Baia Cenderawasih

A Galápagos do Leste


A baia oferece encontros certeiros e íntimos com os tubarões-baleia.


Uma névoa intensa envolve a cordilheira Arfak. Com sua silhueta contra um mar índigo, essas montanhas evocam a sensação de um lugar onde o tempo parou. Uma paisagem ondulante de palmeiras balançando, praias de areias brancas, manguezais e enormes falésias calcárias de coral abraça uma peculiar baía em forma de cunha. Localizada na margem oriental do arquipélago indonésio, a remota baía Cenderawasih abriga segredos do passado geológico e da evolução tectônica da região.

A baía é facilmente identificada no mapa: ela ocupa a zona costeira do nordeste da Papua Ocidental e lembra um pouco o pescoço de um pássaro. Sua enorme variedade de vida marinha povoa os vários tipos de recifes de corais encontrados aqui: recifes em franja, recifes barreiras, atóis, recifes em manchas e recifes de águas rasas. Os recifes em franja são os mais abundantes e foram cientificamente documentados como os últimos recifes ainda imaculados do mundo. Reconhecendo a importância da baía, em 2002 o governo provincial e a Conservation International estabeleceram o Taman Nasional Teluk Cenderawasih (Parque Nacional da Baía de Cenderawasih) como uma área marinha protegida, a maior da Indonésia.

O plano de manejo do parque estabeleceu 14 zonas de turismo. Até hoje o impacto humano é mínimo, já que há apenas uns poucos turistas por ano e cerca de 20.000 habitantes. É possível viajar toda o comprimento e largura do parque e encontrar apenas alguns poucos habitantes locais. Construções modernas são quase inexistentes; não há um centro esportivo aquático, um Four Seasons ou Hilton. Mas na escala de tempo geológica, grandes mudanças ocorreram ao longo dos milênios.


Peixes-palhaço e outros peixes de recifes tropicais do Indo Pacífico são
comuns em Cenderawasih Bay.
Entre 3 milhões e 14 milhões de anos atrás, lascas de terra movidas por placas tectônicas instáveis selaram a boca da Baía Cenderawasih. Essas obstruções impediram a propagação de larvas oceânicas para dentro e para fora da baía. Assim a vida marinha na baía evoluiu em isolamento. Embora as barreiras eventualmente tenham sido abertas, a soleira rasa e o grande tamanho da baía limitam a circulação oceanográfica, impedindo que as larvas plantônicas cheguem a muitos recifes na baía.

Ao longo dos tempos os habitantes da Baia Cenderawasih nadaram em diferentes níveis do mar; espécies de peixes e corais desapareceram e reapareceram novamente. Durante o Pleistoceno, o nível do mar caiu para 120 metros abaixo do que é hoje. Habitantes dos recifes rasos pereceram, e os animais do fundo do mar encontraram-se perto da superfície da baia. Conforme o nível do mar subiu novamente, inundando a zona de recife seca, esses animais de águas profundas acompanharam o mar em elevação para profundidades na faixa de 2 a 20 metros. Aqui esses habitantes desfrutavam de pouca concorrência devido às propriedades oceanográficas únicas da baia, e espécies de águas profundas como o Burgess' butterflyfish (Chaetodon burgessi), que estão normalmente associados a profundidades de 60 a 80 metros, aqui são frequentemente encontrados a 10 metros de profundidade.

Cientistas marinhos estabeleceram que até tempos recentes a baia estava geologicamente isolada dos fluxos das marés do Pacífico. Esse isolamento consagrou Cenderawasih como um mar antigo com uma alta porcentagem de espécies de peixes e corais endêmicas que não são encontradas em nenhum outro lugar do planeta. O ictiólogo Gerald Allen, Ph.D, um consultor da Conservation International, proclamou a baia "a Galápagos do Leste" com base em achados documentados de um "caldeirão evolutivo" de novos e únicos corais, camarões e peixes. Extensas pesquisas documentaram 995 espécies de peixes e mais de 500 espécies de corais – aproximadamente 10 vezes mais do que todo o Caribe. Atraído pela possibilidade de novas descobertas, fiz sete jornadas a este mar primordial nos últimos seis anos.


