado próximo a 24 pés — quatro braças- de profundidade. Infelizmente os mapas de navegação da área não eram muito precisos, então acabamos pesquisando muito mais da baia do que o necessário. Após meses de pesquisa encontramos várias âncoras de trabalho entre lixo sem valor e os remanescentes da vida moderna na República Dominicana, mas nenhum sinal do Golden Fleece.


O casco desmoronado do Golden Fleece após excavação.
Havíamos estado procurando, mergulhando e pesquisando a batalha entre Banniser e os ingleses por meses, mas ainda não estávamos encontrando nada. Mas Chatterton e Mattera permaneciam impávidos diante da falta de resultados. Eles sabiam que Bannister era esperto; afinal de contas, ele escapou de Port Royal e evitou a captura pelos ingleses, o que não era tarefa fácil. Mattera, um ex policial, prestador de serviços de segurança e segurança pessoal profissional, não podia imaginar Bannister usando Levantado como seu esconderijo. "Não há lugar para se esconder em Levantado," ele dizia. "Ele não teria nenhuma vantagem estratégica ali. Onde ele teria colocado os canhões, e onde ele iria carenar seu navio? ".

Nossa busca pelo elusivo Golden Fleece foi como desvendar um mistério enquanto aprendíamos a pensar e a agir como os piratas para que pudéssemos entender melhor os prováveis movimentos e ações de Bannister.

Assim como qualquer bom mistério, nós não vamos estragar o final divulgando-o aqui. Para descobrir o que encontramos e como encontramos, leia Pirate Hunters de Robert Kurson (autor de Shadow Divers, best seller do The New York Times), que será lançado em 16 de junho.


© Alert Diver — 2º Trimestre 2015

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