Uma tartaruga-de-pente posa para uma foto.
Há algo de decididamente aventureiro e emocionante em voar através de cinco aeroportos em três dias, pulando de um imenso Airbus A380 de dois andares da Singapore Airlines para um turbo hélice de 18 lugares da Xpress Air, chegando em Nabire e sendo prontamente levado para um porto pitoresco ao lado de um estridente mercado de peixes. Minha primeira expedição foi organizada por um quebra-galhos local e utilizou barcos da polícia e equipamento de mergulho da marinha. Nas expedições subsequentes eu viajei em um moderno liveaboard.

Embora meu objetivo principal fosse explorar pontos que não houvessem sido vistos anteriormente e capturar imagens de animais de águas profundas em águas rasas, a grande atração em Cenderawasih são as congregações de tubarões-baleia (Rhincodon typus) na parte sul da reserva. Embora existam vários lugares no mundo onde os tubarões-baleia se reúnam, como Galápagos, Belize, Recife Nigaloo na Australia ocidental e Donsol nas Filipinas, os tubarões são residentes nesses lugares por apenas um ou dois meses antes de irem embora. Os pescadores em Cederawasih dizem que os tubarões-baleia da baia visitam suas plataformas de pesca durante o ano todo.

Minha exploração desse posto encantador e intocado da Indonésia começou com cartas náuticas, um relatório de Avaliação Biológica Marinha Rápida de 2010 feito por Mark Erdmann, Ph.D, e coordenadas tiradas de Diving Indonesia's Bird's Head Seascape (Jones and Shimlock, 2011). Sobre a vastidão do atol eu explorei camadas sobre camadas de gigantescos corais em condições imaculadas; os topos do recife são decorados com alguns dos mais saudáveis prados de corais duros que eu já vi. Os recifes de fora compreendem dramáticas paredes verticais ricas em gorgônias e esponjas coloridas. Nós encontramos bolsões de recifes severamente danificados, o que pode ser resultado de pesca com dinamite ou eventos de branqueamento de corais. Muitas dessas áreas estavam em diversos estágios de recuperação, repletas de colônias jovens de corais-chifre-de-veado.


Enormes gorgônias são resultado do fluxo de água ao longo das paredes.

Antes de irmos nos disseram para esperarmos uma baixa biomassa de peixes. A densidade de peixes era realmente baixa em alguns pontos, mas encontramos imensos cardumes ao longo das cordilheiras repetidamente, especialmente onde as correntes de marés ou oceânicas convergiam. Uma tarde, enquanto fotografava uma vista de um campo de corais duros, eu olhei para cima e vi damselfishes agrupados para uma sessão noturna de liberação de gametas. Devia haver um zilhão deles. Fascinado, eu fiquei até quase secar o meu cilindro.

Nos dias que passamos explorando o atol e os recifes em franja, continuamos a encontrar corais saudáveis; a maioria dos pontos que documentamos eram povoados por corais duros intactos que se estendiam indefinidamente ao longo de encostas de corais em franja. Embora tenhamos avistado apenas dois tubarões, registramos várias espécies de peixes de recife, incluindo barracudas, raias e várias tartarugas-verdes e tartarugas-de-pente. Um guarda do parque estava a bordo nos contando sobre avistamentos anteriores de dugongos e crocodilos de água salgada. Eu fiquei encantado por capturar imagens de algumas espécies endêmicas: um Cenderawasih fairy wrasse, Cenderawasih fusiliers e uma nova espécie de longnosed butterflyfish. Eu encontrei o Burgess' butterflyfish, que normalmente habita águas profundas, a apenas 10 metros de profundidade.

Burt Jones, principal fotografo da expedição Cenderawasih Bay da Conservation International, nos disse para não esperarmos corais moles com folhagem colorida como os de Maldivas ou de Raja Ampat, mas uma tarde enquanto procurávamos um local para um mergulho noturno próximo a Península Napen encontramos uma mina de Salomão de corais moles. Era um complexo de cordilheiras submersas que compreendia duas ilhotas e três afloramentos rochosos que mal rompiam a superfície do mar. Embaixo da água o terreno era uma galeria mista de artistas completamente diferentes: Era como se Van Gogh, Monet e Picasso estivessem em exposição. Encontramos gorgônias laranjas, vermelhas e amarelas em concentrações densas, enquanto urocordados vibrantes floresciam como plantas no Ano Novo Chinês. Coberturas suntuosas de corais moles pareciam desafiar a gravidade. Estava totalmente fora de proporção e fora de lugar; a fantasmagoria parecia uma cena saída diretamente de uma história de Lewis Carroll. Eu nomeei o local Recife Dr. Seuss.


Os pescadores dos bagans são tolerantes e até mesmo receptivos com relação aos tubarões-baleia que os visitam diariamente.
Qualquer exploração de Cenderawasih não estaria completa sem pelo menos três dias de interação com os tubarões-baleia residentes. Somente nos últimos anos percebemos que os tubarões-baleia frequentam as plataformas de pesca locais (bagans). Os pescadores locais nos contaram que os tubarões têm estado por perto de seus bagans desde que eles começaram a operar na baia há 25 anos.

Cerca de 23 dessas plataformas semi-móveis estão localizadas ao redor da Baía Kwatisore, no extremo sul do parque. No crepúsculo os pescadores descem enormes redes abaixo da plataforma até cerca de 20 metros de profundidade. Refletores na superfície iluminam a água para atrair milhões de ikan puri, pequenos peixes de 7 centímetros de comprimento. Os pescadores sobem as redes pela manhã, trazendo toneladas de peixes, alguns dos quais serão coletados e usados como isca para a pesca de sardini. O resto dos pequenos peixes fica na rede, pendurados logo abaixo da plataforma. Os tubarões-baleia da baia aprenderam a sugar esses pequenos peixes da rede. Os pescadores alimentam os tubarões com uma enorme quantidade de ikan puri, e sabemos agora que eles são oportunistas capazes de associar humanos a comida. A Baia Cenderawasih é a primeira localização no mundo em que esse tipo de comportamento do tubarão-baleia foi documentado.


Os tubarões-baleia descobriram que os bagans (plataformas de pesca) são fontes seguras de alimento.
Em nossa expedição de 2015 encontramos 13 indivíduos de tubarão baleia abaixo de apenas um dos bagans. Começávamos cedo pela manhã e raramente terminávamos antes do anoitecer. Típico de tubarões, leões e humanos, os principais horários de alimentação eram de manhã e pouco antes do anoitecer. Às 7 da manhã nós normalmente víamos dois ou três juvenis placidamente sugando a rede, mas às 10 da manhã, oito animais, com entre 2 e 12 metros, podiam estar reunidos para alimentarem-se da rede ou receber sobras dos pescadores. Meio dia era um período de calmaria; apenas um par de juvenis ainda estaria por perto esperando mais sobras. Por volta das 16 horas os raios crepusculares irradiando através da água funcionavam como um sino do jantar. Os tubarões desconsideravam todos os modos à mesa, chegando freneticamente com as bocas abertas, subindo uns sobre os outros com grande pressa, ingerindo o máximo de comida possível antes do anoitecer.

Ao longo dos quatro dias que passamos com esses tubarões todos os integrantes de nossa expedição conseguiram se aproximar deles e fazer contato visual tanto fazendo mergulho livre quanto autônomo. Eles eram gentis e pareciam mover suas poderosas nadadeiras caudais de forma a evitar machucar os mergulhadores. Aparentemente sem oposição à nossa presença, alguns na verdade ficavam em posição vertical ao nosso lado para posar com os desajeitados fazedores de bolhas.


Os tubarões-baleia são filtradores, e usam a sucção para puxar pequenos peixes e krill para suas bocas.


Em um ponto eu estava fotografando três tubarões enquanto eles confrontavam os pescadores no bagan em busca de mais comida. Sem que eu percebesse, dois tubarões maiores se aproximaram do bagan pelas minhas costas. Eu senti um empurrão, e no momento seguinte eu era como presunto entre o pão, prensado entre cinco animais, cada um dos quais pesando cerca de 15 toneladas. Foi um momento desajeitado, com bocas carnudas colossais ao meu redor, mas os tubarões foram gentis e eu consegui escapar do meio deles. Fiquei aturdido, e meu sorriso estava tão largo quanto a boca de um tubarão baleia.


Michael Aw segura a nadadeira de um tubarão-baleia, um artefato trágico do comércio de barbatanas de tubarão.
Sabemos que os tubarões-baleia sobem à superfície para se alimentar de plâncton e pequenos peixes, mas há muito que não sabemos sobre eles. O maior peixe do oceano, eles respiram através de brânquias e são ectotérmicos (de sangue frio), preferindo nadar em águas quentes. Não temos certeza se a população de Cenderawasih é local, mas se os comerciantes de barbatanas de tubarões se mudassem para lá, todos os animais na baia seriam pescados em apenas um par de semanas. Para entender melhor os padrões migratórios desses tubarões, Erdmann fez com que a Conservation International marcasse alguns deles. (Saiba mais em Conservation.org). Os marcadores revelaram que os tubarões não são residentes permanentes da baia, mas alguns retornam todo ano.

O exercício de marcação é um esforço importante para aprendermos mais sobre esses incríveis animais: onde e como eles acasalam, como eles passam os seus primeiros anos e outros mistérios. Os marcadores podem ou não fornecer algumas respostas, mas a principal preocupação é aprender a melhor forma de protege-los e proteger seu habitat para as futuras gerações.

Nós denominamos Cenderawasih Bay um tesouro global. Conservacionista do oceano e lenda do mergulho Valerie Taylor tem uma descrição ainda melhor: a oitava maravilha natural do nosso mundo. Cenderawasih é a personificação da beleza da natureza que atiça nosso fervor de proteger e preservar.
Como Mergulhar Lá
Como Chegar Lá: Criado em 1993 pela República da Indonésia o Parque Nacional de Cenderawasih Bay cobre 14.535 quilômetros quadrados no quadrante sudoeste de Cenderawasih Bay, na Papua Ocidental. Pode ser acessado por mar a partir das cidades de Manokwari e Nabire, que ficam a 97 km ao norte e 40 milhas a nordeste, respectivamente. Existem voos disponíveis para Manokwari, Biak e Nabire.





Condições: O clima é normalmente chuvoso e tempestuoso de fevereiro a maio; a melhor época para mergulhar é de julho a novembro. Os tubarões-baleia são residentes durante todo o ano. Temperaturas do ar e da água ficam normalmente na faixa dos 30°C, e a maioria dor mergulhos são a profundidades entre 24 e 40 metros. Correntes de maré podem ser encontradas em pontos de atol e recife, mas as condições são seguramente tranquilas onde os tubarões-baleia são encontrados.

Câmara Hiperbárica: Os serviços hiperbáricos que tratam mergulhadores mais próximos ficam em Raja Ampat (Papua Ocidental, Indonésia), Manado (North Sulawesi, Indonésia) e Darwin, Austrália.

Para mais informações, entre em contato com a administração do parque no email btnc@manokwari.wasantara.net.id.
Explore Mais
Assista ao vídeo da Conservation International de um tubarão-baleia sugando peixes de uma rede e ao vídeo de Michael Aw, Cenderawasih Bay, An Ancient Sea.





© Alert Diver — 1º Trimestre 2016

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